domingo, 18 de outubro de 2009

Cafeteria





:Oi, você pode pegar uma colher para mim?

:Sim, toma. [...] Ta tudo bem com você, Luis?

:Ta, ta tudo bem. As coisas só andam um pouco agitadas e... quer um pouco de café?

:Não, obrigado... Mas noticias suas seriam legais.

:Nossa, não sabia que sentia tanta falta assim de mim.

:Não sinto. Mas costumo me perguntar porque as pessoas somem desse jeito.

:Ah, você sabe... O de sempre... São as mesmas velhas desculpas de trabalho, falta de dinheiro e de tempo.

:Ta, isso é o que você responde para os outros. Acho que já conversamos a tempo suficiente para um pouquinho de consideração, não?

:Ok, ok. Desculpe. É só que as coisas loucas de sempre estão mais loucas que de costume. E devo dizer que minha vida andou ocilando para tal nível de drama, que ia competir com as novelas do SBT – o que não era o meu objetivo. Mas nada que merece preocupação. Por exemplo, Fabio voltou com o Jornalista niteroiense, a qual eu já havia falado. Não sei se vai dar certo, mas o fato é que ele parece feliz e eu só posso aplaudir o relacionamento.[...] Henrique também. Ele ainda está com Rogério, mas não sei bem porque cada dia mais a gente se distancia. [...] Minha mãe decidiu lançar suas memórias e me pediu para ser o revisor. O engraçado é que antes do terceiro capitulo o livro já virou burburinho entre os familiares, com alguns ameaçando de processo e tudo. O que só fez o livro se tornar mais e mais interessante. [...]

:Não esquece de me mandar uma cópia. Mas até agora você só falou dos outros. E você?

:Eu? [...] Bem, eu ainda estou um pouco confuso sobre muita coisa. Tinha parado de postar porque estava experimentando coisas novas. Um pouco de ilustração, um pouco de musica, fotografia. E acabei me perdendo nisso tudo. [...] Eu e eduardo fizemos oito meses semana passada. E eu fui para São Paulo. Sozinho. Não foi por opção, mas meio que virou uma crise entre nós. Mas não é nada demais. Nada que possamos solucionar. Mas tenho de dizer que aquela cidade mexeu comigo.

:Ah, não... Vai me dizer que aconteceu ‘alguma coisa’ lá?

:Se esta me perguntando se eu traí o Eduardo eu digo que não, não aconteceu. E não tem nada a ver com isso. Acho apenas que fiquei deslumbrado com o que vi. E olha que eu não vi muita coisa.

:Então é um carioca considerando virar paulista?

: Não me entenda mal. Eu conheci pessoas e lugares com o estilo de vida que eu gostaria para mim. E apesar de achar que as Olimpíadas não vão ajudar nada a cidade, eu ainda amo muito o Rio. Tem pessoas e lugares aqui são insubstituíveis.

: Você realmente é confuso.

: Pois é. É unânime. Mas ainda estou vivo e com muito o que fazer. [...] É só não esquecer de mim que eu volto.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Indefinição certa






“Just do it
Because you want it,
Not because you saw it.”

Copacabana Club em Just Do It




Existe uma infinidade de livros, filmes, músicas e blogs que tentam descrever o amor. É o assunto preferido de todos os tempos a ser contado pelas pessoas. Há os que preferem o lado onírico das relações platônicas, com paixões intensas, cavalos brancos e cartões de crédito sem limite. Outros apenas gostam da boa e velha sacanagem. E quando muita gente fala sobre a mesma coisa dificilmente elas entram em conceito. Há os que encontram o amor na fila do pão, há os encontram nos dark roons. Há os que vivem se esbarrando sem nunca sossegar e ainda os que nunca o vão encontrar. Mas mesmo os que já tiveram a decepção do primeiro amor ainda esperam uma historia romântica vinda depois de muita superação pessoal, falas piegas e potes de sorvete. Afinal, qual é a graça da vida sem uma batalha final, sem obstáculos intransponíveis e muitas montanhas para escalar? Mas o que você faz depois de vencer a batalha? Onde você guarda suas armas? Onde você guarda sua vontade de subir quando chega no topo?

