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domingo, 4 de setembro de 2011

Como esquecer seu EX




É nesse clima de sorvete na frente da TV, lagrimas e óculos escuros que eu, Luis, e Marc resolvemos interferir pela primeira vez no Crônicas e não escrever uma crônica e sim um serviço de utilidade pública inspirados no texto do Thiago. Depois de uma longa pesquisa por bares e noitadas, aqui estão em 6 passos como esquecer o seu ex:


1º passo
 Puxe o fio

O relacionamento morreu, mas você ainda ta ligado. O primeiro passo é preventivo: corte a comunicação com ele. Que pode variar desde apagar o telefone dele da agenda para não ligar quando estiver bêbado (culpados) ate fazer uma fogueira com as fotos e um boneco de vodu dele. A idéia é a mesma de todo o vicio: admita que ele não esteja afim de você e tire ele da sua vida. Quem vai estar perdendo é ele e você tem de seguir em frente. Um erro comum é achar que podem voltar como amigos, o que pode acontecer em um futuro distante quando ele for casado, careca e/ou com 20 filhos, mas se você ainda tem sentimentos por ele nem tenta. As mídias sociais são outra armadilha. É praticamente impossível resistir a espiadinha quase masoquista de ver como ele está, mas se esta querendo esquecê-lo exclua e bloqueie sem dó. Quando terminar essa parte, pegue seu telefone, ligue para as amigue e passe para o próximo passo.


2º passo
A tríade da mudança

As comédias românticas americanas revolvem muito em cima desse milenar ritual. 8 entre 10 pessoas passam pela tríade da mudança como primeiro passo para esquecer alguém e os 2 que sobraram fazem pelo menos um deles sem perceber. Ela parte do principio que para mudar a vida é preciso querer mudar e nada melhor para dar o primeiro passo do que mudando você primeiro. Um corte de cabelo novo , uma roupa diferente e você é outra pessoa. Não tenha medo e faça ou use aquilo que nunca pensou que fosse usar. Depois saia com amigues e encha a cara em uma festa. Aproveite o som alto para gritar com seus fantasmas. Se a noite não te atrai a opção é a famosa cena de Bridget Jones em que com um pote de sorvete você canta/grita “All by myself” com seu pote de sorvete (Se ainda não viu este clássico, sente o naipe no video abaixo). Por ultimo, é a fase Greta Garbo em que decide ficar só. É o momento de ser realista e pensar o que ganhou, o que não deu certo e deixar o relacionamento onde ele deve ficar: no passado.



3º passo
Transforme raiva em combustível

Um dos efeitos colaterais dos dois primeiros passos é inevitavelmente lembrar do maldito com o atual ou do traíra te traindo ou simplesmente pensar no calhorda. Lembranças voltam como refluxo e você vai se ver roxo de raiva. Este é o momento perfeito para descontar tudo na pilha de trabalho atrasado. Seu chefe vai adorar sua eficiência e pode te dar um aumento. Fique rico com a raiva dele. Se não for trabalhada, a raiva vira ciúme, e ciume por algo que não é mais seu é cavar o seu próprio buraco no ciclo vicioso. Outra válvula de escape ótima são exercícios físicos. Pedale como se não houvesse amanha e começará o verão bem. Assim poderá colocar em pratica a próxima etapa.


4º passo
Matemática emocional: Três caras bons são igual a menos um ruim.

 Esta é uma dica meio delicada porque é muito fácil ir para uma festa executá-la de modo errado e voltar para a estaca um. Mas partindo do principio que encontre três caras interessantes, não ao mesmo tempo e não necessariamente em uma festa, você vai esquecer o falecido rapidamente. A idéia aqui é a substituição de lembranças junto com a diminuição de eventuais carências que a separação traz. O funcionamento é simples e de modo progressivo: por exemplo, você acabou de passar da fase de raiva e da fase de não querer ver nenhum homem pintado na sua frente, então começa a sair com o carinha da sua faculdade, que é uma graça mesmo sendo um pouco mais novo que você. No começo é normal as lembranças do dito-cujo voltarem porque o defunto ainda não esfriou. Mas conforme passa do solteiro numero 1 para o solteiro numero 2 elas começam a ficar vagas e no terceiro definitivamente elas já serão historia.


