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domingo, 4 de setembro de 2011

Como esquecer seu EX




É nesse clima de sorvete na frente da TV, lagrimas e óculos escuros que eu, Luis, e Marc resolvemos interferir pela primeira vez no Crônicas e não escrever uma crônica e sim um serviço de utilidade pública inspirados no texto do Thiago. Depois de uma longa pesquisa por bares e noitadas, aqui estão em 6 passos como esquecer o seu ex:


1º passo
 Puxe o fio

O relacionamento morreu, mas você ainda ta ligado. O primeiro passo é preventivo: corte a comunicação com ele. Que pode variar desde apagar o telefone dele da agenda para não ligar quando estiver bêbado (culpados) ate fazer uma fogueira com as fotos e um boneco de vodu dele. A idéia é a mesma de todo o vicio: admita que ele não esteja afim de você e tire ele da sua vida. Quem vai estar perdendo é ele e você tem de seguir em frente. Um erro comum é achar que podem voltar como amigos, o que pode acontecer em um futuro distante quando ele for casado, careca e/ou com 20 filhos, mas se você ainda tem sentimentos por ele nem tenta. As mídias sociais são outra armadilha. É praticamente impossível resistir a espiadinha quase masoquista de ver como ele está, mas se esta querendo esquecê-lo exclua e bloqueie sem dó. Quando terminar essa parte, pegue seu telefone, ligue para as amigue e passe para o próximo passo.


2º passo
A tríade da mudança

As comédias românticas americanas revolvem muito em cima desse milenar ritual. 8 entre 10 pessoas passam pela tríade da mudança como primeiro passo para esquecer alguém e os 2 que sobraram fazem pelo menos um deles sem perceber. Ela parte do principio que para mudar a vida é preciso querer mudar e nada melhor para dar o primeiro passo do que mudando você primeiro. Um corte de cabelo novo , uma roupa diferente e você é outra pessoa. Não tenha medo e faça ou use aquilo que nunca pensou que fosse usar. Depois saia com amigues e encha a cara em uma festa. Aproveite o som alto para gritar com seus fantasmas. Se a noite não te atrai a opção é a famosa cena de Bridget Jones em que com um pote de sorvete você canta/grita “All by myself” com seu pote de sorvete (Se ainda não viu este clássico, sente o naipe no video abaixo). Por ultimo, é a fase Greta Garbo em que decide ficar só. É o momento de ser realista e pensar o que ganhou, o que não deu certo e deixar o relacionamento onde ele deve ficar: no passado.



3º passo
Transforme raiva em combustível

Um dos efeitos colaterais dos dois primeiros passos é inevitavelmente lembrar do maldito com o atual ou do traíra te traindo ou simplesmente pensar no calhorda. Lembranças voltam como refluxo e você vai se ver roxo de raiva. Este é o momento perfeito para descontar tudo na pilha de trabalho atrasado. Seu chefe vai adorar sua eficiência e pode te dar um aumento. Fique rico com a raiva dele. Se não for trabalhada, a raiva vira ciúme, e ciume por algo que não é mais seu é cavar o seu próprio buraco no ciclo vicioso. Outra válvula de escape ótima são exercícios físicos. Pedale como se não houvesse amanha e começará o verão bem. Assim poderá colocar em pratica a próxima etapa.


4º passo
Matemática emocional: Três caras bons são igual a menos um ruim.

 Esta é uma dica meio delicada porque é muito fácil ir para uma festa executá-la de modo errado e voltar para a estaca um. Mas partindo do principio que encontre três caras interessantes, não ao mesmo tempo e não necessariamente em uma festa, você vai esquecer o falecido rapidamente. A idéia aqui é a substituição de lembranças junto com a diminuição de eventuais carências que a separação traz. O funcionamento é simples e de modo progressivo: por exemplo, você acabou de passar da fase de raiva e da fase de não querer ver nenhum homem pintado na sua frente, então começa a sair com o carinha da sua faculdade, que é uma graça mesmo sendo um pouco mais novo que você. No começo é normal as lembranças do dito-cujo voltarem porque o defunto ainda não esfriou. Mas conforme passa do solteiro numero 1 para o solteiro numero 2 elas começam a ficar vagas e no terceiro definitivamente elas já serão historia.


5º passo
Escreva mas não envie 

Esta deveria ser a primeira das dicas mas esta aqui porque durante todo o processo deve ser feita. Cada pessoa se expressa de um jeito – escrevendo, ilustrando, dançando,... – então durante cada etapa no processo de esquecer alguém você tem de jogar fora toda a angustia, mágoa, medo e tudo o que queria ter dito. Se você trabalha com arte ou tem alguma delas como hobby este é o momento de catarse emocional a ser usado. O mais importante é: guarde para você. O desenho ficou bonito? Ele tem esse significado para você. O texto descreveu tudo o que sente? Ele tem esse significado para você. Se pretende mostrar para os outros, camufle as feridas, travista as verdades e deixe tudo com o ar de ficção realista. Se não o fizer, terá uma porta para criticas em lugares que não vai querer ser criticado.


6º passo
Ria de si mesmo, mas principalmente ria dele

Depois de cortar a comunicação, se recompor e se reinventar, ganhar uma compensação, um bofe e um hobby novo as coisas começam a ficar mais claras. É quase certo que no começo achasse que tinha perdido o cara da sua vida, mas quando olha direito vê que ele não gostava do que você ouvia, falava mal dos seus amigos, tinha hábitos estranhos, etc. O que queremos dizer é que de longe sempre vemos o príncipe no lugar do sapo, mas só quando quebramos o feitiço que nos envolvia é que podemos avaliar realmente por que não deu certo. O ponto alto do processo é a pergunta “o que eu estava pensando quando estava com ele?”. Lembre-se das coisas ruins que aconteciam, mas não deu atenção, dos incômodos e dos problemas que com certeza tinham. Vista o pretinho básico e enterre de vez esse defunto.


Agora, verdade seja dita. Nada é certo nessa vida, nem mesmo esses cinco passos. Existem defuntos que descansam eternamente em paz e aqueles que insistem em sair do tumulo. Não podemos garantir que vai esquecê-lo mesmo se fizer tudo direitinho. A única coisa que é garantida é que a vida continua e se você continuar junto com ela com certeza vai sobreviver a um coração partido.

domingo, 20 de março de 2011

Fim de ato





'I believe that life is a prize,
but to live doesn't mean your alive.'
Nicki Minaj

Não sei se já teve oportunidade de entrar em um teatro vazio. Tem algo de expectativa, de acontecimento. Como se qualquer momento um holofote fosse acender ou uma trilha começasse a tocar e a ação começar. É como esperar a vida começar. A expectativa disso é quase mágica.
Miguel era bailarino e toda vez que pisava em um palco, grande ou pequeno, ficava encantado. Sentimento que só era superado pelo dia da apresentação, com publico e aplausos. Mas era diferente por ser a entrega do seu trabalho. Sempre achou os ensaios mais puros. Quando dançava, arriscava. Quando dançava, se superava. Quando dançava, descobria que podia mais do que achava. E por muito tempo acreditou que este sentimento fosse universal a todos. O que se provou errado quando decidiu seguir a carreira e contou para a família. Ser o ‘homem que dança’ nunca foi bem visto. Primeiro era estranho, passou a ser excêntrico e terminou como um capricho. Não tem futuro, não tem estabilidade, porque vai fazer isso?

‘Luis, nunca foi fácil. Sempre tem picuinhas e problemas, mas... tenho amor pelo que faço. Não seria feliz em nenhum outro lugar, por mais que ganhasse mais dinheiro.’

