quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

A última vez que digo seu nome

Roberta é uma das minhas colegas de trabalhos. Aos 27 anos, mora sozinha e estava em pleno dilema amoroso. E seu nome era Paula. Quando estavam perto de morar juntas e praticamente se casarem, Paula decidiu que queria um tempo para encontrar com outras pessoas e ver se era aquilo mesmo que ela queria. Essa historia me foi contada em um dos intervalos do trabalho segurando choro e olhando duro. Eu via que ela queria parecer forte quando era difícil ser. E também via que mesmo a Paula indo visitá-la todos os dias no trabalho e com Roberta estando chateada com esse ‘fode e não sai de cima’, elas tinham ali tinha algum sentimento de verdade, embora uma delas não estivesse vendo. Como se amor verdadeiro fosse obvio apenas para quem sofria. E sim, é claro que eu me identifiquei com isso.

Poucos arrependimentos passaram pela minha ate-agora-breve vida. A maioria deles foram de coisas que fiz a mais e só uma de que não fiz, mas que me questiono se me arrependo mesmo. ‘Estar procurando alguém para amar é bom e achar alguém que valha a pena e que se apaixone é melhor ainda. Mas não se evolui deste jeito, tendemos a nos acomodar.’, disse Fabio, 18 anos mas com experiência de 30 em uma de nossas conversas de bar. ‘Hoje sei que estou fechado para o amor. Sequei mesmo. Mas estou indo muito bem no trabalho e ganhando mais a cada dia. Isso me basta. Prefiro ser sozinho em meu Audi em Nova York do que ter essa perdidamente apaixonado e na merda.’ Decretou depois da primeira garrafa. E de certa forma fez sentido. Sua historia era parecida com a minha e foi difícil conseguir que ele contasse. Eles se conheceram pela internet por acaso, se tornaram bons amigos, começaram um romance que se transformou em paixão e que acabou por imaturidade amorosa de um ou dos dois. No caso dele, o outro não soube amá-lo. No meu caso, tenho quase certeza que fui eu.


o doce veneno do escorpião

Em ambos os casos, as confidencias de ambos retumbavam lembranças do Ale. Ao mesmo tempo pensava no Jo, tão disposto a amar alguém que não quer amar. E em André, que ainda não tinha algo de verdade com ninguém enquanto eu tinha um mundo nas minhas costas. E só temos 1 ano de diferença. A conclusão que chego é que dentre sofrer por amores ou viver com as dores, eu preferi colocar meus óculos escuros e seguir meu caminho. Era o fim de dezembro no verão mais frio e chuvoso, não havendo tempo melhor para deixar uma lembrança partir. E vendo as ondas de copa engolindo o símbolo dessa lembrança, nosso anel de compromisso, eu deixo ele partir e ser feliz. 2009 reserva algo muito melhor para mim...






Obrigado a todos os amigos e leitores que me ajudaram, comentaram e apoiaram. E que venha o ano que vem.






Para ouvir depois de ler: Death Cab for Cuttie - I’ll posess your heart

domingo, 28 de dezembro de 2008

Dança das cadeiras

[ Continuação de Teorias ... ]

Com o natal chegando perto, a carga horária no trabalho aumentou. Logo, livros e livros tornaram a fazer parte da minha vida. Inclusive estava pensando em escrever um. Provavelmente ia parar na sessão infanto-juvenil gay, um fracasso de vendas. E enquanto imaginava a trama, e da minha vida posso tirar varias, senti um toque no meu ombro.

‘ Oi, você trabalha aqui? Pode me ajudar a procurar um titulo? ’, disse o moreno de terno com um sorriso educado e barba por fazer.

‘ Awn...Claro vamos em um terminal... ’, respondi sem graça saindo dos devaneios literários.

Ele estava procurando um livro sobre a psicogênese da língua escrita e começou a contar como ela levou a teorias construtivistas. Não prestei atenção em uma palavra, só nos olhos deles que não saiam de mim. Ele me pergunta minha opinião sobre o assunto.

‘ Desculpa, não posso ajudar. Só leio livros de arte e romances franceses. ’, cortei antes que ele continuasse sua aula em plena loja.

‘ Romances são fantasias. Existem problemas reais mais interessantes e instigantes para se ler... ’, disse com o desdém de como se fosse achar um exemplar de ‘Sabrina’ nas minhas coisas.

‘ Eu gosto de fantasias. Dão a falsa impressão de que um dia podem acontecer comigo. ’, rebati seco, porem sincero.

Ele abaixa a cabeça e vira ate ficar perto do meu ouvido: ‘Você não acredita que romances podem acontecer?’

Visivelmente sem graça, respondi que não como quem diz sim. Ainda bem perto de mim ele pergunta que horas que saio do serviço.

‘ Desculpa, mas não dou essa informação a estranhos. Especialmente os que não levam livros. ’

‘ Não seja por isso. ’, puxa um livro qualquer da estante, ‘ Embrulhe este pra presente. ’
Quando pego o livro ele me puxa meu braço para centímetros do seu rosto.
‘ Meu nome é Jonas, mas pode me chamar de Jô... Muito prazer. ’

O momento que mais me atrai é sempre o flerte. Há algo na leve dança de olhares que dizem o que as palavras não querem dizer e nas palavras que saem sempre denunciando segundas e quartas intenções que me deixa louco. Ele paga o livro e se vai. Faltava uma hora e meia para que eu saísse.

Não foi surpresa quando sai deparar com ele em um café logo em frente ao lugar lendo o livro que havia comprado. E embora possa soar romântico agora, o que passou na minha mente era que o galante rapaz podia ser na verdade um psicopata maníaco hater de filme americano. Prevenir é melhor que levar coió.

‘ Se incomoda se caminhar com você? ’

‘ Pode, é um país livre. [...] Por acaso você ficou me esperando sair? ’

‘ Não, foi mera coincidência... Eu estava lendo o livro que comprei... ’

‘ ahãm, sei... Assim como é coincidência o caminho da sua casa ser o mesmo que o que eu vou fazer... O que você quer? ’

‘ O que eu quero? Nada, é apenas uma noite agradável e eu estou caminhando nesta direção também. Alias, você não está indo pra casa agora? ’

‘ É, estou... O meu dia foi cansativo e... Hey, você não é nenhum maluco psicótico, né? Porque aviso logo que tenho 8 kilos de livros nessa bolsa e não tenho medo de usá-la!’, “Cem Anos de solidão” e “Dom Quixote” podem ser usados como arma branca.

‘ Uau, me ameaçando... mas foi você que puxou papo na loja. O que VOCÊ quer comigo? ‘, disse, num tom malicioso querendo uma resposta ― que eu não ia dar.

‘ Eu estava apenas fazendo meu trabalho. Reclamação direcione a gerencia. ’

‘ Eu tenho uma reclamação a fazer! Porque você não consegue olhar nos meus olhos enquanto diz isso?!? ’

Pouco a frente de onde estamos meu ônibus chega. Eu queria continuar para ver onde essa conversa ia chegar, mas ele viu nisso uma deixa.

‘ Este ônibus serve pra você, não serve? Porque você não entrou nele? A conversa está interessante assim? Admite o que você quer comigo, vai... ’

‘ Não seja por isso...! ’, disse transtornado subindo no ônibus segundos antes dele partir e ver que ele fazia sinais para o ônibus parar.




E enquanto sentava e imaginava uma rocambolesca cena em que ele entrava em um taxi e dizia ‘siga aquele ônibus’ [o que não aconteceu ], eu recebi uma mensagem de Andre.


Ele sendo simpático e eu dando corda pra outro. Não era uma coisa justa, mas quem disse que a vida é?
Sabia que ainda ia ver Jonas. Mesmo assim, não me animei com ele, assim como não havia me animado com André.

É uma dança das cadeiras injusta, onde duas cadeiras bambas não me fariam sentar tão cedo. Mas a musica continua a seguir.









Para ouvir depois de ler: The Marcels - Blue Moon

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Teorias para afinal não se ter alguém

Um amigo jornalista uma vez me contou sua teoria sobre o amor, a que melhor definiu relacionamentos ate o momento. Para ele, uma relação estável funcionaria como um banco com três pernas: a atração física, as conversas em comum e a química entre os dois. Estamos sempre à procura de um banco estável para ficar, mas é quase impossível achar um, sempre será necessário calçar um dos pés para que não fique bambo. Traduzindo: você pode achar o cara mais gostoso e com o melhor beijo da sua vida, mas que além disso ele seja inteligente ou que tenha uma cultura boa vai ser difícil... Mas se o resto valer a pena, porque não? O problema existe realmente quando se tenta compensar demais os problemas entre os pés, o que fatidicamente leva o banco a cair.