5º passo
Escreva mas não envie 

Esta deveria ser a primeira das dicas mas esta aqui porque durante todo o processo deve ser feita. Cada pessoa se expressa de um jeito – escrevendo, ilustrando, dançando,... – então durante cada etapa no processo de esquecer alguém você tem de jogar fora toda a angustia, mágoa, medo e tudo o que queria ter dito. Se você trabalha com arte ou tem alguma delas como hobby este é o momento de catarse emocional a ser usado. O mais importante é: guarde para você. O desenho ficou bonito? Ele tem esse significado para você. O texto descreveu tudo o que sente? Ele tem esse significado para você. Se pretende mostrar para os outros, camufle as feridas, travista as verdades e deixe tudo com o ar de ficção realista. Se não o fizer, terá uma porta para criticas em lugares que não vai querer ser criticado.


6º passo
Ria de si mesmo, mas principalmente ria dele

Depois de cortar a comunicação, se recompor e se reinventar, ganhar uma compensação, um bofe e um hobby novo as coisas começam a ficar mais claras. É quase certo que no começo achasse que tinha perdido o cara da sua vida, mas quando olha direito vê que ele não gostava do que você ouvia, falava mal dos seus amigos, tinha hábitos estranhos, etc. O que queremos dizer é que de longe sempre vemos o príncipe no lugar do sapo, mas só quando quebramos o feitiço que nos envolvia é que podemos avaliar realmente por que não deu certo. O ponto alto do processo é a pergunta “o que eu estava pensando quando estava com ele?”. Lembre-se das coisas ruins que aconteciam, mas não deu atenção, dos incômodos e dos problemas que com certeza tinham. Vista o pretinho básico e enterre de vez esse defunto.


Agora, verdade seja dita. Nada é certo nessa vida, nem mesmo esses cinco passos. Existem defuntos que descansam eternamente em paz e aqueles que insistem em sair do tumulo. Não podemos garantir que vai esquecê-lo mesmo se fizer tudo direitinho. A única coisa que é garantida é que a vida continua e se você continuar junto com ela com certeza vai sobreviver a um coração partido.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ressacas ou Sete coisas impossíveis antes do café





Bom dia.

‘dia.

Por favor, pára de fazer barulho com esse isqueiro. Parou de fumar de novo?

...e de beber também. Não preciso de mais noites como a de ontem.

Bom pra você. Assim não fica dando em cima do namorado dos outros...

Não fode, Luis. Não quero brigar com você de novo.

...

Tem café?

Tem. [...] Porque acha que brigamos tanto?

Não sei, Marc... Porque gostamos de fazer as pazes?

Risos. Nunca sei quando está falando sério...

O que aconteceu ontem à noite? Odeio beber e não lembrar como cheguei nos lugares.

O de sempre. Ficamos na Farme bebendo ate de madrugada, você passou mal com vodka e energético, eu tava de saco cheio daquele grupo de venezuelanos dando em cima da gente, arrastei você ate aqui e você desabou no sofá.

E quando nesse meio tempo eu recebi vinte ligações e dois recados na secretária do celular? Putz, não quero nem ouvir... Morri pro mundo hoje.

Pois é cara, você e telefone ontem. Tava foda... Sua sorte é que seus ex já sabem que você bebe e liga pra eles então já desligam o celular.

...

Não fica assim, Lu.

Desculpa. Carnaval definitivamente já não é o que costumava ser.

A vida não é mais o que costumava ser pra nós.

Posso passar o dia aqui, Marc?

Claro que pode, Greta Garbo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Retrato Falado



"Reality doesn't matter,
What matters is the illusion"
Whatever Happened to Dulce Veiga?
by Caio Fernando Abreu



Rubem era um artista da fome clássico. Daquele que não come pão pra comprar tinta. Seu trabalho era algo perto do medíocre, mas sua paixão era algo para se impressionar. Ele tentou me salvar. Ele viu meu trabalho de pintura numa modesta exibição que montei e ninguém soube da existência. Rubem achou que ali tinha alguma coisa, tinha potencial. Seus sentimentos eram nobres, mas só dei atenção ao que falava por sua bundinha, o que não era muito nobre da minha parte. Mas não passou de olhadas , já que ele era comprometido – o que não anulava sua beleza. Saímos da galeria para um café para conversarmos.