As questões em volta de paixões sempre ficaram na minha cabeça. Mais de uma vez tive a honra de conhecer pessoas apaixonadas e observar como reagem ao falar do objeto de sua adoração. Então podia ratificar, Miguel era apaixonado. Um tipo raro considerando que muita coisa hoje em dia parece amor, se sente como amor, mas não o é. Não digo só carreiras e pessoas, mas as pequenas coisas que fazem parte da vida. Muitos não lembram que para se apaixonar por qualquer coisa precisa-se antes se apaixonar pelo que é. O primeiro passo que muitos tropeçam por ser muito fácil ser mesquinho. Não querem ouvir antes de falar e não falam o que tem de falar. Por medo de se machucar, para machucar os outros. E os problemas se multiplicam. Algumas pessoas os criam porque precisam do holofote para se sentir amadas, outras porque acreditam que só serão melhores quando alguém guiá-los para serem melhores. Mas poucas e raras conseguem crescer e encontrar felicidade e paixão em um local vazio. Miguel conhecia no teatro. Eu, no meu estúdio. Tenho meus planos e mais uma vez ouço os ventos da mudança me chamando. Admito que já não escrevo do mesmo jeito que antes e nem os mesmos assuntos. Alguns personagens tive de matar, alguns vão viver para sempre e assim vai ser na minha vida. Isto foi uma das coisas que Miguel me disse. Só foi possível viver a sua paixão pela dança quando dançava pelos motivos certos com aqueles que o queriam bem. E é isso que vou fazer. E a expectativa do que está por vir é tão mágica quando o teatro vazio de Miguel.

E para terminar eu pergunto a você, que me lê e me conhece. Está vivendo a vida com os motivos certos pra você ou acumulando problemas sem pensar nas soluções?

[Fim de temporada]

sábado, 12 de março de 2011

Not yours




“What is simple in the moonlight,
by the morning never is.”



Tudo começa com carnaval. Não era o feriado favorito de Matheus, mas a possibilidade de andar pela rua virando uma garrafa de vodka ser algo de bom tom era definitivamente um atrativo. E enquanto escolhia no supermercado qual dos sabores etílicos ia fazer sua noite, ligava para mim. Afinal ele não ia pagar nem consumir sozinho, embora pudesse. Dois anos de carnavais solitários com estranhos e ele decidiu que este ano seria diferente. Consumiria apenas líquidos, preferencialmente os entorpecentes, e nada de pessoas que iria esquecer depois. Tinhamos isso em comum. Parou na fila atrás de um cara vestido de Barney e achou a coisa mais normal do mundo apenas porque o conteúdo que ele pagava era semelhante ao seu. Álcool e noite era tudo que precisava. Encontro ele no metro e lá começamos o nosso carnaval. Entre os que iam conosco e os que voltavam para casa invariavelmente tinha um bêbado cantando. Sobriedade assim como o silêncio era o luxo dispensável da noite. Matheus virou o primeiro gole e no fim da viagem a garrafa estava na metade. Destino General Osório, a estação de Ipanema. Cuidado com o espaço entre o vão e a plataforma.

Éramos esperados na Farme de Amoedo, a rua fervida que queríamos evitar. Matheus encontrou seus amigos e eu os meus. Juntamos os grupos já previamente embriagados, como nós, sabendo que alguém ia se pegar ali. Henrique, que não devia beber mas não resistia a qualquer coisa doce com álcool, beijou dois ao mesmo tempo. Rafael, amigo e vizinho de Henrique, já trazia um casal a tira colo e olhava para um amigo de óculos de Matheus como quem diz com o olhar que ate o final da noite terminariam juntos. E ainda tinha um casal. Diego veio para mostrar sua fantasia, inidentificável, e Pedro só para acompanhar o namorado. Eles estavam a cinco meses juntos e estavam bem. Tinham mais duas ou três pessoas que sinceramente não vou lembrar o nome, mas elas não eram importantes mesmo.

Então, no meio da rua às 2 da manhã, com todos bebendo e rindo de idiotices, conversas moles de amantes e ciúmes de maridos, luzes de lojas e fantasias estranhas que algo começou. Matheus fingiu não ver, mas Pedro definitivamente o observava. Ele está bêbado já. Aliás, eu também, pensou. Mais uma rodada. Diego puxa conversa. Todos se divertem. E a noite passa.
Pedro mora em Copacabana e leva todos para sua casa. Quase todos. Rafael resolve ficar mais um pouco com o amigo de óculos e Henrique já dormia encostado em mim. Deste ponto em diante, dormir também é apenas o que quero fazer. No apartamento, colchões são espalhados e os ébrios se acomodam.

Sem sono, Matheus levanta e resolve fazer um chá. No escuro, com a folia ao fundo bem baixinha ele pára pra pensar na loucura que a rotina do carnaval é. Provável que nem fosse ver metade dos grandes amigos de bar que fez naquela noite. Tenta puxar da memória que frases eram tão hilárias nas conversas, mas não consegue. Lembra que deu um selinho em um cara muito bonito vestido de mulher, mas nem teve ganas de perguntar-lhe o nome. Lembrar dele no dia seguinte ia ser ruim. Viu no celular um lembrete escrito por uma mulher pedindo que 'me ligue no dia seguinte que eu te adorei', mas não fazia idéia de como aquilo foi parar ali, só sabia que não ia ligar. A chaleira começa a apitar e o fogo é desligado. A casa já esta em silêncio.

‘Não conseguiu dormir...’, diz Pedro aparecendo na porta usando nada além de uma samba-canção. Tinha a cara um pouco amassada pelo álcool ou por ter tentado dormir. Ainda assim, a visão fez Matheus segurar um pouco a respiração.

‘Vodka e energético sempre me ferra. Desculpa pelo barulho, precisava de um destes. Quer?’, perguntou para que não percebesse seus os olhos que acompanhavam cada movimento do pano da roupa de baixo. Em parte era o instinto involuntário, em parte era ver ate onde aquilo iria.

‘Não, eu... Minha falta de sono é insônia, não resolve com chá.’, Pedro puxa a cadeira e se senta ao seu lado. Por um minuto inteiro ficaram em silencio. Apenas olhares medindo as palavras. Devagar começam a conversar sobre o carnaval, sobre bebidas, sobre amores passados, sobre como conheceu o namorado, sobre se assumir, sobre novela, sobre medo. [...] Aos poucos, a conversa vai se tornando intimista, sem segundas intenções, sem perceberem.

‘Ok, e como foi a sua primeira vez?’

‘Era um primo. História típica, né? Ele estava hospedado na minha casa, no meu quarto. Então quando meus pais foram dormir rolou. E eu namorava uma menina naquela época, então quando isso rolou foi meio definitivo pra mim.’

‘Definiu o que?’

‘Que gostava de caras. [...] Sabe aquele lance que você olha pra pessoa e nem é preciso falar nada... O corpo fala... Foi assim.’

‘Entendo... Entendo bem... ’

‘Quase deixo ele falar de novo hoje. Com você.’

Matheus não sabia da onde tinha vindo aquilo. Sentiu o rosto queimar, ficando vermelho. Era muito para uma noite. E ele estava ali, a centímetros do seu rosto olhando fundo para seus olhos. Até ali eram apenas amigos trocando confidências. Mas quão amigo era de Diego, que dormia tranquilamente sem desconfiar? Quão irresistível era a tentação? Quanto Pedro podia ser o cara da vida dele? Valia a pena?

‘Pedro, você é um cara legal e tudo mais e por mais que ache esses jogos divertidos, tenho de dizer que não é muito legal isso. Pelo Diego e por você. Sério, ok?'

‘Sim... Tá certo. Sei lá nem to sabendo explicar... Desculpe.’

‘Ok... ta certo. Olha, não to querendo ser dramático nem nada, então relaxa. Somos amigos. Eu só me preocupo com vocês, acho que os dois fazem bem um ao outro. São um bonito casal.’

‘Entendi, Matheus.’ , disse abaixando a cabeça e balançando como se tivesse querendo tirar seu pensamento. ‘Quando me acertar te digo...’

‘Como assim, se acertar Pedro?’

‘Er... Botar as coisas em ordem na minha cabeça só isso. Fica tranqüilo.’

‘Mudemos de assunto, ok. Quando é o seu aniversario?’ e por mais que a conversa fosse para outro lado, a carta tinha sido colocada na mesa. O pensamento dava voltas e tudo que era dito agora parecia vir diferente. E não me entendam mal, mas quando Matheus me contou que não resistiu e se deixou levar pela conversa mesmo não deixando rolar nada eu tive de concordar. Ser objeto de desejo era excitante e sempre bom para o ego.

Ate o momento que Pedro pede para ir ao banheiro. Sozinho na cozinha com uma xícara vazia na mão pensou na dinâmica da loucura que a noite tinha sido. E em como poderia terminar. Então sem fazer barulho resolveu que tinha que aproveitar o momento. Abriu a porta e saiu, simplesmente.

Ao chegar em sua casa, o celular tocou.

‘Matheus, você desapareceu... e esqueceu sua mochila aqui em casa’, ouvir a ansiedade na voz de Pedro aquela hora da madrugada era estranho e ao mesmo tempo instigante.