A verdade é que eu sentia falta da vida de solteiro. De sair com os amigos para falar mal dos ex namorados, tomarmos umas cervejas e sairmos para a noite; de todo o jogo de sedução que pode rolar: das cantadas baratas dos caras bonitos que não precisavam dizer um oi às cantadas dos caras que mesmo se dissessem tudo não iam levar nada; de paixões descartáveis e de quebrar corações.[...] Isso hoje parece tão distante. Mas o namoro não muda tudo. Não. Passa-se apenas a fazer trocas. Programas a dois são mais interessantes e existe a tentativa de conciliar os espaços na agenda com os amigos [coisa que eu ainda não consigo fazer direito, fato.]. Assim, o que antes era divertida agora parece distante e estranha. A noite, por exemplo, perde sua função, já que só se sai para beber e ouvir musica coisas que se pode plenamente fazer em casa.



Era um sábado a noite de uma semana conturbada de trabalho. Saio às 18 horas e ligo para Edu. Ele havia sido convidado para um brunch metido a coquetel em um clube na praia e estava saindo de lá naquela hora. Mesmo cansado, saímos para comer no Uno Duo no centro e decidir o que iríamos fazer. Ele queimado de praia, eu com olheiras profundas. Que casal encantador. Os meninos iam para uma festa no Cine Ideal,que só valia a pena por ter bebida liberada, e tinham colocado nossos nomes na lista. Por um momento pensamos em ir e então partimos para Copacabana. A praia a noite era inspiradora e pareciam que ate as musicas nas rádios contribuíam para uma noite agradável.

“Lu, hoje tem Ultra Love Cats também, sabia?”

“Sei... Colocaram nossos nomes lá também. Mas acho que seria sacanagem irmos para lá e não termos ido para o Cine.”

“É, eu sei... Não ia querer entrar também, to meio cansado. Mas bem que poderíamos dar uma passadinha na frente antes de irmos para casa, não?”


Havia algo de masoquista naquilo, mas fazer uma social nunca fez mal a ninguém. Achamos Laura saindo de um bar. Laura era uma caloura minha, mas que já conhecia anos antes da faculdade. Era uma party girl completa e estava planejando a sua própria festa. “Vai ser foda! Só vou chamar gente conhecida...” Obviamente ela cantou a gente para entrar na festa, mas já estávamos de saída. Bebemos uma com ela e pagamos a conta. Mas havia algo no sorriso dela quando contava da loucura da festa da noite anterior que me fez lembrar da minha época de festas nonstop. Quando foi que me perdi de mim mesmo? Por que deixei de freqüentar os lugares e falar com as pessoas? Ali eu era um peixe fora d’agua.

Atravessamos a rua e encontramos mais pessoas da faculdade. Luan fazia cena com seu cabelo novo. “Como assim você não vai entrar?!?”, espantou-se. Saímos a francesa e fomos para casa.

“Você sabe... Eu não gosto muito do Luan...”

“Não gosta?”


“Não é ódio. É só porque... sei lá, ele me dá um sentimento que não sei explicar. Ele é simpático, mas não posso deixar de sentir pena dele e dos amigos dele...”

“Olha, de certa forma eu ate te entendo [ate pelo fato de já ter ficado com o Luan], mas porque pena?”


“Não sei... De certa forma eles fazem parecer que a noite é como uma droga que apenas injeta a felicidade que ele precisa para continuar sua infeliz vida.”

Não soube direito o que dizer. Na conversa ficou subentendido que aquilo era ruim, mas que não sabemos o dia de amanha em que nosso relacionamento pode acabar e teremos de estar de volta na pista. E era sempre assim quando conversávamos e um assunto respingava em nós. Havia sempre o que ficava subentendido e eu não sabia o que dizer. Me disseram que amor não era um sentimento, mas uma habilidade. Habilidade que precisava ser trabalhada, aperfeiçoada. Por isso, mesmo neste caminho de duvidas eu escolhi continuar. Não era questão de desistir ou seguir em frente, amar ou não, mas de simplesmente não tentar definir algo que ninguém ainda conseguiu.