Rubem estava na segunda faculdade, fazia cursos extras através das bolsas que conseguia e a cada novo estudo se apaixonava por algo novo. Já havia tentado tinta óleo, aquarela, marcenaria, litografia, trigonometria, dança contemporânea e mais cinco ou seis coisas que misturavam tudo e não acabam em nada a não ser experimentalismo. Há pouco mais de três anos estava casado com um cara e morando junto com sua mãe, viúva. Ele era a razão de continuar tentando mais do que só pagar as contas do mês. Nessa hora, seus olhos brilhavam babacamente ao falar do marido, o que me deu uma certa inveja. Rubem fez questão de contar que quando o viu pela primeira vez o achou o homem mais lindo que já vira e, ao contrario do senso comum, decidiu que ele precisava saber disso. A teoria de Rubem era de que se xingamos um desconhecido na rua a plenos pulmões por pisar no nosso pé, deveríamos também ter coragem de dizer no mesmo tom que achamos bonito um estranho na rua. Algo como um equilíbrio cármico, espalhar o bem ou algo assim. Então ele andou ate a fila do pão, meio tímido, meio canalha, tocou o ombro do rapaz e disse ‘você é lindo’, assim a queima roupa. Um minuto de silêncio constrangedor e o cara achou que ele era maluco. Pagou sua conta, sorriu amarelo e saiu andando. Meses depois se esbarraram em uma festa de um conhecido em comum e riram sobre o episodio. A festa durou 6 horas, mas a conversa deles durou por três anos, disse fechando com mais um dos sorrisos babaco-apaixonados. A moral da história é que amor podia estar em qualquer lugar, até na fila de pão. Que seja, pensei. Pagamos a conta e trocamos contato para montar uma exposição conjunta.

Cinco meses depois Rubem e o rapaz se separaram. ‘Tinhamos interesses diferentes’, ele disse. Eu também não voltei a pintar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Apenas números

smoke
“There is a man playing a violin
And the strings are the nerves in his own arm”
— James O’Barr, The Crow






Já era mais do que noite. As ruas escuras e vazias se acendem com a iluminação das festas enquanto todos dormem. Duas e trinta e cinco. As cortinas da varanda se mexem lentamente atrás de mim enquanto termino o cigarro e a garrafa de gin. São tudo o que preciso para esquecer o quanto essa época de fim de ano me deprime. São esses momentos sozinhos comigo que consigo colocar em ordem o começo e o fim do que faço. E o que eu faço? O que eu quero fazer? Faz tempo em que não tenho certeza do que eu quero da vida. E sempre tem alguém que pergunta. Nessas horas me lembro do meu chefe, gordo na superioridade da sua cadeira reclinável achando que todas as minhas reações são passiveis de análise e explicação. Fico sempre esperando ele virar pra mim e dizer que estou demitido. Por uma vez apenas queria ter a coragem de responder pra ele e pra quem mais perguntasse que eu não sei o que eu quero da vida ou se eu quero pensar em algo alem do meu próximo copo que vai me fazer esquecer que tenho de escolher alguma coisa pra mim. O mais escroto disso tudo é saber que por mais que odeie como essa coisa de chefe-funcionário funciona com bajulações e falsas compensações, eu ainda quero fazer parte dela. Digo, ainda quero ter dinheiro pra não me preocupar em ter dinheiro. Não ficar em hotéis vagabundos como este seria um começo. Melhor, já que é pra almejar, eu queria fazer duas viagens inúteis ao ano para ter fotos pra esfregar na cara de gente que só se interessa pelo que acham que sabem de mim. Ou pra tirar onda de bacana e bancar algo incrivelmente estúpido só para aparecer em uma revista e me chamarem de visionário, como aqueles riquinhos metidos a artista. Coisa de gente branca, diria Sofia. Um carro quebra o silencio da madrugada coincidentemente na hora em que meu copo é só gelo com água. É um sinal, devia estar tentando dormir.