‘Não, eu não fui de mochila. Era do Luis.’

‘Ah, ok. [...] Posso te fazer uma pergunta?’

‘Claro...’

‘É só que você não me falou onde mora...’

‘Porque quer saber? Vai me visitar por acaso?’

‘Eu posso?’

‘Não.’

‘Pow, então me dá... uma pista’

‘Eu sou vizinho do Luis, é tudo que precisa saber.’

‘Ele me disse que mora em Botafogo.’

‘Não é Botafogo. Ele tava bêbado quando falou isso, não é verdade.’

‘Bem, eu vou descobrir. Quando perceber, estou na sua porta... risos...brincadeira’

‘Essa eu duvido. Te dou seu presente de aniversario atrasado se achar.’

‘Olha que vou hein. Aí vai ter que dar’

‘Cuidado pra não superestimar o presente...’

‘Não vou. E se não ganhar o que espero dou o seu presente de aniversário adiantado, tá. Risos’

‘Ta valendo, então.’

‘tenho até junho para descobrir, né?’

‘Isso não parece justo, parece?’

‘Claro que sim! Muito justo...’

‘Boa noite, Pedro.’

‘Bom dia, beijos.’

E desligou com um sorriso bobo no rosto. Tomou seu banho e mesmo com isso tudo ficou a olhar a porta, esperando a campainha tocar. Pensou no quão romântico seria contar para seus filhos aquela história se ela terminasse com ele entrando e dizendo que o queria pra sempre. Mais isso foi apenas por alguns minutos. Depois se esqueceu e continuou sua vida. Aquele príncipe não era o seu.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ressacas ou Sete coisas impossíveis antes do café





Bom dia.

‘dia.

Por favor, pára de fazer barulho com esse isqueiro. Parou de fumar de novo?

...e de beber também. Não preciso de mais noites como a de ontem.

Bom pra você. Assim não fica dando em cima do namorado dos outros...

Não fode, Luis. Não quero brigar com você de novo.

...

Tem café?

Tem. [...] Porque acha que brigamos tanto?

Não sei, Marc... Porque gostamos de fazer as pazes?

Risos. Nunca sei quando está falando sério...

O que aconteceu ontem à noite? Odeio beber e não lembrar como cheguei nos lugares.

O de sempre. Ficamos na Farme bebendo ate de madrugada, você passou mal com vodka e energético, eu tava de saco cheio daquele grupo de venezuelanos dando em cima da gente, arrastei você ate aqui e você desabou no sofá.

E quando nesse meio tempo eu recebi vinte ligações e dois recados na secretária do celular? Putz, não quero nem ouvir... Morri pro mundo hoje.

Pois é cara, você e telefone ontem. Tava foda... Sua sorte é que seus ex já sabem que você bebe e liga pra eles então já desligam o celular.

...

Não fica assim, Lu.

Desculpa. Carnaval definitivamente já não é o que costumava ser.

A vida não é mais o que costumava ser pra nós.

Posso passar o dia aqui, Marc?

Claro que pode, Greta Garbo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Rainy Mercedes





Chuvia a duas horas. Quase três. O barulho da janela era o único som dentro do quarto assim como os trovões eram a única luz. Sentada no chão ao pé da cama ela tira fotos da janela. Falta de eletricidade a entediava. A cada flash de fora, um flash lá dentro. Não sabia o que sua ação procurava, mas iluminar a escuridão do seu quarto por alguns segundos era parecia uma resposta a altura. A cada pressão do botão, uma nova imagem aparecia no vidro da janela. A cada vez que fazia força no dedo, mais força fazia para que saísse dela apenas a luz. Estava cansada de chover. Mas sempre que fotografava, lembrava. Eram pensamentos invasivos das coisas bonitas que ficaram. Das coisas idiotas que podia ter remendado. De saudades e carências que nem imaginava que teria. Quatro anos não se lavam depois de apenas uma noite de chuva. Começou a sentir a maquina pesar sem perceber. Começou a pensar nele sem perceber. Começou tudo de novo sem perceber.

Arrastou-se a cama e abraçou as pernas procurando calor. Fechou os olhos procurando silencio. Reviveu o ultimo dia procurando explicação. E na noite escura e úmida, desejou. Primeiro para si, depois em voz alta. E percebeu que palavras, estas malditas palavras, condensam uma vez ditas. E são levadas pelo vento não importava para onde desde que fosse pra fora de si. Então gritou suas histórias para cada gota que caia. Gritou todas em plenos pulmões. Todas que lembrava e as que não lembrava. Gritou seu amor, sua loucura, seu êxtase, seu remorso, sua vingança, sua solidão. Queimou fotos, arquivos, cartas, sorrisos, pingentes, tardes ensolaradas, mensagens no espelho, palavras falsas de amor eterno, noites de sexo confusos, os cheiro e gostos que nunca mais teria, o olhar que me deu quando disse adeus. Quebrou copos e estantes desejando que fosse a ele a cair e se espatifar. Amaldiçoou cada dia que esteve ao seu lado para logo após agradecer o tempo que teve para amá-lo. Dormiu cansada com raiva de si e a certeza de que não acordaria.

Mas acordou. Acordou com a luz do dia. Acordou e se pos de pé, quando achou que não poderia. E no meio dos pedaços de destroços dentro dela, ela acordou. E já não sabia mais porque sentia dor.


[ Desafio Literário. um escritor desafia outro a escrever uma visão sobre seu trabalho. Crônica Masculina desafia: Hey, Mercedes ]

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Retroação




Cinco minutos para terminar. Cinco. O ponteiro parece perceber minha ansiedade e anda em câmera lenta em direção ascendente. Pés batendo. Caneta mordida. Me ponho em direção a saída apenas esperando o sinal de libertação, o fim da angústia do dia inteiro. Antes da quinta volta, ganho a rua como quem procura o ar que falta. Era o fim de mais um dia. Mais um fim para minha vida.

Então pego minha bicicleta e corro. Corro o mais rápido que minhas pernas permitem. Corro do fim. Corro da responsabilidade de acordar cedo. Corro do poder que minhas palavras tem sobre mim mesmo. Corro do que me arrependi e do que ainda nem fiz. Corro da chuva. Corro. Corro. Porque corro.

E depois de não sei quanto tempo me vejo parado na frente as sua casa. Um ato falho irônico. Mesmo assim, olho pela janela na esperança de que você visse mesmo que de relance todo o desespero que deixei no caminho para chegar aqui e me desse aquele abraço. Aquele que sempre me deu e que apaga todos os problemas de mim. E eu espero. Espero o tempo passar ou voltar. Espero. Espero os segundos se estenderem ao infinito. Espero e o movimento das coisas sutilmente pára e lentamente começa a retroagir. Um compasso invertido toma conta da cidade, do país e do mundo fazendo com que nada mais seja do jeito que já foi um dia. O planeta sai do eixo com a sua ausência. Tudo anda, mas nada mais será o mesmo.

Um ano para voltar. Um ano e tudo começará novamente.

domingo, 18 de outubro de 2009

Cafeteria





:Oi, você pode pegar uma colher para mim?

:Sim, toma. [...] Ta tudo bem com você, Luis?

:Ta, ta tudo bem. As coisas só andam um pouco agitadas e... quer um pouco de café?

:Não, obrigado... Mas noticias suas seriam legais.

:Nossa, não sabia que sentia tanta falta assim de mim.

:Não sinto. Mas costumo me perguntar porque as pessoas somem desse jeito.

:Ah, você sabe... O de sempre... São as mesmas velhas desculpas de trabalho, falta de dinheiro e de tempo.

:Ta, isso é o que você responde para os outros. Acho que já conversamos a tempo suficiente para um pouquinho de consideração, não?

:Ok, ok. Desculpe. É só que as coisas loucas de sempre estão mais loucas que de costume. E devo dizer que minha vida andou ocilando para tal nível de drama, que ia competir com as novelas do SBT – o que não era o meu objetivo. Mas nada que merece preocupação. Por exemplo, Fabio voltou com o Jornalista niteroiense, a qual eu já havia falado. Não sei se vai dar certo, mas o fato é que ele parece feliz e eu só posso aplaudir o relacionamento.[...] Henrique também. Ele ainda está com Rogério, mas não sei bem porque cada dia mais a gente se distancia. [...] Minha mãe decidiu lançar suas memórias e me pediu para ser o revisor. O engraçado é que antes do terceiro capitulo o livro já virou burburinho entre os familiares, com alguns ameaçando de processo e tudo. O que só fez o livro se tornar mais e mais interessante. [...]