Para ouvir depois de ler: Florence and the machine - I'm not calling you a liar

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Vinte um

"Eu não sou tão triste assim,
é que hoje eu estou cansada."
Clarice Lispector







“Depois dos vinte um os anos voam, meu filho. Já você pisca e tem 30 anos. Já, já tem cabelo branco. E já sabe que se precisar dividir tinta para cabelo pode contar comigo.” Disse minha mãe, depois de contar parabéns algumas horas antes. Vinte e um anos. Vinte e um anos e o que para esperar? Nessas horas a gente sempre se pergunta se chegou ao ponto que gostaria estar. E vê que não chegou nem na metade e que apenas está ficando velho. Velho. Velho. Odeio fazer aniversário. Pior que nem sempre eu odiei. Existiu uma época em que eu gostava dos presentes que ganhava, da festa e das pessoas, mas isso tudo se perdeu. Acho que foi quando minha própria vida começou a me sufocar. Mesmo com a gripe suína aumentando minhas férias, eu ainda assim não tive um dia de descanso.

O telefone toca pela quarta vez e eu ignoro. Já sei que é o Henrique. Já sei que ele vai querer que eu arrume alguma coisa para comemorar o meu aniversario. Mas não quero. Já comi o bolo em casa, já ganhei um casaco novo e tenho certeza de que não vão me dar nada para ir para lá. Na sexta vez, eu atendi. Pizza, bolo e cerveja. Com pessoas interessantes tende a ser um bom programa.
“Luis, tem uma festa em Botafogo que dá vip de graça para aniversariante e um acompanhante. Colocamos o seu nome e do Edu lá, porque não vai com a gente?”

No dia seguinte chequei na internet e meu nome aparecia em pelo menos três festas neste mês sem que eu soubesse. No banco de trás de um carro seguimos para lá. Rindo, bebendo, cantando. Uma decepção ao chegar e ver a festa merda que era. Antes da uma da manha tossi minha ida para casa.

“Amor, é o seu aniversario. Vamos passar a noite juntos?”

Consenti. Edu, assim como meus amigos e meus leitores daqui, têm tido muita paciência comigo. Muitas vezes é por causa de trabalho, muitas vezes é por minha causa mesmo, mas já peguei o costume de desaparecer da minha própria vida as vezes.

Quatro e quarenta e cinco da manha. O chão gelado do banheiro de motel parece feito de gelo puro quando não se está vestindo nada. Eu termino de fumar escondido aquele cigarro que deixei no fundo da mochila para que Edu não veja e entro no chuveiro. A água parece mais do que só me lavar, ela me deixa mais leve. O outro há muito dormia e nem reparou que havia saído. Eu não sei como ele conseguia dormir. Era desconfortável, era frio, era até sujo. Mas pelo menos não era solitário. Mesmo assim não conseguia dormir. Era meu aniversario e o cigarro não era a única coisa que eu tinha escondida do meu namorado. Parabéns para mim.


[continua]


Para ouvir depois de ler: Imogen Heap - Canvas

sábado, 11 de julho de 2009

Brasil, um país de todos



Minha cabeça está em parafuso. Sabe quando a bagunça do seu quarto se mistura com a bagunça da sua vida e tudo parece tão fora do lugar, tão desarrumado, tão errado que tudo o que quer fazer é gritar e fechar os olhos na esperança que tudo aquilo suma por si só? É isso. Mas nada some se você só gritar e fechar os olhos. Neste caso você só tem duas coisas a fazer ou arregaça as mangas e faz você mesmo ou paga para fazerem para você. E para isso eu tenho Maria. Maria é a empregada que todo final de semana vem para limpar minhas coisas. No começo ela levava um susto quando chegava no meu quarto, onde também trabalho, mas hoje acho que já está acostumada.

Enquanto tomava um café e reclamava de ter acordado 6 da manha em um sábado para terminar uma ilustração, ela começou a contar a historia dela. No interior de Minas, de onde ela veio, as pessoas acordavam às três da manha para trabalhar na roça o dia inteiro, não serem pagas e viverem exploradas por fazendeiros. Ela já tinha seus 60 anos e não se arrependia de ter saído de lá aos quinze anos para trabalhar no Rio. Ela não teve estudo e sempre trabalhou como empregada. Hoje tinha duas filhas, ambas em faculdade. É uma historia comum se tiver pensando em novelas da Globo, mas para mim foi estranho olhar para uma personagem da vida real.