Não confio muito na internet para trazer namorados. Nunca freqüentei bate-papo por não ter saco para as mesmas historinhas. Ok, não sou tão old school, só não dispenso uma boa química. E ao inverter a lógica real-virtual de conhecer alguém nem tudo termina como esperava.
André é uma graça. É simpático e engraçado, além de ter um peitoral largo que adoro. Mas quando sentamos para conversar no jardim da faculdade naquele final de novembro, senti por ele uma boa amizade. E só. A conversa girou em torno de uma festa que ele quer fazer, no estilo das festas alternativas cariocas. E como de festas eu conheço, já tinha varias idéias para ela [que prometo divulgar por aqui caso ela se concretize]. Agora não sei se isso é bom ou ruim. Por um lado achamos várias coisas em comum e criamos algo parecido com um laço. Por outro, bromance nunca fez a minha cabeça. Então mesmo que estivesse no ar a idéia de ficarmos, não era isso que ia acontecer. Pelo menos não agora.

Era também um pouco do reflexo do que estava sentindo. Como estava recém solteiro e de saco cheio de relacionamentos, afundei de vez a cabeça no trabalho. Para ajudar minhas finanças nesse fim de ano, peguei um extra de natal em uma livraria megastore.
Logo, consegui me destacar nas vendas e conseguir livros de graça. Como emprego de verão é ótimo, mas estando exposto e lidando diretamente com o público aparecem alguns... inconvenientes.

“Oi, você tem ‘O Crepúsculo’?”
“Tenho. Está R$ 39,90...”
“Nossa!! Mas por esse preço o seu telefone vem junto, né?”
¬¬

São essas pequenas coisas que vão minando qualquer possibilidade de sentimento. O ego vai lá pra cima, claro. Mas a vontade de ficar com alguém vai lá pra baixo...


Amargurado, eu?



[continua]





Para ouvir depois de ler: Kanye West – Coldest Winter

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Cinderela Boy

A minha freqüência cada vez menor aqui reflete o quanto minha vida anda louca. Trabalho novo como extra de natal e fim de período em faculdade — com grandes chances de não conseguir entregar tudo — tomam 100% do meu tempo. Sendo assim, quando não estou no trabalho para ganhar dinheiro, estou fazendo trabalhos para conseguir passar de ano. Odeio essa época em que a minha vida parece tomar todo o tempo dos meus pensamentos e idéias, mas é o que acontece.
Por causa dessas e outras que ao invés de diálogos e longas prosas sobre minhas desventuras, faço uma versão fast forward das ultimas semanas para que possa chegar finalmente ao derradeiro final da temporada.

Em mais uma tentativa de fazer meu relacionamento com Bruno dar certo dou mais uma chance ao amor. Inútil. Bruno é vazio e me irrita profundamente. Nossa relação sintetizou-se em uma frase que li: ‘Tem um limite bem tênue entre atração e repulsão. E em geral a repulsão começa quando eles começam a querer que você os trate como gente, em vez de como seu brinquedo.’ Candace Bushnell, com certeza. Então não foi com coração partido, mas com pensamento premeditado que marquei uma tarde para conversarmos. Sim, me odeie pelo cafajeste que sou mas nada posso mudar. Antes só do que mal amado.



Esses últimos eventos e a releitura dos meus posts me fizeram pensar em onde estava o problema. Sou bonito, simpático, tenho boa cultura. E continuo solteiro. Como sempre, a conclusão para as coisas aparecem numa mesa de bar com Mariana e Henrique, ambos igualmente solteiros. Depois de tantas experiências no campo do amor, estamos nessa condição porque queremos. Chegamos perto do final feliz varias vezes e achamos problemas nos nossos parceiros. Ou nosso nível é muito alto para a população gay ou , o que prefiro acreditar, preferimos ser solteiros no Rio de Janeiro. Mas o destino nunca nos deixa saborear nossas conclusões por muito tempo...

‘Tem um amigo meu fazendo aniversario hoje e chamou todo mundo pro Cine Ideal’

Não sou fã do lugar. Já tive vários desencontros e cenas não legais no local, mas já estava fora e ia entrar de graça em um open bar. Tem como negar?
Tem, se você trabalha no dia seguinte. Foi por isso que decidi fazer a Cinderela e ficar ate uma da manha para que não virasse abóbora no trabalho no dia seguinte.
Chegamos umas onze. Dançamos, bebemos e cantamos. Incrível como três horas passam rápido quando se está na noite. Acabei por não ver o aniversariante que me permitiu o vip, mas voltei para casa com algumas cervejas na cabeça alem da musica da Cher que não parou de tocar.


‘Do you believe in life after Love?’

Dias depois, durante um dos meus poucos acessos ao Orkut percebo dois novos convites para adicionar. O primeiro era de uma de uma bunda que me oferecia aumentar o meu pênis ou ver um vídeo de uma garota que saiu do banho e deixou a cam ligada. ‘Não’.
O segundo era de um garoto chamado André. Não adiciono estranhos, especialmente aqueles que na descrição escrevem ‘ te achei na comu-que-não-lembrava-que-tinha e te add, ok?’. Era o caso. Mas por desencargo de consciência, abri o perfil para ver o bofe de perto e dei um grito quando vi as fotos. Era o rapaz moreno do ônibus! Não sei como me achara, mas senti um calafrio quando vi os amigos em comum e vi a data de aniversario dele. Sem saber, já tinhamos cruzado umas três vezes sendo a ultima no aniversario dele, no cine.

Beautiful Stranger?


Eu aceitei o convite com um aperto do coração. Quando o destino conspira dessa maneira para algo acontecer, você deixa as coisas acontecerem?


Para ouvir depois de ler: Cher - Believe

domingo, 30 de novembro de 2008

Mother Mother

Não tenho vocação pra relacionamentos longos, isso já foi mais do que provado. Namoros sempre começaram com muita animação mas, no momento em que me entediava, preferia terminar a confusão a continuar numa enganação. Talvez por isso me arrependa de algumas coisas impulsivas que fiz, como terminar [duas vezes] com Ale. Hoje, ele já fez bodas com o namorado novo, que não tem nada de especial ou melhor que eu [modéstia à parte]. Talvez mais paciência e vontade de ficar em um relacionamento [o que faz toda a diferença]. De qualquer maneira, mesmo já estando agora com Bruno – aliás, muito bem, obrigado – ainda sou assombrado por fantasmas desse ex. Desta maneira, para não repetir a besteira que fiz com o A, decidi relevar os pequenos sinais do B.

Isso não aconteceu de uma hora pra outra. Fiquei um tempo com isso martelando na cabeça e fiz o que faço quando estou em um dilema amoroso: procuro a mamãe.


Ainda não apresentei Dona Claudia aqui no blog, mas tenho certeza de que todos a adorariam. Para aqueles que são fãs de Queer as Folk [como eu..rs], tirem a militância gay da Debbie e você terá a minha mãe, com o jeito de falar, os cabelos ruivos e tudo mais.
E enquanto ela me servia um café, contei a situação pra ela e mostrei a foto do Bruno.


‘Ah, meu filho, você e esse seu dedo podre pra homem. Não foi de mim quem puxou isso. Parece que você escolhe o mais feio e decide namorar. Esse parece um índio’. Ela sempre critica meus namorados...

‘Mãe? Por favor? Só pedindo um conselho. Bruno não é feio. Tudo bem que ele é legal e tudo, mas é só que, de alguma forma, não nos conectamos. Sabe como conectar é difícil pra mim... digo, ele se conecta muito bem, mas já eu...’.

‘Só uma coisa: conectar não é sinônimo de sexo, né? Sabe que eu não acompanho mais as gírias da moda, então nunca sei o que vocês jovens falam’.


‘Não mãe!!! De personalidade mesmo. Da última vez que saímos, a cada palavra que ele falava, lembrava do Ale. A cada toque na minha mão, do Maurice. E no final do passeio eu já tinha estado com metade dos meus ex na minha mente e não com ele’.

‘Oh, meu querido’, disse me dando espaço no sofá pra sentar no colo dela. ‘Você e o Ale. Você sabe como ele ta? Ah, meu bem, o Ale foi o seu primeiro namorado. Eu gostava dele também. Dele e daquele outro, sarado, forte, moreno...’.

‘Mãe! Foco, por favor’, ¬¬

‘O que quero dizer é que ele foi um bom rapaz. Foi o relacionamento que você mais se envolveu, não foi? E vocês não terminaram porque o amor acabou e sim por causa das circunstâncias. Mas ele seguiu a vida dele e você a sua’.

‘É...Já faz um ano que não nos falamos’.

‘E por isso mesmo, acho que não deve ficar esperando por ele. Se tiver no seu destino, vai acontecer de vocês ficarem juntos, mas não tem de ficar triste por algo que foi tão bom. Seja feliz com o seu índio, assim como ele deve estar sendo feliz com o tal namorado. Viva o seu caminho que, quem sabe um dia, ainda não vai se cruzar com o dele de novo’.