:Não esquece de me mandar uma cópia. Mas até agora você só falou dos outros. E você?

:Eu? [...] Bem, eu ainda estou um pouco confuso sobre muita coisa. Tinha parado de postar porque estava experimentando coisas novas. Um pouco de ilustração, um pouco de musica, fotografia. E acabei me perdendo nisso tudo. [...] Eu e eduardo fizemos oito meses semana passada. E eu fui para São Paulo. Sozinho. Não foi por opção, mas meio que virou uma crise entre nós. Mas não é nada demais. Nada que possamos solucionar. Mas tenho de dizer que aquela cidade mexeu comigo.

:Ah, não... Vai me dizer que aconteceu ‘alguma coisa’ lá?

:Se esta me perguntando se eu traí o Eduardo eu digo que não, não aconteceu. E não tem nada a ver com isso. Acho apenas que fiquei deslumbrado com o que vi. E olha que eu não vi muita coisa.

:Então é um carioca considerando virar paulista?

: Não me entenda mal. Eu conheci pessoas e lugares com o estilo de vida que eu gostaria para mim. E apesar de achar que as Olimpíadas não vão ajudar nada a cidade, eu ainda amo muito o Rio. Tem pessoas e lugares aqui são insubstituíveis.

: Você realmente é confuso.

: Pois é. É unânime. Mas ainda estou vivo e com muito o que fazer. [...] É só não esquecer de mim que eu volto.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Indefinição certa






“Just do it
Because you want it,
Not because you saw it.”

Copacabana Club em Just Do It




Existe uma infinidade de livros, filmes, músicas e blogs que tentam descrever o amor. É o assunto preferido de todos os tempos a ser contado pelas pessoas. Há os que preferem o lado onírico das relações platônicas, com paixões intensas, cavalos brancos e cartões de crédito sem limite. Outros apenas gostam da boa e velha sacanagem. E quando muita gente fala sobre a mesma coisa dificilmente elas entram em conceito. Há os que encontram o amor na fila do pão, há os encontram nos dark roons. Há os que vivem se esbarrando sem nunca sossegar e ainda os que nunca o vão encontrar. Mas mesmo os que já tiveram a decepção do primeiro amor ainda esperam uma historia romântica vinda depois de muita superação pessoal, falas piegas e potes de sorvete. Afinal, qual é a graça da vida sem uma batalha final, sem obstáculos intransponíveis e muitas montanhas para escalar? Mas o que você faz depois de vencer a batalha? Onde você guarda suas armas? Onde você guarda sua vontade de subir quando chega no topo?

A verdade é que eu sentia falta da vida de solteiro. De sair com os amigos para falar mal dos ex namorados, tomarmos umas cervejas e sairmos para a noite; de todo o jogo de sedução que pode rolar: das cantadas baratas dos caras bonitos que não precisavam dizer um oi às cantadas dos caras que mesmo se dissessem tudo não iam levar nada; de paixões descartáveis e de quebrar corações.[...] Isso hoje parece tão distante. Mas o namoro não muda tudo. Não. Passa-se apenas a fazer trocas. Programas a dois são mais interessantes e existe a tentativa de conciliar os espaços na agenda com os amigos [coisa que eu ainda não consigo fazer direito, fato.]. Assim, o que antes era divertida agora parece distante e estranha. A noite, por exemplo, perde sua função, já que só se sai para beber e ouvir musica coisas que se pode plenamente fazer em casa.



Era um sábado a noite de uma semana conturbada de trabalho. Saio às 18 horas e ligo para Edu. Ele havia sido convidado para um brunch metido a coquetel em um clube na praia e estava saindo de lá naquela hora. Mesmo cansado, saímos para comer no Uno Duo no centro e decidir o que iríamos fazer. Ele queimado de praia, eu com olheiras profundas. Que casal encantador. Os meninos iam para uma festa no Cine Ideal,que só valia a pena por ter bebida liberada, e tinham colocado nossos nomes na lista. Por um momento pensamos em ir e então partimos para Copacabana. A praia a noite era inspiradora e pareciam que ate as musicas nas rádios contribuíam para uma noite agradável.

“Lu, hoje tem Ultra Love Cats também, sabia?”

“Sei... Colocaram nossos nomes lá também. Mas acho que seria sacanagem irmos para lá e não termos ido para o Cine.”

“É, eu sei... Não ia querer entrar também, to meio cansado. Mas bem que poderíamos dar uma passadinha na frente antes de irmos para casa, não?”


Havia algo de masoquista naquilo, mas fazer uma social nunca fez mal a ninguém. Achamos Laura saindo de um bar. Laura era uma caloura minha, mas que já conhecia anos antes da faculdade. Era uma party girl completa e estava planejando a sua própria festa. “Vai ser foda! Só vou chamar gente conhecida...” Obviamente ela cantou a gente para entrar na festa, mas já estávamos de saída. Bebemos uma com ela e pagamos a conta. Mas havia algo no sorriso dela quando contava da loucura da festa da noite anterior que me fez lembrar da minha época de festas nonstop. Quando foi que me perdi de mim mesmo? Por que deixei de freqüentar os lugares e falar com as pessoas? Ali eu era um peixe fora d’agua.

Atravessamos a rua e encontramos mais pessoas da faculdade. Luan fazia cena com seu cabelo novo. “Como assim você não vai entrar?!?”, espantou-se. Saímos a francesa e fomos para casa.

“Você sabe... Eu não gosto muito do Luan...”

“Não gosta?”


“Não é ódio. É só porque... sei lá, ele me dá um sentimento que não sei explicar. Ele é simpático, mas não posso deixar de sentir pena dele e dos amigos dele...”

“Olha, de certa forma eu ate te entendo [ate pelo fato de já ter ficado com o Luan], mas porque pena?”


“Não sei... De certa forma eles fazem parecer que a noite é como uma droga que apenas injeta a felicidade que ele precisa para continuar sua infeliz vida.”

Não soube direito o que dizer. Na conversa ficou subentendido que aquilo era ruim, mas que não sabemos o dia de amanha em que nosso relacionamento pode acabar e teremos de estar de volta na pista. E era sempre assim quando conversávamos e um assunto respingava em nós. Havia sempre o que ficava subentendido e eu não sabia o que dizer. Me disseram que amor não era um sentimento, mas uma habilidade. Habilidade que precisava ser trabalhada, aperfeiçoada. Por isso, mesmo neste caminho de duvidas eu escolhi continuar. Não era questão de desistir ou seguir em frente, amar ou não, mas de simplesmente não tentar definir algo que ninguém ainda conseguiu.





Para ouvir depois de ler: Florence and the machine - I'm not calling you a liar

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Vinte um

"Eu não sou tão triste assim,
é que hoje eu estou cansada."
Clarice Lispector







“Depois dos vinte um os anos voam, meu filho. Já você pisca e tem 30 anos. Já, já tem cabelo branco. E já sabe que se precisar dividir tinta para cabelo pode contar comigo.” Disse minha mãe, depois de contar parabéns algumas horas antes. Vinte e um anos. Vinte e um anos e o que para esperar? Nessas horas a gente sempre se pergunta se chegou ao ponto que gostaria estar. E vê que não chegou nem na metade e que apenas está ficando velho. Velho. Velho. Odeio fazer aniversário. Pior que nem sempre eu odiei. Existiu uma época em que eu gostava dos presentes que ganhava, da festa e das pessoas, mas isso tudo se perdeu. Acho que foi quando minha própria vida começou a me sufocar. Mesmo com a gripe suína aumentando minhas férias, eu ainda assim não tive um dia de descanso.

O telefone toca pela quarta vez e eu ignoro. Já sei que é o Henrique. Já sei que ele vai querer que eu arrume alguma coisa para comemorar o meu aniversario. Mas não quero. Já comi o bolo em casa, já ganhei um casaco novo e tenho certeza de que não vão me dar nada para ir para lá. Na sexta vez, eu atendi. Pizza, bolo e cerveja. Com pessoas interessantes tende a ser um bom programa.
“Luis, tem uma festa em Botafogo que dá vip de graça para aniversariante e um acompanhante. Colocamos o seu nome e do Edu lá, porque não vai com a gente?”