Em um cotidiano em que a cada momento coisas novas no mundo acontecem e você tem de estar atualizado, onde toda a informação é rápida, vital e precisa ; era estranho me ver de frente do Brasil antigo que me foi ensinado no colegial. A vida hoje gira a 100 por hora todo momento e esquecemos que fora da cidade grande ainda existe um Brasil arcaico, onde coisas como “voto de cabresto” e “trabalho semi-escravo” são coisas que são presentes na vida de muito brasileiro. E em uma semana onde funeral virou show mundial e a discussão política do momento é se um presidente olhou ou não a bunda de uma mulher, a pergunta que bate mais e mais na minha cabeça é que tipo de mundo é esse que está se formando? Sabemos em tempo real o que está acontecendo a quilômetros, mas não vemos os problemas do nosso próprio país? Que tipo de pessoa é o brasileiro que lê religiosamente o twitter para esquecer o quão quebrado e vergonhoso é o seu próprio país? E quem sou eu, Luis, no meio de tudo isso? O mico do “#forasarney” mostrou o quanto nós somos imaturos em questão de administrar o nosso país, porque não gostamos de quem está no poder, mas não fazemos nada contra ele a não ser pedir ajuda para quem nada pode fazer. Acho que é bom vermos a tecnologia a nosso favor para conhecermos pessoas novas e nos divertirmos, mas se não temos a mesma força de vontade para fazer a diferença, para promover coisas boas, para arrumar nosso próprio país como podemos reclamar dos direitos pessoais?

Quando vi a bagunça era maior do que a própria Maria podia arrumar.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mesure your life in love


“No girl should ever forget that
she doesn’t need anyone
who doesn’t need her.”

Marilyn Monroe








Um amigo que lê o blog me ligou e disse que recomeçar falando que ia recomeçar era uma puta sacanagem. E é. Mas as coisas aqui ainda não estão no seu devido no lugar. Sobram papéis espalhados, cartas sem remetente, desenhos sem rostos; nunca que em um mês eu colocaria tudo em dia. Com um ultimo trabalho para fechar o período, eu resolvi me trancar na minha bagunça particular para fechar pelo menos esta pendência. Mas como é solitário o mundo dos livros. Um romance de vez em quando anima os espíritos, mas pesquisas maçantes, analises rasas e desinteressantes são tudo o que você não quer para o final de semana. Vinte minutos depois de fechar a porta do quarto já estava tacando um livro pela janela.


[meu tipo de pesquisa]

E quando toda a pesquisa parece enfadonha apela-se para o guru da falta do que fazer: Orkut. Felizmente para mim, Fabio tinha deixado um recado pedindo para ligar para ele. Apesar de no momento em que escrevo aqui já faz duas semanas que não nos falamos, considero Fabio Braum um bom amigo. Nos conhecemos há um pouco mais de um ano quando ele namorou Henrique, meu melhor amigo. O namoro durou uma semana e quatro dias, mas ele entrou para o grupo desde então. E o tempo só trouxe mais intimidade para falarmos de nossos casos. No caso, ele ainda estava mal por ter acabado o seu relacionamento com Marcos, o jornalista niteroiense. Na minha sincera e cruel opinião o menino era, de longe, o espécime mais desprovido de beleza a passar pelo currículo amoroso de Braum, mas eles pareciam se entender e Marcos conversava bem. O caso deles ia para segunda semana, a semana decisiva para o Fabio, quando em uma festa ele recebeu um presente de dia dos namorados atrasado de um ex que não sabia que era ex. Marcos obviamente ficou puto, deixando a festa para não brigar com o namorado e deixou também o caminho livre para o outro, que acabou sendo mais um idiota-querendo-impressionar-um-cara-com-dinheiro. Antes de mais nada devo pontuar que não tenho nada contra caras com dinheiro querendo se mostrar, mas daí a achar que com um drinque e uma caixa de ferreiro rocher podem nos levar para cama estão muito enganados. É preciso pedir por favor. [Mentira, não é tão fácil assim] Moral da historia: Marcos viajou para Campinas para esquecer Fábio e está lá ate hoje. Fabio por sua vez se voltou para a única coisa que era fiel a ele: o seu trabalho. Passou pela fase “odeio todos os homens”, “o que eu fiz de errado” e “bem feito pelo diploma dele não valer de porra nenhuma” nos primeiros cinco minutos de “All by myself”, que ele sempre coloca como um ritual Bridget Jones pessoal, sendo que a personagem do livro tinha 30 e tantos anos e ele, 18. O drama não durou muito também, porque depois disto sua chefe encheu a mesa com a programação do Viradão Carioca que queria dizer que para terminar tudo aquilo a tempo ele teria que fazer um viradão no trabalho.