Um último cigarro sentado na cama. A luz da rua fazia sombras sobre os lençóis que se movimentavam com a respiração dele. Não sei por quanto tempo o fiquei olhando. Armando ou Antonio. Não tenho certeza do nome. O triste é que nem precisei de muito para que fosse ate ali comigo. Se despir hoje em dia é fácil. Ser interessante por mais de uma foda é que está difícil. Era o caso dele. Uma típica boa foda e péssima conversa. E aquele ritual já era conhecido. De manhã ele pediria meu telefone. Eu diria que não tinha, mas que ele me desse o dele. E pede que ligue para marcarmos mais um encontro como este e eu nunca ia ligar. Eu nunca ligo. A previsibilidade era a parte apática de tudo. Mais algumas horas e seria um novo ano. Um ano novo, uma chance de recomeçar como alguém diferente. Gostava de pensar q na segunda feira depois do porre do ano novo eliminaria meus vícios, seria presenteado pela sorte e a partir daí tudo estaria esquematizado na minha vida para dar certo. Só que eu tinha 25 e pro meu plano dar certo deveria ter começado aos 18. Foda-se. São apenas números.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Real ghosts come twice






Às vezes simplesmente você se cansa. Cansa de procurar a metáfora perfeita. Cansa de tentar ver as coisas de modo diferente. Cansa de tentar ser tudo o que quer ser. É quando a vida passa por cima de você. Ou um carro há 70 por hora. É mais difícil digitar com uma mão só, mas definitivamente se tem mais tempo para pensar nas coisas.

Scarface passava na MGM, o único canal a cabo no quarto de hospital. Violência, drogas e Al Pachino como Tony Montana. Absolutamente genial para alguém em recuperação. Gosto quando um filme é tão bom que me faz mergulhar em sua historia. Ou esquecer a fratura na tíbia. Escapismo sempre é um bom analgésico para tudo.

Mas o filme eventualmente acaba e o que fica é aquele vazio, daqueles em que se olha em volta e percebe tudo fora do lugar – vida financeira, vida amorosa, perspectiva de futuro – e começava a questionar o que realmente estava errado nisso tudo: se era eu ou resto do mundo.

Era o ultimo dia ali. Estava esperando a enfermeira entrar para sua ultima checagem. Ao invés da senhora que trocou meus curativos enquanto estava lá, quando na porta se abre um enfermeiro entra. Silencioso, ele pega o prontuário e lê. De alguma forma, seu rosto é ligeiramente familiar, mas minha memória nunca foi boa.

“Sr. Marc. Está tendo alta hoje.”, disse sem levantar os olhos.

“Que jeito sério de dizer que estou livre.”, tentei descontrair. Ele deixou escapar um sorriso ainda mais familiar. Aquilo tudo era muito estranho.

“Pois é...”

“Pode me ajudar a levantar?”

Ele chegou perto e passou meu braço por cima dos ombros dele. Realmente, eu não precisava de metade daquilo para ficar de pé, mas foi uma chance de chegar perto dele. Então inclino meu corpo pra frente como se fosse esbarrar nele e ficar a centímetros de sua boca. Ele fica com a respiração ofegante, mas não como se estivesse surpreso ou excitado. Era difícil de definir da onde vinha aquela tensão. Ele se desvencilha e me deixa cair pesadamente na cama.

“Você não lembra de mim, não é?”

“Você é bem familiar, mas por enquanto é apenas o meu enfermeiro.”

“Um ou dois anos atrás. Saímos de um luau em Ipanema e ficamos juntos...”
esta reticência foi a mais amarga que ouvi. Um nome me veio.

“Matheus?”

Ele assentiu. Saímos juntos umas duas semanas no máximo depois desta festa em que nos conhecemos. Ele definitivamente estava mais interessante agora do que na época que o conheci e não era como se agora eu tivesse varias opções.

“Olha, não vim reclamar a ligação que tinha me prometido ou pedir nada”, ele disse, “Apenas estava curioso para ver você. Sabe o que é mais engraçado? Antes de entrar eu estava fantasiando em como seria esse reencontro. As falas, as reações... Mas agora que estou te vendo eu entendi uma coisa.”

“E o que seria?”

“A gente se beijou, transou e eu cheguei achar que te amava, fantasiava mesmo... mas nunca cheguei a realmente conhecer você... Isso é uma conclusão estranha e por incrível que pareça , libertadora...” , riu-se, ”Melhoras e tenha uma boa vida, Marc.” E fechou a porta atrás de si.

Por cinco minutos pensei achei que era foda ter passado na vida de alguém e marcado deste jeito. Depois vi que era babaquice pensar isso. Na verdade era estranhamente trágico, pois alem de não estar com bem com o que deveria estar eu ainda conseguia ser um completo estranho para pessoas que me amavam. O que é uma pedra para quem está soterrado em problemas?

“Pelo menos não está chovendo”, pensei ao ligar para pedir um taxi.