Conversas com ela sempre são estimulantes ou reveladoras. Era obvio que ela torcia para que de alguma forma milagrosa eu terminasse com o Ale e secretamente eu também torcia. Mas enquanto olhava a chuva caindo na janela do meu apê, percebi que por mais que a presença dele me fizesse muita falta, não tinha porque alimentar esse fantasma. Meu presente era com o Bruno, desse certo ou não, e não me custava nada tentar viver esse amor.




Para ouvir depois de ler: The Verônicas – Mother Mother

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Pequenos Sinais

Existem pequenos sinais que não são bons em um começo de namoro. Falta de sincronia é um deles. Não que meu namorado tenha de adivinhar o que penso ou desejo [apesar de que seria bom], mas se os sentimentos, interesses e assuntos não estão de acordo, a sensação de desconforto é certa.

Tudo começou na noite em que saímos para a balada juntos pela primeira vez, onde seríamos apresentados para os amigos um do outro.

Logo ao entrar no carro, Bruno dispara:
‘Amor, preciso te contar uma coisa, mas não sei como vai reagir’.
‘Conta, meu bem. Só vai saber quando contar’.
‘Não, vou deixar pra depois’.


Enfim, né... Fazer o que?

Ao chegar na festa, encontrei meus amigos e os apresentei. A cara de ‘que-pessoas-estranhas’ dele foi involuntária, ainda assim tentou ser social. Eu não. A minha reação foi idêntica a dele, mas não tentava conversar com as pessoas aleatórias que ele me apresentava dizendo que eram amigos dele - porque não é possível que aquelas pessoas sejam amigos. Entenda, não é preconceito. Para mim, amigos são leais, independente do que ou de quem gostam. Com isso, tenho poucos e bem diferentes [pra não dizer exóticos] amigos. Ele é o tipo popular em festas, gosta de ficar com pessoas ‘cool’ e fazer carão. Colecionava amigos de Orkut, mas não confiava em ninguém.

‘Amor, queria te contar um segredo’.
‘Conta logo, fica nesse suspense’.
‘Não, depois eu conto, vamos pegar uma bebida’.

Então, a bebida. Ele, virando conhaque a noite toda. Eu, com cerveja, dosando, pra não me deixar levar. Não que eu seja puritano, já tive porres homéricos, mas nunca na frente de namorados. Vamos considerar que isto aconteceu na segunda semana de namoro, então não temos tanta intimidade assim. Ok, relevo a bebedeira, mas me incomodou um pouco.

‘Bebê, você ainda quer ouvir o meu segredo?’.
‘Não, enchi desse suspense. Quer contar, conta. Não quer, não conta’.
‘Ah, ok. Mas era um segredo muito bom’.
¬¬


Mariana vem falar comigo e deixo ele com a brincadeira dele. Há tempos não falava com minha amiga e, enquanto atualizávamos a fofoca e fazíamos nossos comentários do lugar, vi Bruno passar pra pista de dança e começar a dançar. Logo, apareceu um engraçadinho pra dançar junto dele.
‘Luis, tenho de ser sincera. Levei um susto quando me apresentou a ele. Não que ele seja ruim, mas é muito diferente de todos os namorados que você teve. Mas espero que esteja feliz, de verdade’.

Enquanto as palavras dela deixavam mais uma pulga atrás da minha orelha, eu fui tirar satisfações na pista de dança. Não faço o tipo ciumento enlouquecido, sou sutil quando se trata disso. Bruno não estava dando mole pro carinha mas, que o carinha estava com segundas intenções, isso estava. Cheguei no ritmo da musica, fui chegando perto e puxei o garoto de lá, com direito a beijo pra esfregar da frente do abusado.
Nessa hora, meio alto, meio cansado, Bruno joga seu corpo em cima de mim. Segurando seu peso sobre o meu e tentando nos sustentar em pé na pista, ouço ele sussurrar no meu ouvido.

‘amor...eu te amo...’.

Os outros pequenos sinais provavelmente passariam batidos se ele não tivesse terminado a noite com estas três palavras. Era muito cedo, muito precipitado para tal. Não respondi na hora, mas depois, ao me questionar sobre isso [sim, ele lembrava de tudo no dia seguinte e se disse 'lúcido'], eu disse que estava achando tudo muito rápido.



Isso seria um começo pré disposto a dar errado ou eu que to vendo coisas?







Para ouvir depois de ler: Lady Gaga – Eh Eh (Nothing Else I Can Say)

domingo, 9 de novembro de 2008

Efeitos colaterais de começo de namoro

Um início de namoro tem várias conseqüências. Nenhuma que diminua o sentimento no novo BF, mas que trazem um certo momento estranho para quem estava a tanto tempo sem namorar, como era o meu caso.

A começar pela reação dos outros, porque o problema é sempre com eles. Ao mudar o status do Orkut é aquela loucura:

‘Hey! Comassiiiim ‘namorando’? Me diz quem é! NOW!’
‘Lu, pode falar... esse ‘commited’ no orkut é zoação, né?’
‘Ta namorando-o! Ta namorando-o! Ta namorando-o!...’

Claro que houve pessoas mais sutis. Outras mais decepcionadas, mas em geral a aceitação foi boa...
[Ate porque minha fama não é de ter relacionamentos muito longos... =X]

E, apesar de não ter contado ainda para meus pais por mero comodismo, o namoro está bem. Na ligação do dia seguinte, o teste que é um suplício pra mim, conversamos por mais de meia hora sobre absolutamente nada e tudo, e terminamos combinando de nos ver no meio da semana.



Foi ai que me dei conta do segundo efeito colateral de começo de namoro: a fase fofa. Temos apelidos, temos musica-tema, temos depoimentos diários. Isso tudo da parte dele. Por mais que estivesse sendo divertido, não pude deixar de me sentir meio idiota não respondendo a tudo o que ele fazia. Como se eu fosse um diabético no meio da doceria, mas ele não pareceu se incomodar por não aceitar tantos doces.

A campainha toca pra me tirar dos devaneios. Maurice [!] estava na porta. Como quem pega ar antes de mergulhar eu respiro e abro a porta.

‘Vim pegar minha camisa que esqueci aqui outro dia...’.
Camisa devolvida, o convidei para um café.
‘Não, obrigado. Eu só passei pra isso mesmo [...]. Vi que você ta namorando, quem é o cara?’
‘Se chama Bruno, você não conhece...’.
‘Ah, claro... Bem, tudo bem então, só perguntei...’.
‘E a faculdade como ta?’
‘Ta boa. To num dormitório cheio de caras gays, você não imaginaria... Acho que até o faxineiro é gay... blá blá blá fulano me deu mole blá blá blá transei com não sei quem... [ele ficou mais uns dez minutos contando vantagens sexuais pra me deixar irritado – e me deixou].
‘Que bom que você ta conseguindo o que quer...’.
Nessa hora ele para, olha nos meus olhos com cara triste e diz: ‘é.... tô conseguindo mesmo...', baixa a cabeça, se vira e vai.

E ao fechar a porta e chegar à conclusão de que Maurice já tinha perdido todo o significado que tinha pra mim, chego ao terceiro e derradeiro efeito colateral de começo de namoro em que ‘quem está por dentro quer sair e quem está por fora quer entrar’. Haja força de vontade.


Mas no dia marcado, Bruno aparece pontualmente, bem vestido e com o sorriso mais luminoso do mundo. Nesta hora lembrei de algo que um amigo escreveu:

"Sabe aquele abraço que te dá vontade de ficar sempre mais um pouco, e que tu só encontra naquela pessoa que não existe mais? Esse é o sorriso que o tal abraço provocava."

Foi quando vi sentido na frase. E puxei ele pra dentro pra só deixá-lo sair no dia seguinte...







Para ouvir depois de ler: Moldy Peaches - Lucky Number Nine

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

De repente é amor?

Todo dia 15 é a mesma coisa, sento na mesa da sala com o dinheiro recebido de um lado e as contas do outro e passo pelo ritual sofredor de pagar as contas.
Na maioria das vezes pouco sobra para as minhas coisas e, com a ‘profecia de jornal’ valendo para aquela semana, não foi diferente. Depois de tantas subtrações e divisões sobraram exatamente 50 reais até o fim do mês. Não era o fim do mundo, mas podia me valer uma noite de sábado.

money, money, money, must be funny in a rich men's world

E em momentos tristes como este de ver o seu dinheiro se esvaindo, pratico o luxo que me cabe: ligo a televisão para esquecer a pindaíba. E como o destino também vem via satélite, navegando entre canais, acabo por achar uma reportagem sobre um show que teria naquele sábado da banda Vive La Fête, cujo ingresso custava exatamente os 50 reais. Conhecia um pouco a banda e a achava legal, mas ao ouvir o preço e quando seria, achei que era um sinal, ou então muita coincidência.