No dia seguinte chequei na internet e meu nome aparecia em pelo menos três festas neste mês sem que eu soubesse. No banco de trás de um carro seguimos para lá. Rindo, bebendo, cantando. Uma decepção ao chegar e ver a festa merda que era. Antes da uma da manha tossi minha ida para casa.

“Amor, é o seu aniversario. Vamos passar a noite juntos?”

Consenti. Edu, assim como meus amigos e meus leitores daqui, têm tido muita paciência comigo. Muitas vezes é por causa de trabalho, muitas vezes é por minha causa mesmo, mas já peguei o costume de desaparecer da minha própria vida as vezes.

Quatro e quarenta e cinco da manha. O chão gelado do banheiro de motel parece feito de gelo puro quando não se está vestindo nada. Eu termino de fumar escondido aquele cigarro que deixei no fundo da mochila para que Edu não veja e entro no chuveiro. A água parece mais do que só me lavar, ela me deixa mais leve. O outro há muito dormia e nem reparou que havia saído. Eu não sei como ele conseguia dormir. Era desconfortável, era frio, era até sujo. Mas pelo menos não era solitário. Mesmo assim não conseguia dormir. Era meu aniversario e o cigarro não era a única coisa que eu tinha escondida do meu namorado. Parabéns para mim.


[continua]


Para ouvir depois de ler: Imogen Heap - Canvas

sábado, 11 de julho de 2009

Brasil, um país de todos



Minha cabeça está em parafuso. Sabe quando a bagunça do seu quarto se mistura com a bagunça da sua vida e tudo parece tão fora do lugar, tão desarrumado, tão errado que tudo o que quer fazer é gritar e fechar os olhos na esperança que tudo aquilo suma por si só? É isso. Mas nada some se você só gritar e fechar os olhos. Neste caso você só tem duas coisas a fazer ou arregaça as mangas e faz você mesmo ou paga para fazerem para você. E para isso eu tenho Maria. Maria é a empregada que todo final de semana vem para limpar minhas coisas. No começo ela levava um susto quando chegava no meu quarto, onde também trabalho, mas hoje acho que já está acostumada.

Enquanto tomava um café e reclamava de ter acordado 6 da manha em um sábado para terminar uma ilustração, ela começou a contar a historia dela. No interior de Minas, de onde ela veio, as pessoas acordavam às três da manha para trabalhar na roça o dia inteiro, não serem pagas e viverem exploradas por fazendeiros. Ela já tinha seus 60 anos e não se arrependia de ter saído de lá aos quinze anos para trabalhar no Rio. Ela não teve estudo e sempre trabalhou como empregada. Hoje tinha duas filhas, ambas em faculdade. É uma historia comum se tiver pensando em novelas da Globo, mas para mim foi estranho olhar para uma personagem da vida real.

Em um cotidiano em que a cada momento coisas novas no mundo acontecem e você tem de estar atualizado, onde toda a informação é rápida, vital e precisa ; era estranho me ver de frente do Brasil antigo que me foi ensinado no colegial. A vida hoje gira a 100 por hora todo momento e esquecemos que fora da cidade grande ainda existe um Brasil arcaico, onde coisas como “voto de cabresto” e “trabalho semi-escravo” são coisas que são presentes na vida de muito brasileiro. E em uma semana onde funeral virou show mundial e a discussão política do momento é se um presidente olhou ou não a bunda de uma mulher, a pergunta que bate mais e mais na minha cabeça é que tipo de mundo é esse que está se formando? Sabemos em tempo real o que está acontecendo a quilômetros, mas não vemos os problemas do nosso próprio país? Que tipo de pessoa é o brasileiro que lê religiosamente o twitter para esquecer o quão quebrado e vergonhoso é o seu próprio país? E quem sou eu, Luis, no meio de tudo isso? O mico do “#forasarney” mostrou o quanto nós somos imaturos em questão de administrar o nosso país, porque não gostamos de quem está no poder, mas não fazemos nada contra ele a não ser pedir ajuda para quem nada pode fazer. Acho que é bom vermos a tecnologia a nosso favor para conhecermos pessoas novas e nos divertirmos, mas se não temos a mesma força de vontade para fazer a diferença, para promover coisas boas, para arrumar nosso próprio país como podemos reclamar dos direitos pessoais?

Quando vi a bagunça era maior do que a própria Maria podia arrumar.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mesure your life in love


“No girl should ever forget that
she doesn’t need anyone
who doesn’t need her.”

Marilyn Monroe








Um amigo que lê o blog me ligou e disse que recomeçar falando que ia recomeçar era uma puta sacanagem. E é. Mas as coisas aqui ainda não estão no seu devido no lugar. Sobram papéis espalhados, cartas sem remetente, desenhos sem rostos; nunca que em um mês eu colocaria tudo em dia. Com um ultimo trabalho para fechar o período, eu resolvi me trancar na minha bagunça particular para fechar pelo menos esta pendência. Mas como é solitário o mundo dos livros. Um romance de vez em quando anima os espíritos, mas pesquisas maçantes, analises rasas e desinteressantes são tudo o que você não quer para o final de semana. Vinte minutos depois de fechar a porta do quarto já estava tacando um livro pela janela.


[meu tipo de pesquisa]

E quando toda a pesquisa parece enfadonha apela-se para o guru da falta do que fazer: Orkut. Felizmente para mim, Fabio tinha deixado um recado pedindo para ligar para ele. Apesar de no momento em que escrevo aqui já faz duas semanas que não nos falamos, considero Fabio Braum um bom amigo. Nos conhecemos há um pouco mais de um ano quando ele namorou Henrique, meu melhor amigo. O namoro durou uma semana e quatro dias, mas ele entrou para o grupo desde então. E o tempo só trouxe mais intimidade para falarmos de nossos casos. No caso, ele ainda estava mal por ter acabado o seu relacionamento com Marcos, o jornalista niteroiense. Na minha sincera e cruel opinião o menino era, de longe, o espécime mais desprovido de beleza a passar pelo currículo amoroso de Braum, mas eles pareciam se entender e Marcos conversava bem. O caso deles ia para segunda semana, a semana decisiva para o Fabio, quando em uma festa ele recebeu um presente de dia dos namorados atrasado de um ex que não sabia que era ex. Marcos obviamente ficou puto, deixando a festa para não brigar com o namorado e deixou também o caminho livre para o outro, que acabou sendo mais um idiota-querendo-impressionar-um-cara-com-dinheiro. Antes de mais nada devo pontuar que não tenho nada contra caras com dinheiro querendo se mostrar, mas daí a achar que com um drinque e uma caixa de ferreiro rocher podem nos levar para cama estão muito enganados. É preciso pedir por favor. [Mentira, não é tão fácil assim] Moral da historia: Marcos viajou para Campinas para esquecer Fábio e está lá ate hoje. Fabio por sua vez se voltou para a única coisa que era fiel a ele: o seu trabalho. Passou pela fase “odeio todos os homens”, “o que eu fiz de errado” e “bem feito pelo diploma dele não valer de porra nenhuma” nos primeiros cinco minutos de “All by myself”, que ele sempre coloca como um ritual Bridget Jones pessoal, sendo que a personagem do livro tinha 30 e tantos anos e ele, 18. O drama não durou muito também, porque depois disto sua chefe encheu a mesa com a programação do Viradão Carioca que queria dizer que para terminar tudo aquilo a tempo ele teria que fazer um viradão no trabalho.