“Você só achará finais felizes em livros. Em alguns livros.”
Autor desconhecido

sábado, 15 de maio de 2010

Salas de espera




Destino. Só paramos para pensar em destino como algo fechado e amarrado quando algo bom que não esperamos acontece. Mas e quando as coisas boas que esperamos não acontecem? Como saber se esperamos acontecer ou corremos atrás?

“E porque você escolheu publicidade?”, perguntou o entrevistador para ganhar tempo.

“Sempre gostei de como as propagandas influem nas vidas das pessoas e quero fazer a minha parte influenciando as pessoas.”, disse mecanicamente. Apesar de o pensamento ser sincero sempre ia com respostas decoradas. Ajudam na hora do nervosismo.

“Mesmo? Deixe-me ver aqui... Marc, não é isso? Estou aqui com o seu currículo... Escola de Bela Artes... tem inglês fluente?”

“e um pouco de francês e espanhol também...”

“Bom, bom... Bem o caso é o seguinte, temos uma vaga de estágio em criação e nesta semana estamos entrevistando os que passaram pela pré-seleção... e você realmente parece promissor.”

“oh, obrigado... Quando posso começar então? rs”

“Gosto de sua animação, mas tenho algumas perguntas antes. Temos de nos conhecer não é?”

Qualquer argüição é sempre meio tensa. Já havia ido a algumas entrevistas, mas aquela era especialmente mais tensa por ser para um lugar onde realmente queria trabalhar. O estúdio estava em expansão e era no centro da cidade com tudo para se inspirar e crescer dentro do meio criativo. Encaixava-se perfeitamente no meu plano. Primeiro passar para uma boa faculdade, arranjar um estágio no meio dela, ser efetivado, comprar um apartamento, abrir meu próprio estúdio, entrar pra história da humanidade, dominar o mundo. Simples não?

“...seis horas por dia, mas tem algum problema sair daqui mais tarde?”, disse o entrevistador já se levantando para me levar a saída.

“Não, acho que não...”

“Ótimo! Maravilhoso! Ainda tenho mais uma entrevista na quarta, mas a vaga é praticamente sua! Pode deixar que te ligo. Eu vou te ligar[...]”

Acho que ele percebeu pela minha reação, mas no momento em que falou esta última frase eu sabia que ele não ligaria. Foi como ver aquele cara na festa pedindo seu telefone quando você sabe que ele não é o tipo que liga no dia seguinte. Não tem nenhuma evidência, simplesmente você sabe que ele não está assim tão afim de você.

Apesar disso ainda mantive um pouco de esperança. Passou a quarta-feira, passou o mês. As outras entrevistas sumiram junto com o telefonema do tal entrevistador. E o desespero da falta de perspectiva começou a bater no fundo da garganta. No quinto dia, já me via na frente do caixa eletrônico vendo o saldo da conta onde o valor mostrado era quinze reais maior do que a conta que segurava na mão. Era angustiante. Não iria passar fome, mas aquele era o momento de apertar o cinto e tentar pensar em saídas para não entrar em cheque especial.

Meu primo me conseguiu um bico como auxiliar de escritório neste meio tempo. O dinheiro era pouco, mas entre ganhar pouco e nada é preferível pagar as dívidas. Eu repetia para mim mesmo que era apenas uma sala de espera para o resto da minha vida. Apenas uma sala de espera.

Meu trabalho se resumia em arquivar e copiar. Às vezes tinha a impressão que nem eles sabiam o que me pediam pra arquivar. Às vezes tinha a impressão que o mundo de copias que me pediam era uma forma de passarem a frustração deles para mim. Mas a luz verde da Fotocopiadora tinha o poder de me desligar de tudo. Algo necessário para viver ali.

Em uma dessas idas a fotocopiadora conheci Ricardo. Ele fazia Gastronomia e aquele também era um lugar transitório para ele. Não prestei muita atenção no resto porque estava mais de olho na tatuagem na panturrilha dele, mas pensando melhor depois o lugar me pareceu um grande hiato para pessoas tentar viver a sua vida. Claro que havia os que gostam de trabalhar lá, mas muitos passavam por ali porque não conseguiram o que queriam para as suas vidas. Então o que fazer quando as coisas não acontecem do jeito que a gente quer no momento que a gente quer? Estava tudo certo, eu estava preparado para estagiar, era o meu momento, mas simplesmente não aconteceu. Era um caminho certo e de repente não é mais.