E num ato de total insanidade financeira comprei o tal ingresso. O pior que depois do meu impulso percebi que nem sabia onde era o evento como nem tinha com quem ir. Bem, tinha de achar alguém para ir comigo, porque a probabilidade de me perder era quase certa. Telefone na mão e liga-se para os amigos. Tive mais pessoas perguntando quem eram eles do que me dando certeza de que iriam. Mas houve uma resposta.
Ok, não foi por telefone e sim por MSN.

Seu nome era Bruno. Ele havia me adicionado há alguns meses atrás sobre o pretexto de que havia me visto numa festa que nunca tinha ido. Já o havia conhecido fora da rede, na parada gay, onde só trocamos palavras e olhares e nos perdemos na massa. Não sabia como isso iria acabar, mas ele me pareceu bem entusiasmado para ir comigo e, além do mais, pelo menos já não estava sozinho para ir ao show.

Na noite em questão, nos encontramos num shopping e seguimos de taxi até lá. Ele estava de terninho e calça skinny, no melhor modelo da moda old London. Ele era um pouco sério, mas aos poucos fomos nos soltando e conversando. Antes de entrar, já falávamos de família e ex-namorados. Era como se fosse uma intimidade natural, onde nos conhecíamos e procuramos nos conhecer mais.

Entramos, bebemos e conversamos ao ritmo dos DJs, que eram ótimos. A decoração estava muito bonita e começavam a soltar a fumaça para dar um clima ao show que iria começar. Já sabíamos o que ia acontecer, mas estávamos indo devagar. Havia aquela lenta troca de olhar, ate que resolvi tomar uma atitude ousada e segurei a mão dele. Tinham muitas pessoas, algumas dançando outras se preocupando em manter a pose.
E, entre a fumaça e as luzes, no balançar da musica e dos meninos com calça skinny florescentes, nos beijamos. Aquele beijo tímido, porem não pesado já que estávamos bem no meio do povo.


‘Desculpa, para algumas coisas não tenho vergonha, mas para outras ainda é meio diferente pra mim...’ disse Bruno, abaixando a cabeça com um pouco daquela vergonha que se confunde com charme. ‘É, um pouco pra mim também. Da última vez que beijei em publico foi com o meu namorado...’, afirmei ao ver uma pseudo-indie quase batendo palmas pra nós.
‘Bem, esta vaga ainda não foi preenchida, foi? E eu bem que estou procurando alguém assim como você...’, oi?!? Da onde veio isso? ‘Isso é uma proposta?’, prendi um pouco a respiração e fui para o meu modo de raciocínio. Ele era um cara ótimo, bom papo, interessante, beija bem... ‘Tudo bem se não quiser aceitar, só sei que to curtindo muito estar aqui com você’. E ele me pegou pela cintura e me deu um beijo de verdade. No meio de todos e ao mesmo tempo com somente nós dois. Eu não ouvi sininhos, mas senti as pernas tremerem.

‘Sim.... minha resposta é sim...’.

E as guitarras começavam a anunciar o início do show e o começo de um namoro.
Seria esta a vez que daria certo?






Para ouvir depois de ler: Kylie Minogue - 2 hearts


terça-feira, 28 de outubro de 2008

Profecia de jornal [Interlúdio]

Para imprimir trabalhos da faculdade sempre vou ao mesmo lugar. La tem uma senhorinha sempre muito atenciosa com uma sala de espera bonitinha. Pelo dinheiro que eu pago a sala tinha de ser bonitinha mesmo e com o tamanho dos meus últimos trabalhos passo cada vez mais tempo esperando naquela sala, que se tornou praticamente uma terceira casa depois da faculdade. E enquanto olhava o relógio cuco que enfeitava a parede pensava no Rodrigo, do post passado. Era mais um relacionamento sem emoção, sem comoção, sem interesse. Não tinha vontade de revê-lo, muito menos de ligar pra ele. Lonely boy again...



‘Meu bem, as copias do seu banner ficam prontas em um instante. Você aguarda um pouquinho’ – era a senhorinha me tirando das divagações – ‘Leia uma revista enquanto isso...’.
E ela jogou para mim um exemplar de uma revista desconhecida, mas sua data indicava ser daquela semana. Vinte minutos depois já tinha lido ate o editorial. Ela não tinha dito só ‘um instante’? Ao jogar a revista na cadeira ao lado ela cai aberta na sessão do horóscopo [que eu nunca leio por achar uma baboseira]. Mas como estava com tempo e não tinha lido aquela parte, pensei “Whatahell!?!”

Leão: Reconciliação no amor.
A semana será proveitosa em todos os sentidos. Só no setor financeiro que encontrará obstáculos, mas tudo acabará se ajeitando. Deixe as decisões mais difíceis para o final de semana. Vá atrás dos desejos, mas com a sacola vazia. Deixe para trás as lamentações, culpas, mágoas.


Após ler a ultima palavra, a senhorinha brotou da terra com o meu trabalho. E a conta.

É, parece que a parte dos obstáculos financeiros se cumpriu porque essa conta era maior do que o dinheiro que tinha levado.

Devia eu me preocupar com o que viria esta semana...?

[continua...]







Para ouvir depois de ler: Nikka Costa - Like a feather

domingo, 19 de outubro de 2008

Pride

Mais um ano e mais um dia de orgulho gay. Não que eu tenha ido a muitos, este foi o meu terceiro. Ele aconteceu no domingo dia 12, onde os gays cariocas se juntaram em Copacabana [teoricamente] para reivindicar direitos, embora muitos estivessem lá para beijar e dançar. Admito que no meu primeiro foi assim também. Causei, dancei e bebi, mas depois que os trios passam o panorama não era avanço e sim de decadência. É como o que acontece com as boates gays, só que mais evidenciado.
Apesar dessa triste conclusão, mesmo assim segui neste domingo de sol para apoiar a causa. Ta bom, ta bom... Não sou tão altruísta, havia um motivo egoísta. Tinha um trabalho de faculdade para fazer, um vídeo que precisava de uma cena com multidões então lá seria perfeito. Entretanto, com receio de roubarem meu material de filmagem não o tirei a câmera da bolsa conseqüentemente não filmei tanto.

Os travestis engraçados estavam lá. As ‘tres cervejas por 5 reais’ também. A música alta, os trios com descamisados, os amigos atrasados e aqueles que não esperava encontrar. Tinha Carlos Minc dando a louca no trio e gringos dando a louca com as drag queens, muitas delas de ‘Madonna’ . Eu vi a festa chegar ao auge, mas mantive minha cabeça na maldita bolsa vendo tudo de uma distancia segura. Queria beber e enlouquecer com a massa, mas também não estava à vontade para isso.




Quando já estávamos com um grupo relativamente grande de amigos e semi-conhecidos, começamos a andar no meio da rua de encontro aos trios. Pessoas se aglomeravam nas calçadas esperando roupas inusitadas e atitudes afetadas dos passantes, o que dava ao evento um triste ar de circo onde nós, gays e lésbicas, éramos a atração principal.

Rodadas de bebida começam ser pagas e finalmente relaxo quanto ao equipamento andando comigo. Tinha de aproveitar um pouco também. E como é de sempre, quando a bebida sobe as coisas esquentam... O que neste caso não foi bom.
Sabia que Henrique gostava de mim, mas já havíamos conversado que o sentimento não era correspondido. Tenho por ele uma boa amizade, mas ela se tornou complicada quando no alto das bebidas ele começou a insistir a me beijar. Podia ser onda, podia ser brincadeira, mas para mim pareceu como alguém que dizia a verdade, ate pela insistência dele. Mas a minha verdade era uma só.

‘Você sabe que eu te amo, meu amigo. Mas não posso te amar do jeito que você quer.’

No minuto seguinte, ele dá um perdido no grupo e aparece depois nos braços de um ex a quem ele não gostava. Me senti de mão atadas, pois qualquer sinal de amizade poderia ser entendido de outra forma então foi melhor deixar a musica rolar.

Lá pelas tantas, conheci Rodrigo. Ele estava no grupo desde o começo mas não tinha reparado nele. Mas ele tinha reparado em mim. Quando estou preocupado com outras coisas meu radar apaga total, não vejo nem o flerte mais descarado. Mas diante da situação anterior e sendo o rapaz uma graça resolvi ficar com ele. E ficamos juntos o evento to-do. Se você nunca foi num evento destes, eu coloco um comparativo para que entenda o quão impressionante é isso. Marina, por exemplo, que também estava no evento e me confidenciou que pegou 25 pessoas. O gênero destas foi difícil determinar então preferi não insistir... Enfim, o moço era engraçado, comprou pipoca pra mim e fez do evento algo bem mais divertido do que eu achava que seria estando como um casal.