Na mesma hora em que chorava lagrimas e venenos com Braum, Eduardo, meu namorado, estava em um restaurante com Sabrina, sua melhor amiga desde o fundamental. Sabrina era uma dessas novas lésbicas, que tem os dois pés bem firmes no armário, na cabeça os sonhos de ‘felizes para sempre’ com o primeiro caso de balada e o discurso de que ‘ainda pode ficar com homens’, mesmo já tendo abolido da vida esta possibilidade. Ela bebe um gole de chopp e segura a mão do amigo. Falava da ironia da vida em voltar para o mesmo ponto, de que ninguém queria nada com nada, que ia cair na putaria e blarblarblar. Como todo mundo que se descobre mas não quer sair do armário, Sabrina era adepta das salas de bate papo. Foi lá que ela conheceu Augusta. Depois de dois encontros em festas de meninas e lugares duvidosos, elas começaram a namorar. Nós quatro já havíamos almoçado juntos e no segundo que coloquei os olhos na outra eu pensei que aquilo não ia acabar bem. Sabrina era elegante, inteligente e estava deslumbrada com a primeira namorada. A outra era uma caminhoneira bronca, desbocada e tinha aquele problema de auto afirmação de que precisava dizer aos quatro ventos que era sapatão. Eu não via nada de casal ali, mas preferi não comentar. Afinal, era amiga do Edu. Semanas depois desse almoço, Augusta pediu um tempo porque estava chateada com ela sem motivo aparente e porque estava tendo problemas em casa também. E assim que desligou o telefone decidiu que ir para a The Week com os amigos era o que precisava para afogar as magoas. Tudo bem que se ela foi para a The Week mesmo ela não ficou com ninguém, pois alem dela não ser muito atraente aquele lugar é conhecido por ter 25 homens gays descamisados para uma mulher que invariavelmente era a garçonete. Mas a sacanagem estava feita. Então Sabrina chorava com Eduardo o triste fato de se ver novamente solteira e sozinha e o amigo nada podia fazer para consola-la a não ser pedir mais uma porção de batatas.

No fim do dia, depois de concluir a minha pesquisa, encontrei com Edu em um bar na praia. Ele me contou que estava preocupado com Sabrina pelo seu pessimismo com a vida, que parecia para ela que a solteirice era sinônimo de solidão. O que me fez lembrar da ligação de Fabio e das mensagens posteriores dizendo o quanto estava se sentindo sozinho. Os dois eram bonitos, inteligentes e absolutos, mas então porque estavam tão assombrados com o fantasma da solidão? Porque gays tem tanto medo de ficar sozinho? “Luis, é complicado. Meu medo é de chegar aos 60, 70 anos e me ver sem familia ou amigos. E família já é difícil já que naturalmente não temos filhos e muitos dos gays são excluídos das suas famílias.”, disse Edu dando a sua opinião. Eu achei aquilo furada. Se o gay é excluído da família então a família não o ama como ele é. Não que seja uma situação fácil ou confortável para todos aceitarem, mas onde existe amor existe compreensão e, quem sabe, um final feliz. E ter filhos hoje não é nenhum problema [mérito que preferimos não entrar porque já tínhamos discutido tudo sobre nossos filhos quando eu fiquei “grávido”]. Posso estar sendo radical, mas para mim você deve sentir medo da solidão quando você não ama as pessoas. É o tal equilíbrio. Para ser amado, é preciso amar e com isso não quero dizer apenas ao seu companheiro, mas sua família, seus amigos e todos os que cruzarem sua vida. Amar sem esperar nada em troca. Então a conversa começa a esquentar. Ele diz que teve amigos que investiu muito e quando souberam de sua opção lhe viraram as costas. Eu digo que eles não estavam prontos e não sabiam amar, mas que um dia poderiam e perceberiam o quanto perderam. E a conversa vira debate e o debate, discussão. Ate que eu paro, seguro o rosto dele e digo “Olha, seu cabeça dura, eu amo você” E o beijo no meio do bar.

“Amor, nossa eu acho que tenho de casar com você. Eu ouço palmas quando a gente se beija.”

“Eu também, mas acho que não é porque nos beijamos. É a mesa no outro canto do restaurante, ta vendo?”

“Ah, então ta, eu tiro o pedido de casamento. Mas será que as palmas foram para nós?”

“Não deve ser aniversário de um deles.”

As palmas e assobios eram para nós. A mesa tinha umas seis pessoas, a maioria homens. Eduardo fechou a cara achando que eram homofobos zoando “os viadinhos no canto”.

“Amor, relaxa. E se for? Deixe eles... Deixe os urubus passeando a tarde inteira entre os girassóis.”


Ele se acalmou e eu saí para ir ao banheiro. Eu tinha acalmado ele, mas não concordava muito. Não estava perto da Farme, mas era Ipanema, não precisava me preocupar. Certo? Não. Era ruim demais o pensamento de que pessoas te odeiam deliberadamente sem te conhecer e podem faze-lo livremente na internet, na igreja, na rua, naquele bar ou em qualquer lugar. Lavei o rosto e me olhei no espelho pensando em toda aquela conversa e os assobios. É ruim o bastante já termos medo da solidão, medo que assumo que já tive, mas pior ainda é temer quando já não estamos sozinhos. É muito difícil para o mundo entender dois caras que se amam? E no final a gente ainda tem que ‘escolher’ entre ficar sozinho e triste ou junto e escondido?!? Não mesmo! Eu sou lindo, absoluto, tenho um namorado gato e não devo nada a ninguém. Quem me ama sabe quem eu sou e os que não me conhecem tem mesmo é de bater palmas para mim. Ajeito o cabelo e saio pisando firme com o meu ego lá em cima para não dar chance para os “homofobos”. Até porque para chegar na minha mesa eu tinha que passar pela mesa deles.

Eis que quando eu passei um deles me chamou, meio escondido, meio envergonhado.

“Olha, só queríamos falar que vocês dois são muito bonitos juntos. E ainda se beijando em publico! Parabéns!”, disse um senhor atrás de seus óculos de aro grosso. Logo todos os outros da mesa vieram me cumprimentar. Falaram que acharam demais, tiraram fotos, pediram e-mail. Eduardo, percebendo que eu não voltava foi atrás de mim e ao chegar naquele grupo tão alegre ficou desconcertado por achá-los homófobicos. Eu ria de nervoso, também não esperava por aquilo. O grupo era de sua maioria gay e se reuniam todos os domingos naquele bar para conversar e falar besteira. Inclusive nos chamaram para nos unir a eles. A gente já estava de saída, mas deixamos o nosso contato para sairmos uma próxima vez. E saimos rindo, sem medos do que estava por vir. E de Crossfox.




*Queria aproveitar e agradecer a galera que comenta, a galera que não comenta mas segue e a galera que não comenta nem segue, mas sempre vem dar uma olhadinha aqui. Ainda to me organizando, mas daqui a pouco volto com força total respondendo os recados de vocês. beijos, L.C. *


Para ouvir depois de ler: Little Boots – New in town

domingo, 28 de junho de 2009

Rise



"A maquilagem diz-nos mais que o rosto" (Oscar Wilde)




Oh, As férias! Às vezes seria interessante se durante a vida pudéssemos dar paradas estratégicas para organizar os pequenos problemas, como quando você a arrumação de armário que sempre é deixada de lado ou quando resolve colocar em ordem os livros e dvd’s na estante. É preciso tempo, um som ambiente muito bom e força de vontade para não deixar a arrumação pela metade. Não foi bem por isso que parei de postar. Meus dvd’s ainda estão desarrumados. Acontece que às vezes me dá vontade louca de trocar tudo do lugar, tirar as fotos, de fechar todos os textos mazomenos, de fazer algo diferente ou ser diferentemente igual... É loucura, é TOC, o que seja! Mas depois de um mês sente-se falta, né. E é sempre mais difícil voltar. Não se sabe onde parou, o que já se fez ou o que ainda falta fazer. O mais estranho é como as coisas mudaram neste meio tempo.

Fábio, por exemplo. Agora ele dorme no trabalho para economizar tempo. Não nos vemos mais. Ele só sai do escritório para beber na Lapa e pedir a comida pelo China Inbox – orgulha-se da sua recém adquirida habilidade com os pausinhos. E cada vez mais sente que havia vendido a sua alma, infelizmente por um preço muito a baixo do mercado. Mas enquanto ocupasse a sua cabeça com trabalho pelo menos ganhava algo em troca. Diferentemente do seu ultimo relacionamento com um jornalista niteroiense, que ocupou a sua cabeça, seu tempo de trabalho e uma gaveta no seu armário para terminar com uma ligação malcriada. Tempos difíceis, mas que iam melhorar. Tinham de melhorar.

Já Henrique figurava o lado oposto. Desempregado, sem faculdade e com um namorado endinheirado. O sonho de todo gay? Não. Mais e mais ele ficava dependente de Rogério. “Vamos sair?” “Não sei, deixa eu perguntar para o Ro.” Foi o final de pelo menos três ligações com ele. Também já estamos há algum tempo sem nos ver. E por mais que ríssemos do seu momento víamos que ele não parecia feliz daquele jeito – até porque a culpa era exclusivamente dele. Era falta de oportunidades, mas esta situação também ia melhorar. Tinha de melhorar.