Na mesma hora em que chorava lagrimas e venenos com Braum, Eduardo, meu namorado, estava em um restaurante com Sabrina, sua melhor amiga desde o fundamental. Sabrina era uma dessas novas lésbicas, que tem os dois pés bem firmes no armário, na cabeça os sonhos de ‘felizes para sempre’ com o primeiro caso de balada e o discurso de que ‘ainda pode ficar com homens’, mesmo já tendo abolido da vida esta possibilidade. Ela bebe um gole de chopp e segura a mão do amigo. Falava da ironia da vida em voltar para o mesmo ponto, de que ninguém queria nada com nada, que ia cair na putaria e blarblarblar. Como todo mundo que se descobre mas não quer sair do armário, Sabrina era adepta das salas de bate papo. Foi lá que ela conheceu Augusta. Depois de dois encontros em festas de meninas e lugares duvidosos, elas começaram a namorar. Nós quatro já havíamos almoçado juntos e no segundo que coloquei os olhos na outra eu pensei que aquilo não ia acabar bem. Sabrina era elegante, inteligente e estava deslumbrada com a primeira namorada. A outra era uma caminhoneira bronca, desbocada e tinha aquele problema de auto afirmação de que precisava dizer aos quatro ventos que era sapatão. Eu não via nada de casal ali, mas preferi não comentar. Afinal, era amiga do Edu. Semanas depois desse almoço, Augusta pediu um tempo porque estava chateada com ela sem motivo aparente e porque estava tendo problemas em casa também. E assim que desligou o telefone decidiu que ir para a The Week com os amigos era o que precisava para afogar as magoas. Tudo bem que se ela foi para a The Week mesmo ela não ficou com ninguém, pois alem dela não ser muito atraente aquele lugar é conhecido por ter 25 homens gays descamisados para uma mulher que invariavelmente era a garçonete. Mas a sacanagem estava feita. Então Sabrina chorava com Eduardo o triste fato de se ver novamente solteira e sozinha e o amigo nada podia fazer para consola-la a não ser pedir mais uma porção de batatas.

No fim do dia, depois de concluir a minha pesquisa, encontrei com Edu em um bar na praia. Ele me contou que estava preocupado com Sabrina pelo seu pessimismo com a vida, que parecia para ela que a solteirice era sinônimo de solidão. O que me fez lembrar da ligação de Fabio e das mensagens posteriores dizendo o quanto estava se sentindo sozinho. Os dois eram bonitos, inteligentes e absolutos, mas então porque estavam tão assombrados com o fantasma da solidão? Porque gays tem tanto medo de ficar sozinho? “Luis, é complicado. Meu medo é de chegar aos 60, 70 anos e me ver sem familia ou amigos. E família já é difícil já que naturalmente não temos filhos e muitos dos gays são excluídos das suas famílias.”, disse Edu dando a sua opinião. Eu achei aquilo furada. Se o gay é excluído da família então a família não o ama como ele é. Não que seja uma situação fácil ou confortável para todos aceitarem, mas onde existe amor existe compreensão e, quem sabe, um final feliz. E ter filhos hoje não é nenhum problema [mérito que preferimos não entrar porque já tínhamos discutido tudo sobre nossos filhos quando eu fiquei “grávido”]. Posso estar sendo radical, mas para mim você deve sentir medo da solidão quando você não ama as pessoas. É o tal equilíbrio. Para ser amado, é preciso amar e com isso não quero dizer apenas ao seu companheiro, mas sua família, seus amigos e todos os que cruzarem sua vida. Amar sem esperar nada em troca. Então a conversa começa a esquentar. Ele diz que teve amigos que investiu muito e quando souberam de sua opção lhe viraram as costas. Eu digo que eles não estavam prontos e não sabiam amar, mas que um dia poderiam e perceberiam o quanto perderam. E a conversa vira debate e o debate, discussão. Ate que eu paro, seguro o rosto dele e digo “Olha, seu cabeça dura, eu amo você” E o beijo no meio do bar.