Já dentro do metrô a caminho de casa, descansávamos abraçados ainda conversando e rindo de besteiras. Ate que de um grupo de travestis sentados ao nosso lado, uma delas virou e disse:



‘É bonito ver uma casal assim. Estava comentando com as meninas justamente que todos os dias poderiam ser assim, com gays, lésbicas e heteros se amando sem medo de preconceito. Não tem jeito, não vamos mudar a mente deles de uma hora pra outra. Pelo menos hoje fizemos nossa parte e mostramos que somos pessoas de verdade.’






What have you done today to make you feel proud?

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

No meio do caminho tinha uma pedra

Ao me deitar no domingo à noite, logo após o ultimo post [leia Outra historia começa?] tinha comigo que a minha vida amorosa iria melhorar. Estava de coração aberto para isso. Acontece que às vezes o acaso pode ser mais rápido que você. Pois, logo na segunda de manhã, ao pegar um ônibus para ir à faculdade, uma chance apareceu.

Ele era um daqueles tipos tímidos, entrando no ônibus agarrado a sua pasta. Com um casaco listrado de cinza e preto ele vem e se senta ao meu lado. Já tinha visto aqueles olhos verdes algumas vezes, mas sempre em desencontro. E, bem, num ônibus cheio, dificilmente se é romântico. Mas milagrosamente neste dia o ônibus se encontrava vazio.

Começava então a parte do relacionamento que acho mais excitante: o flerte. Ok, estávamos tímidos, mas isso não me impediu de reparar no rapaz. Na pasta dele estava escrito ‘Letras/Faculdade Z’, então já sabia que ele ia descer antes de mim. Mas me incomodou um pouco, pois ser de letras não era um bom indício. [Luan e Jorge que o digam em “ The last love-cat”].

Entretanto, antes que qualquer coisa pudesse ser dita, milhares de pessoas adentram o ônibus de forma animalesca e ele ficou lotado. O contato com as outras pessoas se torna impossível e entre nós, se torna tenso. Mas o bom de ser gay é que temos habilidade de levar o flerte a um nível não verbal não compreendido pela maioria. Sendo assim, passamos a viagem toda o mais encostados possível, não por falta de espaço mas naquele roçar quase permissivo. Haviam semi-olhares tímidos e encostar de mãos. Ele arriscou até um carinho no meu braço. O ponto dele estava chegando perto. Ele puxa o celular com tanta pressa que cai no chão. Achei bonitinho, ele estar nervoso. Pegou o aparelho e começou a digitar um numero. Imaginei que fosse o seu e memorizei. Ele desceu, mas não sem antes dar aquela ultima olhada pra trás. Assim que o ônibus começou a se mover, escrevi o numero.

'I got your name. I got your number...'

Pra ser sincero, não pretendia ligar. Ele era interessante, mas eu não estava desesperado [nem queria parecê-lo] e tudo pareceu se encaixar perfeitamente no que eu havia escrito anteriormente sobre esperança, como uma providência divina. Mas, depois de tomar um café mandei um ‘;)’ para ele.

Mensagem vai, mensagem vem. Disse que se chamava Beto e fazia Letras. Não dei muitas informações pra ele também. ”Se você for naquele ônibus pra faculdade amanhã, podemos conversar um pouco no caminho. Pretendo pegar o ônibus de 6H 55. Dá pra ser?” Claro que dava. Era um encontro pra 7 da manhã, mas era um encontro. Como é bom começar o dia assim.

Bem, acabo de chegar da faculdade e, apesar dos trabalhos e pendências, uma ponta de curiosidade me cutucou para saber quem era o boy. Lancei-me no Orkut a procura dele, então. E pensei que fosse ser mais fácil... Pesquisei por Beto, Roberto, Alberto, Adalberto e nada. Quando já estava quase desistindo lancei o ultimo nome, Humberto. E lá estava ele. O primeiro da lista...

Um sorriso escapou de mim... Vamos ler:

Humberto X
Quem sou eu: [uma música engraçadinha, mas tosca]
Idade: 27 anos [nossa, parecia mais novo...]
Orientação sexual: gay [pelo visto é assumido, que bom...]
Paixões: Desfiles das Escolas de Samba [muito carioca, mas nada a ver comigo...]
Esportes: Pedalo e malho todo dia [hmm... boa forma pelo menos...]
Atividades: Doutorado em Língua Portuguesa [...e inteligente...]
Relacionamento: casado(a) [WTF?!? Casado!?!?!? Comassim casado?]


Morri!

E o sorriso que apareceu, se apagou. Imediatamente meus olhos caem nos depoimentos. Quatro do mesmo cara dizendo que o ama mais que tudo. Procuro no álbum, e vejo sete fotos de épocas e lugares diferentes com eles se beijando. E a cada nova descoberta, uma raiva crescente do canalha com um misto de vingança. Não vou ao ‘encontro’? Vou e sacaneio ele? Havia necessidade disso, se ele era comprometido?

Quando já estava com pensamentos malignos, me sentindo a própria Betty Davis, parei e respirei. O acaso parece que gosta de ironias no campo do amor comigo e eu cansei delas. Abre-se o peito e coloca-se uma plaquinha do lado de fora: ‘Fechado pra balanço’.


Será que com jogo eu tenho mais sorte?


No dia seguinte, nem mexi no celular. Peguei minhas coisas como de costume e sai. A chuva, que sempre está presente nestes momentos dramáticos, estava forte. Ao passar perto do ponto de ônibus dele, um grande relógio marcava ‘7:01’. ‘Merda, ainda cheguei a tempo do encontro...” mas subiram vários e nada dele. Confesso que fiquei feliz de não ter de começar o dia falando poucas e boas pra alguém. Foi então que eu percebi que em pé na minha frente estava um rapaz moreno, com roupas meio playson daquele jeito que eu gostava [Maurice]. Ele também me percebeu e começamos o jogo mais uma vez... Já falei que eu adoro esse ônibus?

Deixa eu guardar essa placa para outro dia...





Para ver depois de ler: Love lied – Pink Vice

domingo, 5 de outubro de 2008

Outra historia começa?

Alguns amigos meus já encontraram meu blog. Embora alguns deles tenham dito que era legal e tudo mais, outros que leram ate o fim disseram que pareço muito melancólico em certas partes. Para deixar claro, gosto muito de elogios, mas aprendi a dar valor às críticas quando elas são construtivas. Entretanto, quanto a melancolia não tenho muito remédio, sou mesmo chegado a uma tragédia, das gregas as mexicanas, com direito a nomes compostos e dublagem ruim, então o que fazer para burlar a mesmice de sempre dizer que sinto falta de X ou Y ? Contar outra historia...



Fabio é um bom amigo que a internet me trouxe. Junto com Henrique e Marina eles estiveram presentes nas minhas primeiras festas e presenciaram meus principais romances. Por essas e outras os tenho com muito carinho, mas por algum motivo do acaso ou da falta de tempo, eu e Fabio nos distanciamos. Apenas pela internet vi seu relacionamento começar e somente nove meses depois disso nos reencontramos e finalmente conheci o príncipe, o que aconteceu no último sábado a noite.

Bem, o encontro foi estranho no começo, primeiro porque muito do que conversávamos se perdeu durante o tempo e segundo porque eu estava meio que de vela para os dois. Mas depois de algum tempo e alguns chopps já estávamos com discussões teóricas e papos nerd. Para variar perguntei como haviam se conhecido, pois adoro essas historias de começo de romance.
Resumindo, o príncipe escrevia em um blog a qual Fabio se tornou leitor. Houve o primeiro contato, o primeiro cinema, o primeiro beijo. Mas conto isso só pra situar vocês. O que era realmente interessante neles era como o contavam. Sentados lado a lado na mesa ao mesmo tempo em que narravam, se implicavam e estavam preocupados em arrumar a camiseta desarrumada em um ou um papel grudado no outro.
Ok, admito que estou carente ultimamente, mas eu achei essas pequenas demonstrações a coisa mais linda. Era a prova de que o namoro deles já tomara forma e gosto próprios, e que de fato eram íntimos.



Papo de banheiro:
“Luis, é normal odiar o namorado de vez em quando?”

“Meu amigo, faz parte de um relacionamento. Se fosse só amores você morreria de tédio. Aproveita as brigas, mas principalmente as reconciliações.”


De lá, passamos numa festinha e então voltei pra casa. Fiquei feliz de pelo meu amigo ter encontrado alguém assim e durante o caminho não pude deixar de pensar filosoficamente e concluir que amor verdadeiro é algo que existe. É complicado, doloroso às vezes, mas no final vale a pena.