Não posso dizer que não tenha desperdiçado nada, pois a minha distancia também foi devida a causa de financeiro-amorosa. Na verdade foi uma epifania, um insight de lucidez. Era a saída do trabalho na livraria, quando um colega me dá carona para casa e fecho a porta atrás de mim e faço um jantar e durmo. Isso acontecia praticamente toda a noite mas nesta em especifica ao fechar a porta eu me vi dentro do meu maior medo. Era uma rotina. Não a rotina produtiva, mas a rotina confortável do “é esta é a minha vidinha e estou ok com isso.” As portas dos meus vinte e um anos e eu me vejo ganhando dinheiro com algo completamente diferente do que eu tinha planejado. Não era este o Luis que eu via quando era criança, ou antes de entrar na faculdade. Não era este o caminho que eu queria tomar, então porque eu deixei as coisas continuarem o mesmo rumo? Sei que na ultima temporada havia falado sobre o ensino que lobotomiza e não inspira. Mas quando o rumo que se toma vai em um caminho diferente do que traçou você senta e deixa as coisas rolarem? Bem, eu não. Dá comichão, pinica. Então abri-se um projeto paralelo e fecha-se outro. Tudo para ver a minha situação melhorar. É a vida.


Então sem mais delongas eu volto a vida online com meus posts semanais neste curto-logo post de retorno e apresentando a vocês a temporada 3 deste blog:


Para quem é carioca, Ipanema não é só um lugar é um estado de espírito. E a minha vizinha tem sido palco de boas historias então nada mais justo de homenagear a ela.







Para ouvir depois de ler: The Gossip – Heavy Cross

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ato final: Gravidez [in]desejada



[ O amor maternal faz-nos ver que
todos os demais sentimentos são enganadores ]
- H. Balzac




Hospitais sempre tiveram um ar estéril para mim. Salas de esperas beges com enfermeiras de jaleco verde lavado e revistas duvidosas disponíveis para os que esperam. O inferno não seria muito diferente. Mas depois de alguns minutos você acaba sucumbindo e pega uma daquelas revistas para não pensar em quanto tempo ainda falta para te chamar.

Trinta e cinco minutos, duas revistas ‘Caras’ e uma receita da Ana Maria Braga depois meu nome é chamado. O médico, que havia sido indicado pelo meu pai, não era bem o que eu esperava. Dois minutos de conversa e eu já o achava um babaca machista, pois somente um escroto pode começar uma frase com “As menininhas de hoje em dia...” quando questionado sobre um possível problema na bolsa escrotal. Calça no chão e o ele faz o seu exame. Ao contrario de alguns filmes pornôs, esta é uma situação extremamente constrangedora, especialmente pela visível cara de nojo do doutor. Ele segura, mexe para cá, brinca com ele e depois lava a mão compulsivamente.

“É, cara, eu to achando que é varicocele, mas só com uma ultra-sonografia para confirmar.”, disse enquanto secava as mãos. Não sei da onde ele tirou intimidade para falar assim comigo.

“Varico... vari.. o que? Bem, eu quero saber como eu consegui isso.”

“É genético. E acontece mais ou menos na sua idade... Ainda bem que você veio cedo quando ainda estava começando...”

Eu respiro aliviado
“Que bom... mas qual o tratamento?”

“Eu preciso confirmar antes com a ultra, mas o tratamento é apenas operatório.”

“Operação? E o que acontece se eu não o fizer? Algum risco de vida?”

“Não, mas corre o risco de infertilidade.”

Convenientemente naquele mesmo andar tinha uma ultra-sonografia — com uma taxa extra, é claro. Mas eu nem me importei, pois a ultima palavra do médico ficou retumbando na minha cabeça. Infertilidade. Infértil. Do jeito que ele falou não pareceu um diagnostico e sim uma opção. E será que eu iria querer ter filhos algum dia? Mesmo sendo gay e por isso quero dizer que biologicamente eu não posso ter filhos com o meu parceiro, ate o momento procriação nunca foi algo que almejasse.

Sai para comer algo antes de enfrentar a fila no ultra-som e enquanto almoçava lembrei que um ex-namorado uma vez me disse que adoraria se seu namorado um dia chegasse para ele e lhe surpreendesse dizendo que esperava um filho dele — se fosse biologicamente possível, claro. Seria um filho do amor deles. Este é um tipo de surpresa que não temos, e juro que quando ele me contou esta historia eu dava graças a deus por não poder engravidar. Mas diante de tudo isso — de filhos de amor, de esterilidade, de almoço... — eu pensei “e se...'s" o que não foi muito difícil, pois quando voltei à sala de espera, esta estava lotada de mulheres grávidas e crianças de colo — o que tornou tudo mais perturbador.

É neste ponto que eu paro para dizer o quanto às mulheres são corajosas e abençoadas por poderem gerar vida. Naquele lugar eu via que mesmo a mais pobre e a mais rica tinha uma relação de tanto amor com o filho que é difícil pensar na quantidade de dores que ela sentiu para tê-lo. E dor é algo que nós homens não estamos acostumados. Pelo menos não como elas. Mas e se os homens pudessem ficar grávidos?

É a minha vez na sala do ultra-som. O lugar se iluminava apenas com a luz da maquina e do banheiro. O técnico me cumprimentou com a cara mais entediada no mundo, o que eu não entendia, já que ele só trabalhava dois dias na semana. Ele me perguntou o problema e pediu a receita do medico. Revirou os olhos lendo o papel e pediu para que baixasse a calça. Calça no chão novamente. Me senti até mal porque nunca um homem foi tão inexpressivo ao me ver pelado. Deita na cama de barriga para cima e besunta-se com um gel gelado. E naquela posição, vendo de soslaio formas fantasmagóricas e impossíveis de se distinguir no monitor que me senti realmente como uma mulher grávida e vou dizer que não senti conexão nenhuma com aquilo. Ainda bem, pois engravidar com vinte anos não ia me fazer bem mesmo.

Sai do exame e liguei para Edu dizendo que tinha saído do ultra-som e que o filho era dele. Ele ficou em silencio por alguns minutos tentando entender o que havia dito ate dizer que quem quer que seja que tinha ligado errado, então eu contei tudo, do médico babaca ao desejo de gravidez. Ele riu. E todo esse pensamento sobre filhos, médicos e gravidez terminou naquela noite, quando passei mal provavelmente por algo que comi no almoço e virei a noite vomitando. O episódio todo me rendeu uma semana de piadas sobre estar grávido. E embora isso tenha passado, eu não ainda não marquei a operação e não sei se vou marcar. Tenho preocupações financeiras maiores agora e isso não vai me matar.




Agora eu deixo você. Obrigado por ter me acompanhado, falado, ouvido ou pensado mas fecho a segunda temporada aqui e me dou umas boas férias. Não será muito tempo, mas o suficiente para que tenha muito mais para contar quando voltar.

Vocês ainda não se livraram de mim. Beijos, L.C.

sábado, 23 de maio de 2009

Ato II: Valores Pessoais


[ "O medo tem alguma utilidade,
mas a covardia não.
O medo é a maior das doenças,
porque paralisa o corpo e a mente.
Minha força está na solidão."

- Clarice Lispector ]







Há certas semanas que parecem anuncio do seu inferno astral. É o seu professor que passa um trabalho para o dia seguinte quando no mesmo dia você tem que chegar mais cedo e sair mais tarde do trabalho e não ganhar nada mais por isso. É ter de quebrar as expectativas dos amigos que chamam para sair a um mês e nem para um chopp você sai ou porque está muito cansado ou porque não tem dinheiro mesmo. Ou então é quando aquele cliente pede o absurdo, para um tempo impossível e quer pagar o inviável para a sobrevivência humana e acima de tudo quer que você o faça sorrindo. Não tem como não ficar no mínimo perdido entre as informações, lições de moral e picuinhas de menor importância que a todo o momento tiroteiam na cabeça. O que dói mais nisso tudo é a falta de reconhecimento alheio. É a vontade de gritar “Hey, tem sangue, suor e lagrimas saindo aqui! E a humanidade, onde fica?”. Mas aí que se pára e pensa: quando foi a ultima vez que demos valor as pessoas que te ajudaram. ... Então, pois é.