“Amor, nossa eu acho que tenho de casar com você. Eu ouço palmas quando a gente se beija.”

“Eu também, mas acho que não é porque nos beijamos. É a mesa no outro canto do restaurante, ta vendo?”

“Ah, então ta, eu tiro o pedido de casamento. Mas será que as palmas foram para nós?”

“Não deve ser aniversário de um deles.”

As palmas e assobios eram para nós. A mesa tinha umas seis pessoas, a maioria homens. Eduardo fechou a cara achando que eram homofobos zoando “os viadinhos no canto”.

“Amor, relaxa. E se for? Deixe eles... Deixe os urubus passeando a tarde inteira entre os girassóis.”


Ele se acalmou e eu saí para ir ao banheiro. Eu tinha acalmado ele, mas não concordava muito. Não estava perto da Farme, mas era Ipanema, não precisava me preocupar. Certo? Não. Era ruim demais o pensamento de que pessoas te odeiam deliberadamente sem te conhecer e podem faze-lo livremente na internet, na igreja, na rua, naquele bar ou em qualquer lugar. Lavei o rosto e me olhei no espelho pensando em toda aquela conversa e os assobios. É ruim o bastante já termos medo da solidão, medo que assumo que já tive, mas pior ainda é temer quando já não estamos sozinhos. É muito difícil para o mundo entender dois caras que se amam? E no final a gente ainda tem que ‘escolher’ entre ficar sozinho e triste ou junto e escondido?!? Não mesmo! Eu sou lindo, absoluto, tenho um namorado gato e não devo nada a ninguém. Quem me ama sabe quem eu sou e os que não me conhecem tem mesmo é de bater palmas para mim. Ajeito o cabelo e saio pisando firme com o meu ego lá em cima para não dar chance para os “homofobos”. Até porque para chegar na minha mesa eu tinha que passar pela mesa deles.

Eis que quando eu passei um deles me chamou, meio escondido, meio envergonhado.

“Olha, só queríamos falar que vocês dois são muito bonitos juntos. E ainda se beijando em publico! Parabéns!”, disse um senhor atrás de seus óculos de aro grosso. Logo todos os outros da mesa vieram me cumprimentar. Falaram que acharam demais, tiraram fotos, pediram e-mail. Eduardo, percebendo que eu não voltava foi atrás de mim e ao chegar naquele grupo tão alegre ficou desconcertado por achá-los homófobicos. Eu ria de nervoso, também não esperava por aquilo. O grupo era de sua maioria gay e se reuniam todos os domingos naquele bar para conversar e falar besteira. Inclusive nos chamaram para nos unir a eles. A gente já estava de saída, mas deixamos o nosso contato para sairmos uma próxima vez. E saimos rindo, sem medos do que estava por vir. E de Crossfox.




*Queria aproveitar e agradecer a galera que comenta, a galera que não comenta mas segue e a galera que não comenta nem segue, mas sempre vem dar uma olhadinha aqui. Ainda to me organizando, mas daqui a pouco volto com força total respondendo os recados de vocês. beijos, L.C. *


Para ouvir depois de ler: Little Boots – New in town

domingo, 28 de junho de 2009

Rise



"A maquilagem diz-nos mais que o rosto" (Oscar Wilde)




Oh, As férias! Às vezes seria interessante se durante a vida pudéssemos dar paradas estratégicas para organizar os pequenos problemas, como quando você a arrumação de armário que sempre é deixada de lado ou quando resolve colocar em ordem os livros e dvd’s na estante. É preciso tempo, um som ambiente muito bom e força de vontade para não deixar a arrumação pela metade. Não foi bem por isso que parei de postar. Meus dvd’s ainda estão desarrumados. Acontece que às vezes me dá vontade louca de trocar tudo do lugar, tirar as fotos, de fechar todos os textos mazomenos, de fazer algo diferente ou ser diferentemente igual... É loucura, é TOC, o que seja! Mas depois de um mês sente-se falta, né. E é sempre mais difícil voltar. Não se sabe onde parou, o que já se fez ou o que ainda falta fazer. O mais estranho é como as coisas mudaram neste meio tempo.