E então sorrio noite adentro ao perceber que a esperança burlou minha própria melancolia e que outra historia feliz como esta pode começar.





Para ouvir depois de ler: Kylie Minogue – The One

sábado, 27 de setembro de 2008

A garrafa da discórdia

Com uma garrafa girando em cima da mesa e alguns copos girando em nossas cabeças eu e meus amigos jogávamos verdade ou conseqüência mais uma vez. Numa dessas surgiu a pergunta: ‘quantos namorados você já teve?’ e a polemica foi instaurada.


Alguns nem precisaram contar.
‘tive dois, que juntos não valiam meio...’
‘tive um só. Cinco anos felizes e dois meses horríveis...’

E alguns precisaram contar. Eu era um deles. Felizmente só precisei dos dedos das mãos, ao contrario de outros que precisaram de mãos pra ajudar.
‘Péra! Uma rapidinha conta?’
Coro: ‘vadiaaaaaaaaa’

E as brincadeiras rolaram noite adentro. Mesmo assim, no dia seguinte, além de uma puta dor de cabeça, fiquei pensando: ‘Será que com o meu numero eu posso ser considerado vadia? Quem vai ser o próximo namorado? Onde eu estou e porque eu estou usando a camisa do Carlos?... Enfim, o que seria um número ‘normal’ de namorados?’

Então, na segunda-feira seguinte resolvi fazer uma pesquisa de campo e perguntei para os meus amigos gays e não-gays. Surpreendentemente as respostas foram parecidíssimas com alguns com poucos grandes amores e outros contando ate nos pés quantos namoros tiveram. Provavelmente nem estaria escrevendo aqui se não tivesse ouvido uma reposta que me deixou ainda mais perplexo. Justamente da Camila [a mesma do post ’Contra a natureza?’ ]...



‘eu já perguntei pra Fê, pra Lu, pra Na e agora pra você: quantos namorados teve?’
‘...er... um só.’
‘Um?!?... tipo, só com um cara mesmo?
‘é, porque?!? Quantos você teve?’
‘ah... uns *piiii* só’ [censurado!]
‘Ah, mas isso não quer dizer nada... quantos desses *piii* você amou de verdade?’
[pausa constrangedora]
‘ o meu namoro durou dos 14 aos 18 anos e terminou porque já não tínhamos mais coisas em comum... você alega ter mais relacionamentos que eu, mas quem de nós dois você acha que sabe mais o que é namorar?
[mais uma pausa constrangedora]


Eu fiquei nesta última pausa por alguns minutos pensando no que responder. Certo que amei alguns, mas grande parte não merecia nem a alcunha de namorado [como por exemplo Dr. D em Químicas Perigosas ] E como quem puxa um fio solto do casaco, este pensamento me levou a outro que levou a outro que me levou de volta pra garrafa do começo, jogada embaixo da mesa da sala, onde numa cena digna de filme joguei tudo pro ar e disse:

“Foda-se! Namoro agora só com amor de verdade!”


Gire a garrafa para a próxima pergunta...



Para ouvir depois de ler: Solange Knowles - I decided

domingo, 21 de setembro de 2008

The last Love Cat

Sábado à noite. Durante toda a semana as pessoas esperam por este momento para poderem esquentar as pistas de dança e cometerem todas as loucuras que a escuridão pode trazer. E, considerando que já estava há um mês sem sair de casa, eu estava pegando fogo. Claro que não vou pra qualquer lugar, o pagode da esquina não era uma opção. Mas com um telefone e os meus amigos a esperança de terminar bem à noite ainda existia. Infelizmente, com todos sem dinheiro por causa da Madonna ou sem tempo por causa do vestibular as minhas opções de companhia diminuíram. Mas, na ultima hora, Henrique me liga avisando que coincidentemente uma Ultra Love Cats ia rolar naquela noite. E eu, que tinha jurado não mais pisar lá, tive de rever minha promessa até por não lembrar porque a tinha feito. Ah, e por ter sido ‘subornado’ com caipirinha de graça também.

Antes de seguir, uma recapitulação. Depois do dilema da última semana [ler ‘Vontades não realizadas’] decidi que, mesmo se não ficasse com Rafael, não iria continuar com Luan só porque era confortável. Então na sexta chamei-o e fui sincero. ‘Não posso te dar esperanças em algo que não vai ter futuro’. Ok, pode me bater, mas prefiro uma verdade cruel a uma mentira ilusória. Mas o que me surpreendeu foi o fato dele não reagir negativamente, mas sim de dizer que ‘tudo bem, você sabe que eu sempre gostei de você...’ Preferia que ele me xingasse. E o fato dele com certeza estar na festa foi um dos motivos pra eu não querer ir, mas a vontade de dançar falou mais alto.

Então lá fomos eu e meus amigos para mais uma Love Cats. O inicio foi chato, mas depois de algumas bebidas já estávamos dançando e zoando como sempre fazíamos. De repente Luan brota do nada na pista e vem se aproximando dançando e olhando pra mim de jeito quase hipnótico. Ao chegar perto, sussurra no meu ouvido um ‘desculpa se fiz alguma coisa pra você não gostar de mim... adoro muito você’... E por um segundo vacilei ou pela proximidade e calor do momento, ou por estar pra lá de marrakesh pela caipirinha do Henrique, mas o fato é que terminamos nos beijando. Depois desse segundo, meus pensamentos voltam e começo a me deprimir por aquela situação de dar corda pra algo que não iria pra frente.

Em horas como essa o acaso se faz presente e prega sua peça. Meu celular começa a tocar. Como quem consegue a deixa perfeita, digo que vou atender do lado de fora e saio correndo. Já na luz vejo o que estava escrito: ‘Maurice chamando’. Perdi a respiração por mais um segundo e quando ia amaldiçoar o acaso percebo que ele estava na minha frente, rindo da minha cara de apressado.
‘Oi! Sabia que você estava aqui! Desculpa ter atrapalhado você, com o garoto lá...’
‘Não tudo bem, [foi ate melhor assim...] Mas o que você ta fazendo aqui?!?’
‘Vim com uns amigos da faculdade, acabamos caindo aqui...’

'coração na mesa, decepção com certeza...'

Henrique, de longe nos vê conversando e chega junto. Como meu melhor amigo e escudeiro, ele conhece a historia e o cara e o dramalhão que ele me fez passar.[se não conhece leia ‘Maurice’]
Então, assim que ele se despediu pra se juntar aos amigos, meu amigo me encostou na parede e disse ‘Nada de ficar com ele!! Amigo, Maurice NÃO!!’.
E antes que eu pudesse falar um ‘mas...’, já tava todo mundo a minha volta falando pra eu não fazer o que o meu tesão dizia pra fazer. Nessas horas é bom circular.

A música continuou, o DJ se animou e as pessoas começavam a perder a linha. E no meio da animação acabei esbarrando com Thiago. O esbarrão seguiu com uma troca de olhares 43, quase como num documentário de caça no Discovery Channel. As presas se encaram, se apresentam, começam uma leve corte [que não dura muito] e partem para o bote. Só pra deixar registrado foram só beijos. E foram ótimos. Thiago era um cara muito legal, passamos o resto da noite juntos. Entretanto, lá pelas tantas tocou uma tal música [que não lembro agora] que ele adorava. Me puxando pela mão ele me leva para dançar na frente do DJ. E, assim como na primeira vez, Luan brota novamente de sei-lá-onde e, vendo que tava acompanhado, faz cara de cachorro pidão. Com a musica agitada, Thiago se desvencilha do meu braço e começa a dançar enquanto Luan tenta insistentemente segurar minha mão. As pessoas em volta já não estavam entendendo nada. E eu, me achando numa comédia meio trágica e vendo o caráter explosivo daquela situação soltei a mão dos dois e fui pro bar... Na duvida, meu bem, pede mais uma cerveja.

'last dance, last chance for love...'