Enquanto saia do trabalho não conseguiria pensar em outra palavra para definir esse meu estado atual que não destino. Só podia ser destino que fizesse com que alguém com mais preparo pegasse justamente a vaga dos meus sonhos. Era destino que me colocou na sala de espera onde todos os outros esperavam a sua chance. Era destino que fez com que o motorista daquele carro resolvesse atender o celular no exato momento em que eu estava atravessando a rua.

Continua...


"Esquecer é uma necessidade.A vida é uma lousa,em que o destino,para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito."
Machado de Assis


sexta-feira, 7 de maio de 2010

Nos olhos





Eu devia aprender a dizer não em certas ocasiões... Me meteria em bem menos situações embaraçosas simplesmente exercitasse mais a minha falta de sociabilidade. Mas seguindo a máxima do Jim Carrey, dizer não pra tudo quer dizer não viver as opções que tem pra se viver. E foi justamente em um desses momentos em que eu queria muito ter dito não, é que inspiração para começar a escrever me veio.

Era uma lanchonete meio engraçada esta. Tinha uma decoração meio mambembe e infelizmente, não tinha serviço. Sentado na minha frente estava Eduardo, tentando fazer um garoto de quatro anos ficar parado por cinco minutos, como se fosse possível. O garoto corria e mexia nas coisas com aquela típica curiosidade infantil. Com a brincadeira, o menino deixa o catchup cair da mesa e sujar tudo. Então ele dá a volta para ficar de frente a sua obra de arte, me olha com seus olhos azuis gigantes e mostrando seus dentes de leite dá aquele sorriso desconcertante de quem sabia que tinha feito besteira. Eduardo limpa o menino de um jeito quase paternal e diz para ele ir atrás do ‘tio Lu’.

“Desculpe, esse menino sempre faz bagunça”, disse ele meio sem graça enquanto tentava achar alguém para limpar a sujeira.

“Ah, não, não tem problema... Criança é assim mesmo e não me sujou.[...] Ele se parece bastante com você...”

Ele riu largamente como se tivesse ouvido algo que sempre dizem pra ele. “ah, bom pra ele. Ainda bem que não é bom ser parecido com os pais, aí sim seria ruim... RS... eu sou só o padrinho, a mãe dele está vindo buscá-lo...”
“ah, desculpe, eu só...” não deveria nem ter vindo, pensei... “er, eles estão demorando não?”

“é, acho que foram fabricar a bebida. [...] Como você e o Luis se conheceram?”

Havia pouco tempo que conhecia Luis. Ou muito tempo. Sabe, eu e ele já tínhamos estudados juntos em um colégio religioso, mas por sermos de séries diferentes nunca nos falamos apenas ficávamos nos esbarrando e olhando um para o outro com aquela cara de ‘já-te-vi-em-algum-lugar’ até começarmos a nos esbarrar na faculdade e aí sim começarmos a conversar. De certa forma acho que esta história toda não ia interessar a ele então me limitei a dizer “de vista na faculdade... rs”

“Não sabia que estudava lá... Estou quase me formando. Mas qual o seu curso?”

“Pelo tempo que a gente esperou na fila esta bebida tem de estar realmente boa”, disse Bruno chegando com as bebidas junto com Luis, antes que eu pudesse responder.

Com os quatro sentados começaram as conversas completamente aleatórias, na qual me contive a sorrir e virar copos. Não tinha idéia de porque tinha sido arrastado para ali, mas estava achando aquela situação o cúmulo do bizarro. Eu explico.

Há pouco mais de um mês, eu e Bruno estávamos juntos. Até que ele decide que não devemos ficar mais por motivos aleatórios que ainda não consegui entender e terminamos. Íamos fazer um ano e quatro meses e estávamos fazendo planos. Tínhamos um pouco desgaste, é claro, mas não se pode esperar que seja primeiro mês de namoro pra sempre, não? Aí eu fico na merda, sofro um pouco, vejo filmes depressivos e volto à vida normal. Então, no meio de uma semana de aula daquelas Luis diz que precisa da minha ajuda e pede para eu encontrá-lo ali onde o meu ex e o ex dele, que agora eram namorados, marcaram de se encontrar como se todos fossem velhos amigos. Isso definitivamente era perturbador na minha cabeça.