Fábio, por exemplo. Agora ele dorme no trabalho para economizar tempo. Não nos vemos mais. Ele só sai do escritório para beber na Lapa e pedir a comida pelo China Inbox – orgulha-se da sua recém adquirida habilidade com os pausinhos. E cada vez mais sente que havia vendido a sua alma, infelizmente por um preço muito a baixo do mercado. Mas enquanto ocupasse a sua cabeça com trabalho pelo menos ganhava algo em troca. Diferentemente do seu ultimo relacionamento com um jornalista niteroiense, que ocupou a sua cabeça, seu tempo de trabalho e uma gaveta no seu armário para terminar com uma ligação malcriada. Tempos difíceis, mas que iam melhorar. Tinham de melhorar.

Já Henrique figurava o lado oposto. Desempregado, sem faculdade e com um namorado endinheirado. O sonho de todo gay? Não. Mais e mais ele ficava dependente de Rogério. “Vamos sair?” “Não sei, deixa eu perguntar para o Ro.” Foi o final de pelo menos três ligações com ele. Também já estamos há algum tempo sem nos ver. E por mais que ríssemos do seu momento víamos que ele não parecia feliz daquele jeito – até porque a culpa era exclusivamente dele. Era falta de oportunidades, mas esta situação também ia melhorar. Tinha de melhorar.


Não posso dizer que não tenha desperdiçado nada, pois a minha distancia também foi devida a causa de financeiro-amorosa. Na verdade foi uma epifania, um insight de lucidez. Era a saída do trabalho na livraria, quando um colega me dá carona para casa e fecho a porta atrás de mim e faço um jantar e durmo. Isso acontecia praticamente toda a noite mas nesta em especifica ao fechar a porta eu me vi dentro do meu maior medo. Era uma rotina. Não a rotina produtiva, mas a rotina confortável do “é esta é a minha vidinha e estou ok com isso.” As portas dos meus vinte e um anos e eu me vejo ganhando dinheiro com algo completamente diferente do que eu tinha planejado. Não era este o Luis que eu via quando era criança, ou antes de entrar na faculdade. Não era este o caminho que eu queria tomar, então porque eu deixei as coisas continuarem o mesmo rumo? Sei que na ultima temporada havia falado sobre o ensino que lobotomiza e não inspira. Mas quando o rumo que se toma vai em um caminho diferente do que traçou você senta e deixa as coisas rolarem? Bem, eu não. Dá comichão, pinica. Então abri-se um projeto paralelo e fecha-se outro. Tudo para ver a minha situação melhorar. É a vida.


Então sem mais delongas eu volto a vida online com meus posts semanais neste curto-logo post de retorno e apresentando a vocês a temporada 3 deste blog:


Para quem é carioca, Ipanema não é só um lugar é um estado de espírito. E a minha vizinha tem sido palco de boas historias então nada mais justo de homenagear a ela.







Para ouvir depois de ler: The Gossip – Heavy Cross

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ato final: Gravidez [in]desejada



[ O amor maternal faz-nos ver que
todos os demais sentimentos são enganadores ]
- H. Balzac




Hospitais sempre tiveram um ar estéril para mim. Salas de esperas beges com enfermeiras de jaleco verde lavado e revistas duvidosas disponíveis para os que esperam. O inferno não seria muito diferente. Mas depois de alguns minutos você acaba sucumbindo e pega uma daquelas revistas para não pensar em quanto tempo ainda falta para te chamar.

Trinta e cinco minutos, duas revistas ‘Caras’ e uma receita da Ana Maria Braga depois meu nome é chamado. O médico, que havia sido indicado pelo meu pai, não era bem o que eu esperava. Dois minutos de conversa e eu já o achava um babaca machista, pois somente um escroto pode começar uma frase com “As menininhas de hoje em dia...” quando questionado sobre um possível problema na bolsa escrotal. Calça no chão e o ele faz o seu exame. Ao contrario de alguns filmes pornôs, esta é uma situação extremamente constrangedora, especialmente pela visível cara de nojo do doutor. Ele segura, mexe para cá, brinca com ele e depois lava a mão compulsivamente.