Entre idas e vindas, só fui embora quando a ultima musica tocou. Já tinha me esquecido como era voltar pra casa de manhã. No caminho de volta me lembrei porque tinha prometido não mais voltar naquela festa, o que fez todo sentido na voz do Henrique:

‘Esta pista já está muito manchada com os corações partidos e paixões não correspondidas’





Para ouvir depois de ler: ABBA - Mama Mia

sábado, 13 de setembro de 2008

Vontades não realizadas

Escrevi este post há três dias com lápis de desenho. Isto é para que perceba o quão sem tempo estou. As primeiras provas chegaram e os prazos começam a ser delimitados. Com isso passa-se mais tempo na faculdade e menos em casa. O lado bom é que a mente fica constantemente ocupada não deixando espaço para besteiras. Mas o lado ruim é que a convivência forçada com meus coleguinhas de classe trouxe-me mais confusões pessoais. Parece que não consigo ficar fora de um bom dilema emocional. Bem, vamos aos fatos.
Há duas semanas estava saindo com um garoto de letras, Luan. Ele era desafeto do Jorge [vide post ‘George e Jorge’] e nos conhecemos graças a uma reviravolta novelesca quase mexicana e que não vale a pena ser mencionada. O que precisam saber é que no final eu fiquei com Luan e Jorge ficou com um mandado de segurança. Luan é um cara simpático, atencioso, assumido e possuía lindos olhos azuis. Ok, as coisas entre nós não eram flores, mas o problema era comigo. Desde o começo achei tudo muito aguadinho entre nós, mas nossa relação acabou se tornando algo confortável e conveniente para mim, já que sempre estava ocupado. [nota pessoal: me senti um cafajeste ao escrever isto... ].
Os dias vão passando e nada demais aconteceu: Lu me mandava mensagens, saiamos pra beber e dançar e me distraía. Até que as provas começaram e, além da falta de tempo, me deparo com um aluno novo, Rafael. Ele era um garoto típico e por isso mesmo, ideal: moreno, com cabelos compridos e olhos escuros que sorriam e sempre estavam a brilhar. Gostava de mágica, malabares e revistinhas.
Ate a última aula de Historia da Arte, era apenas mais um rosto que me dava bom dia. A aula em questão era um tédio. O professor, gago, passava slides numa sexta após o almoço. Desnecessário dizer que todos estavam quase dormindo. Nesta hora Rafael chega, atrasado como sempre. Ao abrir a porta, ficou procurando dentre os vários sonolentos da sala ate me encontrar e, sorridente, vir em minha direção. E naquele caminhar em slow motion algo na minha mente fez um click, numa daquelas conclusões quase obvias que acontecem: Rafael era perfeito. É claro que eu já tinha reparado que ele era bonitinho, mas nunca o tinha visto daquela maneira. Era como se de repente ele se tornasse não só atraente, mas pudesse ser tudo o que eu queria em alguém. Por exemplo, das poucas vezes que conversamos, percebi que ele se interessava pelo que eu gostava e ele sempre me fazia rir [...]. Ele sentou na minha frente e ainda sorrindo disse: ‘Perdi muita coisa? Depois me passa suas anotações...’. Eu não estava anotando nada. ‘Claro, eu passo a limpo e te entrego’. O professor pigarreou censurando nossa conversa. Imediatamente viramos pra frente, mas não sem antes ele piscar pra mim.

'my neck, my back...'

Meio abobalhado com minha descoberta e com a aula ainda desinteressante, passei a analisá-lo. Ele tinha a nuca mais bonita que já vi. Já me imaginava beijando-a naquele momento, quase sentindo meus lábios e seus arrepios. Subiria até sua orelha onde sussurraria uma besteira qualquer e passando meus braços envolta dele terminaríamos nos beijando como namorados. É claro que não fiz nada disso, mas quando dei por mim estava com uma puta ereção em plena aula de historia. E eu só tinha visto a nuca dele.
Sem jeito, corri para o banheiro para esfriar a cabeça, com perdão do trocadilho. No caminho, encontrei Camila, a mesma da primeira chopada [post ‘Contra a natureza’] que era da turma dele, então comecei a lhe fazer perguntas sobre o moço.
Como disse no começo, este não é um caso de final feliz e sim de confusão sentimental. Acontece que não só Rafael era hétero como ele namorava há dois anos uma menina, Luiza. Meu queixo foi ao chão, mas me segurei o suficiente pra dizer ‘Hetero?!? Que desperdício...'.
A aula seguiu comigo tentando não ficar reparando nele [como se fosse possível], mas a angústia gerada por essa paixonite relâmpago me colocou em cheque: estabilidade conveniente e aguada com Luan ou tento a chance com o hétero que me é só sorrisos?

'desliga a televisão e vai ler um livro...'

Sinceramente.... Acho melhor voltar para os estudos...



Para ouvir depois de ler: Vanessa da Mata - Amado

sábado, 30 de agosto de 2008

João amava Thiago que amava Raimundo....

Quando estamos no meio de um problema tendemos a ver só o que está a nossa volta. Mas quando somos terceiros e vemos o quadro completo pode-se concluir que o probleminha era na verdade algo muito maior.

Henrique começara a namorar um amigo de um amigo nosso, Paulo. Não cheguei a conhecer o moço, apenas tomei conhecimento dele duas semanas depois do começo do namoro, numa ligação de ajuda em pleno sábado. A faculdade, o trabalho e o apê novo podem tomar todo o meu tempo, mas um pedido de ajuda de um amigo não pode ser negado. Com sorvete de flocos e a primeira temporada de ‘Sex and the city’ nossa tarde foi completa. Entre pauses, colheradas e comentários sobre os episódios, ele me contou a historia.

Eles foram apresentados em uma festa desse amigo em comum. Henrique tava ressentido pelo termino com Diogo, Paulo sofria por um chifre recente. Passaram a noite juntos entre beijinhos e conversas engraçadinhas numa cena digna de uma comédia romântica. No dia seguinte, ele ligou. Se encontraram durante a semana, fizeram passeios, viram filmes. No sábado seguinte, Paulo fez a proposta de namoro. Exultante pela proposta, mas receoso pela rapidez, Henrique aceitou. E se arrependeu. Na segunda, ganhou um depoimento e o primeiro ‘eu te amo’. Na quarta, um anel de prata. E por mais rápido que estivesse sendo, esta que deveria ser a fase onde tudo são flores não estava bem, digamos, florida. A pressa de Paulo em se amarem intensamente fez com que seus defeitos fossem expostos mais rapidamente. Com isso aparecem o ciúme o sentimento de posse e as famosas D.R.’s. Tudo isso em apenas uma semana de relacionamento.


'The greatest thing you've ever learned is just to love and be loved in return...'

Imagine meu susto quando depois de duas semanas sem nos falarmos meu amigo aparece ‘casado’ e em plena crise conjugal. Jogando a ‘aliança’ em cima da mesa, ele disse ‘Ta tudo errado, tudo![...] Quando ele disse que me amava respondi que sentia o mesmo por pressão e não porque sentia o mesmo. Não tem jeito. Vou terminar com ele amanhã. ’; “Olha, terminar é a solução mais pratica, mas não necessariamente a melhor. Não conheço o rapaz, mas acho que neste momento não seria legal ficar pra você ficar sozinho. Porque não tenta dizer a ele tudo o que esta te incomodando? Não tem nada a perder já que quer terminar com ele. ’; ‘ Sei lá, Lu... nós não combinamos em nada. Não vai dar certo. ’ Ainda tentei persuadi-lo durante algumas horas de que dialogo seria melhor que o fim, mas parecia que ele estava certo do que queria.

O mais irônico foi que há alguns anos atrás estávamos em posições exatamente opostas, comigo certo de que o fim era melhor e ele me dizendo para dar uma chance ao amor.
Isso me fez ver que pior do que ver mais um relacionamento terminar, por mais efêmero que tenha sido, era perceber que este foi mais um em uma seqüencia infinita de corações partidos gerados pela simples falta de dialogo: por causa do coração partido pelo Diogo, Henrique se juntou a Paulo e agora iria quebrar o seu... E se juntar a mais alguém.

Não liguei pra ele para saber se a conversa aconteceu mesmo ou se ele terminou, mas fique me perguntando será que esta seqüencia terá fim?


p.s.: o titulo é uma paródia do poema 'Quadrilha' de Carlos Drummond de Andrade


Para assistir depois de ler: Boy Culture

sábado, 23 de agosto de 2008

Daniel

A Ultra Love Cats é uma das festas que mais freqüentei. Sou mais fã da cena alternativa do que da gay. Mas o que fazia desta festa ideal era sua trilha toda voltada para a música pop. Naquela pista de dança já tive vários amores e sorrisos assim como separações e lágrimas. Contar minha historia sem aquela festa seria difícil, assim como contar tudo o que aquelas paredes já testemunharam.
Infelizmente, as coisas no universo mudam e a festa que tanto adorei vem, a cada edição, perdendo um pouco do seu valor, daquilo que costumava ser... Sinal dos tempos ou da falta de senso, mas não quero ficar gastando linhas para falar de defeitos.

'Get up on the dance floor'

A última vez que pisei lá foi no especial “dia dos namorados - Leona Lewis”. Sempre comigo nas baladinhas estavam Henrique, eterno apaixonado (na época namorando), Diogo, Bruno, o pegador que adorava se jogar e Renan, o único de nós quatro que ainda estava no armário. A fila virava o quarteirão, mas estávamos bem posicionados ao lado do carinha que vendia bebida.

“O Diogo não está atrasado?”
“To ligando pra ele, mas ele não atende. Ele tinha me mandado mensagem falando que foi buscar um amigo de metrô. Aliás, esse amigo é pra você, Luis. Ele adorou suas fotos no Orkut”.