O bom é que eu realmente não precisava falar nada já que com meia dose de qualquer coisa o Lu consegue falar por uma mesa inteira. Mas a situação não deixava de ser incomoda. A conversa girava em volta de uma viagem a Curitiba que – mais uma coincidência – todos íamos fazer em julho, mas em semanas diferentes. E no meio das historias de bebidas que esquentam e o que se pode usar com polainas, eu me afundava cada vez mais esperando a deixa para sair dali.

“Marcos, tem algum problema? Você ta tão quieto...”

“Não, eu... Desculpem, mas acho que eu vou partir... Tenho algumas coisas pra fazer e...”

“Eu vou com você!”, se precipitou Luis.

Nessa hora tive certeza de que aquele encontro era tão bizarro pra ele quanto estava sendo pra mim.

“É melhor todos irmos também, meu bem...”, disse Eduardo para Bruno, sacando o celular para tentar encontrar a mãe do menino. “a Karine já devia estar aqui para levar ele...”

Vendo as despedidas, o garotinho sai correndo e se aperta nas pernas do Luis. E ficou abraçado como se tivesse se despedindo eternamente. Foi meio triste na verdade, então Luis percebendo se abaixou para falar com ele.

E então eu pude encará-lo. Não sabia o que deveria sentir ou dizer ou fazer, mas me pareceu natural procurar os olhos do Bruno. Onde foram parar aqueles olhos que me deram esperança? Não, não procurava o cara que esteve comigo no ultimo ano, mas qualquer coisa, qualquer pista que pudesse me relacionar. E não sei explicitar o que vi, mas tive a impressão que ele também estava procurando essa esperança. Foi então que percebi. Por mais que meus sentimentos por ele ainda estivessem ali, não havia ação a ser tomada. Não havia palavra de consolo boa para me fazer esquece-lo, não havia declaração apaixonada capaz de trazer o passado de volta. Não éramos as mesmas pessoas que tinham se apaixonado. Não sei o que levou ele a não querer lutar mais por nós, e mesmo que tudo o que ele tenha me dito sobre isso seja falso, ele já tinha decidido seguir em frente com Eduardo.

Não sei se isso te parece confuso ou se deveria me explicar mais, mas no segundo em que nossos olhos se encontraram - e que pude ver que o mesmo aconteceu com Eduardo ao telefone e Luis com o garoto - percebi a ironia de nós quatro naquele lugar, desejando algo que não vai voltar. E sinceramente, este carrossel de emoções não é o que eu quero pra mim.



‘I was so blind
I could not see
Your paradise
Is not for me’

Paradise (not For Me)


Recomeço é o meu tema aqui no Crônicas. Ainda não sei se vou aderir as temporadas como o Luis fazia, mas certamente terão algumas novidades por aqui. Meu dia de postar é sempre às sextas-feiras e queria saber de você não só o que a achou do texto, mas o que acha do blog em si, coisas legais, coisas que podiam mudar, enfim obrigado pelos comentários e até a próxima semana!

Marc

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mais cinco minutos


Ta tudo errado.
Cinco e trinta e cinco não é uma hora humana para se acordar, é um pesadelo.
O despertador no alto do seu estridente alarme é apalpado de todas as maneiras para que se cale.
Mais cinco minutos de semi consciência em que se deseja se rebelar contra tudo simplesmente fechando os olhos. Fodam-se os compromissos e as pessoas que dependem de mim, minha cama é o meu mundo agora. Por cinco minutos apenas.
É assim que se entra em parafuso. É assim que se esquece quem é.
Passo por passo vou pegando coisas no chão que possam me dar uma pista do que eu tenho de fazer hoje.O tempo do lado de fora é medido de forma diferente. Enquanto um sapato é colocado, minha cabeça já fez mil cálculos. Como começar? Como explicar o que parou? Porque deveria me importar? A casa não é minha, o espaço não é meu e a vontade eterna de recomeçar é apenas outro meio de dizer que tudo está uma merda, o que a esta hora da noite eu não posso dizer se é verdade.
Se você me conhece da vida real, provavelmente vai me deixar passar.
Se já me viu em algum lugar online, pensará duas vezes.
Mas se você não sabe quem sou, volte agora. Não tem saída para onde eu quero ir. Mas bem que posso usar a sua companhia. Meu nome é Marc. Eu sou o novo autor-herdeiro de Crônicas. Gostem ou não, pelo menos é uma continuação...



“Nº2: Quando algo é bonito automaticamente é verdadeiro.”
James St.James, Party Monster