“É, cara, eu to achando que é varicocele, mas só com uma ultra-sonografia para confirmar.”, disse enquanto secava as mãos. Não sei da onde ele tirou intimidade para falar assim comigo.

“Varico... vari.. o que? Bem, eu quero saber como eu consegui isso.”

“É genético. E acontece mais ou menos na sua idade... Ainda bem que você veio cedo quando ainda estava começando...”

Eu respiro aliviado
“Que bom... mas qual o tratamento?”

“Eu preciso confirmar antes com a ultra, mas o tratamento é apenas operatório.”

“Operação? E o que acontece se eu não o fizer? Algum risco de vida?”

“Não, mas corre o risco de infertilidade.”

Convenientemente naquele mesmo andar tinha uma ultra-sonografia — com uma taxa extra, é claro. Mas eu nem me importei, pois a ultima palavra do médico ficou retumbando na minha cabeça. Infertilidade. Infértil. Do jeito que ele falou não pareceu um diagnostico e sim uma opção. E será que eu iria querer ter filhos algum dia? Mesmo sendo gay e por isso quero dizer que biologicamente eu não posso ter filhos com o meu parceiro, ate o momento procriação nunca foi algo que almejasse.

Sai para comer algo antes de enfrentar a fila no ultra-som e enquanto almoçava lembrei que um ex-namorado uma vez me disse que adoraria se seu namorado um dia chegasse para ele e lhe surpreendesse dizendo que esperava um filho dele — se fosse biologicamente possível, claro. Seria um filho do amor deles. Este é um tipo de surpresa que não temos, e juro que quando ele me contou esta historia eu dava graças a deus por não poder engravidar. Mas diante de tudo isso — de filhos de amor, de esterilidade, de almoço... — eu pensei “e se...'s" o que não foi muito difícil, pois quando voltei à sala de espera, esta estava lotada de mulheres grávidas e crianças de colo — o que tornou tudo mais perturbador.

É neste ponto que eu paro para dizer o quanto às mulheres são corajosas e abençoadas por poderem gerar vida. Naquele lugar eu via que mesmo a mais pobre e a mais rica tinha uma relação de tanto amor com o filho que é difícil pensar na quantidade de dores que ela sentiu para tê-lo. E dor é algo que nós homens não estamos acostumados. Pelo menos não como elas. Mas e se os homens pudessem ficar grávidos?

É a minha vez na sala do ultra-som. O lugar se iluminava apenas com a luz da maquina e do banheiro. O técnico me cumprimentou com a cara mais entediada no mundo, o que eu não entendia, já que ele só trabalhava dois dias na semana. Ele me perguntou o problema e pediu a receita do medico. Revirou os olhos lendo o papel e pediu para que baixasse a calça. Calça no chão novamente. Me senti até mal porque nunca um homem foi tão inexpressivo ao me ver pelado. Deita na cama de barriga para cima e besunta-se com um gel gelado. E naquela posição, vendo de soslaio formas fantasmagóricas e impossíveis de se distinguir no monitor que me senti realmente como uma mulher grávida e vou dizer que não senti conexão nenhuma com aquilo. Ainda bem, pois engravidar com vinte anos não ia me fazer bem mesmo.

Sai do exame e liguei para Edu dizendo que tinha saído do ultra-som e que o filho era dele. Ele ficou em silencio por alguns minutos tentando entender o que havia dito ate dizer que quem quer que seja que tinha ligado errado, então eu contei tudo, do médico babaca ao desejo de gravidez. Ele riu. E todo esse pensamento sobre filhos, médicos e gravidez terminou naquela noite, quando passei mal provavelmente por algo que comi no almoço e virei a noite vomitando. O episódio todo me rendeu uma semana de piadas sobre estar grávido. E embora isso tenha passado, eu não ainda não marquei a operação e não sei se vou marcar. Tenho preocupações financeiras maiores agora e isso não vai me matar.




Agora eu deixo você. Obrigado por ter me acompanhado, falado, ouvido ou pensado mas fecho a segunda temporada aqui e me dou umas boas férias. Não será muito tempo, mas o suficiente para que tenha muito mais para contar quando voltar.

Vocês ainda não se livraram de mim. Beijos, L.C.