Eles sabiam que eu não tava bem naquele dia. A festa já não era legal, estava com raiva do dia dos namorados por passá-lo mais uma vez sozinho e estava com pouco dinheiro pra beber.

“Pra mim? Você sabe que eu odeio encontro arranjado. Não conte comigo”.
“Mas ele é legal/simpático/fofo/interessante...”, no meio da declamação dos predicativos do menino, Diogo aparece ao longe. Com a fila andando acabei por entrar sem ver quem era o tal menino que tinham trazido especialmente pra mim.

Este especial foi marcado por duas “novidades”: 1º rolava uma festa do sinal, idéia infeliz que me lembra as matinês pré-adolescentes. Ironicamente, eu estava de vermelho e mais solteiro que nunca. 2º Tinha uma promoção interessante, em que o casal que desse um beijo na frente do Dj, ganhava um cd com o single “Bleeding Love” e seus remixes.

Vinte minutos e todos entraram e receberam o horrendo adesivo do sinal. Menos o tal menino misterioso. “O nome dele é Daniel, ele trabalha comigo”, Diogo comentou enquanto tirava um vermelho de sua camisa e o colava na calça numa tentativa de deixar aquilo menos ridículo. Quando Henrique viu o tal Daniel entrar, comentou ao pé do meu ouvido: “Amigo, esquece... Ele é muito feio pra você...”.

Pode parecer cruel, mas não tem eufemismo que caracterize fisicamente o Daniel: ele era feio mesmo. Era até fortinho, estava bem vestido, mas não tinha iluminação ou maquiagem que escondesse seu nariz, que estranhamente me lembrou “Alf, o ETeimoso”, mas ele parecia não se incomodar com isso. Disse “oi” para todos e logo já estava interagindo.
“Olhem! O Dj ta ali no canto dando os CDs pra quem beijar na frente dele!”; todos arranjaram pares para pegar o brinde, mesmo sem saber quem era a tal cantora, deixando eu e o Daniel sozinhos. Crápulas...

'espelho, espelho seu...'

Começamos a conversar e ele foi muito educado, com aquele resquício de timidez que dava charme ao que falava. Estava trabalhando pra bancar os estudos, morava sozinho, era assumido. E em todo o momento conversava comigo olhando nos meus olhos, coisa que valorizo muito. Logo, todos voltaram com CDs. Em momentos de dilema como este, prefiro pensar com matemática básica: estou sozinho + ele é interessante – ele é feio = porque não?
E num ato de ousadia peguei a mão dele, sorri e disse “Vamos pegar nosso cd?”.

O DJ Buba estava distribuindo os CDs e ao nos ver ate soltou um “essa eu quero ver...”, and then we kiss... e – droga – ele beijava muito bem.

Assim, passamos boa parte da noite juntos então. Meus amigos ficaram meio chocados, me zoaram e tiraram fotos. Nem liguei. O cara conseguia ser elegante e gentil e tinha uma ótima pegada, o que mais eu poderia pedir? “Rinoplastia”, disse Bruno quando me justifiquei por ter ficado com ele.
Entretanto, no meio da noite, enquanto estava esperando ele do lado de fora do banheiro, duas caricatas saíram de lá e me disseram entre gargalhadas maldosas “bunita, você que me perdoe, mas beleza é fun-da-men-tal!”.
Depois disso fiquei desconfortável a noite toda. Normalmente não penso no que os outros vão pensar, mas de repente pareceu que todos me olhavam e julgavam por estar ficando com ele. Daniel era todo fofo, trazendo bebida pra mim, cantando comigo e até amarrando meu sapato (!). E, na minha cabeça, pensamentos de vergonha por conseguir achar graça ou felicidade com alguém que era feio. Acabou que na ultima hora da festa disse que queria dançar um pouco sozinho...

Quando desligaram o som, saímos o grupo todo pra ver o sol nascer na praia de Copacabana. Estava cansado, desacostumado em virar a noite. Voltamos juntos de metrô, com Daniel segurando minha mão e me deixando dormir no ombro dele o caminho todo, o que só me fez sentir-me mais culpado: ate que ponto o amor gay não é superficial?

O telefone dele ainda está na minha agenda e seu perfil no meu Orkut. Mas, para investir em um relacionamento, acredito que esse sentimento de desconforto nem deva existir. Ou estaria eu sendo superficial?




Para ouvir depois de ler: Leona Lewis – The best you never had.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Sobre frutos

Eu costumo analisar pessoas. Sou daqueles que, a partir de um fato não mais que comum, começo a viajar em teorias, lembranças e histórias.

No começo da semana, entrou uma mulher um pouco mais velha que eu no ônibus e sentou na minha frente. Com ela, duas crianças muito novas. O recém nascido no seu colo fixou o olhar em mim de forma constrangedora e ficou a rir com aqueles grandes olhos negros e brilhantes. A outra, com quatro anos acredito, pulava, brincava e sorria. Mas o que me prendeu mesmo na cena foi que, apesar de estar limpando meleca de uma e pedindo para a outra sossegar, a mulher tinha no rosto o mais sincero sorriso, aqueles de felicidade verdadeira. Como se até as pirraças e doenças das crianças fossem algo fascinante.

'eu odeio germes'

Nunca parei para pensar na possibilidade de ter filhos. Na verdade até achava uma bênção ser gay e não ter de me preocupar com engravidar do meu namorado, mas vendo aquela cena não pude deixar de sentir uma pontada de tristeza por mim e felicidade por ela. Comentei isso com meu melhor amigo de todas as horas, Henrique, que sempre consegue definir bem as minhas confusões e confissões sentimentais:

“Eu senti a mesma pontada quando tava namorando o Diogo. Parecia que, por maior que nosso amor fosse, jamais daria frutos. A idéia de não ter frutos do amor, só frutos do coração, na época, me deprimiu. Iria adorar a surpresa de ouvir dele que estava ‘grávido’ de mim ou de ver que nosso filho teria os meus olhos e o sorriso dele. Mas o fato nunca me fez me arrepender da minha condição de gay.”

Henrique é um romântico ao extremo, o que faz da sua opinião algo questionável. Entretanto, sua idéia não parou de martelar na minha cabeça. Como seriam meus filhos com os homens que amei?

Com filhos ou não, a única verdade é que agora, definitivamente, não é o momento para se ter um.

Filhos demandam estabilidade financeira e um companheiro de verdade, coisas que no momento ainda me faltam.

Mas quem sabe um dia...


Para ouvir depois de ler: Madonna – Papa Don’t Preach.

domingo, 17 de agosto de 2008

Contra a natureza?

Às vésperas dos meus dezessete anos, mamãe sentou comigo para uma conversa séria. Ela disse: “Não quero ter um filho com vida dupla, mentindo pra mim. Então quero que seja sincero e me diga: você é gay?”

Eu engasguei, tossi e no final não pude mentir. Poder se assumir deste jeito é uma chance de poucos. No começo foi meio tempestuoso: as primeiras festas, os primeiros namorados, a primeira noite fora de casa. No final deu certo e hoje não imagino minha vida sem ser assumido, seja pelas coisas boas ou pelas situações estranhas que ela trouxe.

Na última sexta foi comemoração dos calouros na minha faculdade. Como havia faltado na minha sexta quando fui calouro, decidi aparecer nesta. Os resultados não poderiam ser diferentes: festa de faculdade + bebida liberada = loucuras e arrependimentos no dia seguinte. A vodka e o whisky rolavam soltos e todos muito alegres dançando e cantando e zoando com os calouros. Eu, que não dispenso uma boa festa, entrei na dança, e lá pela quinta ou sexta dose fui me sentar no canto pra me recompor porque já começava a dançar fora do tom.

Nessa hora, Camila sentou do meu lado. Ela entrara no mesmo ano que eu e éramos bons amigos. Fazia o tipo colorida, sempre com uma roupa que combinasse com a cor atual do cabelo, que constantemente mudava. “Posso sentar com você?”, disse sorrindo com seu cabelo verde e casaco laranja, à la Clementine. Além de irreverente na forma de se vestir e engraçada, ela era muito bonita. Conversa vai, conversa vem e com mais uma dose estávamos a centímetros de distância, praticamente com ela sentada no meu colo. Quando percebi a situação, pedi licença e fui dar uma volta. Por mais que rolasse uma vontade estranha de ficar com ela, não seria certo. Nem só pelo fato de eu ser gay, mas também porque a moça era comprometida.

'o que que eu to fazendo?!?'


No caminho de volta, pensamentos como “O que mamãe diria se ficasse com uma menina?”, ficaram na minha cabeça. Mas no dia seguinte tudo o que eu pensava era “Juro que nunca mais vou beber!”


Para ouvir depois de ler: Kate Perry - I kissed a girl