São tantos alvos. Tantos erros. Tantos acertos. Tanto que deveria ser dito e o que não devia se dizer. Tanto o fazer antes do sol se pôr ou depois que ele nascer. Tanto, tanto que a insegurança cria um mundo de pensamentos intrusivos que giram e giram e, pasme, em geral nasce de um ponto pequenininho que você achou que nem ia te fazer mal. E como havia dito no ultimo post, o meu era bem pequeno mesmo. Meio centímetro de diâmetro aproximadamente, acima do testículo esquerdo. E no meio daquele turbilhão escrito ali em cima tudo o que eu queria era jogar tudo para cima e ficar só. Muito Greta Garbo, mas sabe que sempre gostei de um drama.

Tinha ligado para o medico, mas ele só poderia me receber no final da semana seguinte o que me deixava com 9 dias inteirinhos para pensar nos mais variados diagnósticos para “isto” [foi como eu passei a chamá-lo]. A primeira coisa que se pensa é em DST. É inevitável. Será que foi naquela vez que não usei camisinha? Será que não sei me proteger? Será que passei para o meu namorado ou recebi dele? (...) Aí entram os pensamentos conseqüentes. Será que se contar para alguém ele vai pensar que sou um “gay promiscuo”? Porque essa é a imagem que as pessoas tem. Será que minha família pensaria isso? E minha mãe? E o meu namorado? (...) Então, recorre-se aos santos. O Dr. Drew naquele programa de sexo no Multishow, o Google, A Vida do Bebê do De Lamare, Discovery Channel, Health Channel, History Channel(...). E com as pesquisas eu me acalmo, pois não estava com nenhum sintoma a não ser “isto”. Havia certo desconforto, mas nada de pus, feridas, gânglios ou tosse [sempre que tem uma doença terminal nos filmes pode apostar que tem tosse]. Com isso, o fantasma da DST tinha ido, mas comecei a pensar no grande C. Tudo bem que o mais perto da medicina que cheguei era ver dr. 90210, E.R. e House, mas acho que eles me dão embasamento suficiente para suspeitar que era o Grande C. É sempre culpa dele. Comecei ate a tossir depois disso.



“E o Eduardo, como reagiu a isso?”, perguntou minha mãe depois que contei para ela, entre a vergonha e a repetição contínua que eu tinha me prevenido e não tinha chance de ser DST.
“Eu ainda não contei a ele.”
“Meu filho... Não precisa se preocupar, se você diz que se preveniu e que não tem nada demais então pode ser outra coisa, né...” Disse esticando o olho como quem diz ‘se é para contar algo então conta agora’ “Se acalme. Você já marcou o médico. Mas talvez seja bom comentar com ele, pois se ele pode ter a mesma coisa... fora que é um bom teste para vocês. Que “isto” seja uma besteira: será que o namoro de vocês resistiria a uma doença?”

Claro, como se eu não tivesse dores de cabeça suficiente. Para quem já estava com pulgas atrás da orelha, o que é mais uma, não é mesmo? Adoro quando minha mãe faz isso.

Então no dia seguinte marquei com ele na praia para conversarmos, onde definitivamente eu não iria entrar pois odeio areia, mas que gosto de me acalmar olhando o mar. Cheguei uma hora antes e fiquei a olhar o horizonte. A brisa marinha sempre me inspira. E começo a pensar em formas e maneiras de contar para ele com a clara idéia de que na hora h esses ensaios seriam inúteis e iria falar algo completamente diferente.

Ele chega ofegante pela calçada contando que conseguiu se perder no curto caminho entre General Osório e o posto 9. Estava com uma roupa meio de surfista e havaianas, completamente in no ambiente praiano e eu de camiseta e calça jeans visivelmente não pertencendo aquele lugar. Sentamos em um quiosque, pedimos algo e começamos a conversar. Ele ficou um tempo em silencio depois que contei. Bebeu um gole de água de coco, me olhou e disse “Ok, Luis. Eu tinha te notado um pouco distante, mas pensei que fosse por causa do seu trabalho. Pelo que esta falando, “isto” pode ser varias coisas, meu bem. Acho improvável que seja o... como foi que falou? O grande C? É isso... Dificilmente é câncer, mas também não deve ser DST. Sai lá, acho que você pode estar preocupado a toa. Já marcou o medico, não foi? Então relaxa e vamos curtir a praia.” A resposta carpe diem dele realmente me fez curtir mais o dia, mesmo que no dia seguinte ele tenha vindo com uma lista de possíveis diagnósticos que ele tirou dos seus livros de faculdade e da internet.

Nunca se sabe quando estamos entrando em uma prova ou quando estamos colocando os outros em teste. Achar o seu lugar de paz no meio de turbilhões e ver as coisas na perspectiva certa podem ser de grande valia quando se está sob provas, mas é preciso também muita paciência e maturidade para ver os resultados dos testes dos outros. Pode vir a resposta que não espera, a que não queria ou exatamente aquilo que faltava. A única coisa que é certa nessa vida é que nada se passa sem uma razão. Existe um mundo de possibilidades para se escolher, e nada nessa vida é irreversível. A morte, talvez, mas até ela pode ser amenizada. E apesar de não ter mais medo do que pudesse vir, sabia que se viesse o inesperado ou o que não queria eu teria alguém para segurar a minha mão. E acho que poder ter alguém assim, seja o namorado, a mãe ou a amiga e dizer para eles o quanto eles significam é dar valor à esse sentimento.



“E então, a gente vai entrar na água, né Lu?”
“Awn... não.”

“Ué, mas você me chamou para praia, disse que íamos caminhar na areia e tudo!”
“E estamos. Você ta vendo a areia do outro lado do calçadão? Então, estamos caminhando e aquela é a areia!”
¬¬



[continua]



Para ouvir depois de ler: Regina Spektor - Fidelity

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Ato I: Limites Derivados




[ Eu vim pra confundir, não pra explicar ]
Chacrinha







Previsibilidade nunca foi algo que gostasse. Sempre achei graça na diferença, no incerto, no errôneo. Fui contrário às convenções e clichês ou sempre os usei do lado avesso. Gosto de pensar que posso tocar o céu ou você, sem nunca saber o quão distante ambos realmente estão de mim. Mas a realidade, dura como pedra, é preciso enfrentar e para se alçar vôos mais altos submete-se a certas convenções. Como os famigerados ‘horários’, ‘prioridades’ ou ‘refrigerantes de baixa caloria’. Ok, não tem problema. Acorda-se cedo, toma café e entra na rotina do trabalho/curso/faculdade e a vida começa a girar na velha roda da fortuna.

Então contra as amarras da fortuna montamos os sonhos. O meu era mudar o mundo. Talvez não o mundo todo, mas pelo menos o mundo de alguém. Com uma palavra, um desenho, uma expressão que fizessem povos se enfrentar, que fizesse verdades caírem, que fizesse o silêncio mais barulhento registrado pela humanidade. Foi assim que escolhi a minha escola de vida. E me decepcionei nela. Não se estuda mais a essência das coisas, mas sim o que será pratico para ganhar dinheiro; não se fala mais de inspiração, apenas de ferramentas de trabalho; paixões passaram a ser cartazes de filmes e amores, produtos de beleza. E o horizonte vai ficando minguado, em tons de cinza mecânico. E em algum ponto as coisas se perdem. Perde a paixão, a inspiração, a beleza. Perde a vontade, o amanha e passa a ser prioridade conseguir mexer no programa de último tipo que vai salvar 10 horas de trabalho manual ou então a comprar um presente em uma data que você nem sabe qual é apenas porque as lojas têm promoções imperdíveis e você não pode perder. E são coisas miúdas, miúdinhas que acabam por fazer da vida algo mazomenos, que dá para levar. Pequenos estímulos e pequenas conquistas. Sem surpresas, porém estável e seguro. E previsível.

O cotidiano já dormia do meu lado quando tudo começou. E ao acordar tudo o que eu mais queria era ter tempo de dormir durante o banho. Saia de casa rezando para que ainda tivesse dinheiro para ir na faculdade assistir aquela aula chata-porém-importante e esperando o final de semana chegar para descansar mais, mesmo que nunca descanse realmente no final de semana. A faculdade, antes o lugar onde eu estava perto do sonho, hoje era um lugar de chateação, tédio e pessoas nocivas. E apesar de Sartre dizer que o inferno são os outros, era inegável como aquilo me afetava. Possessão talvez fosse demais, mas um Ebózinho pelo menos tinha de ter. Era como se qualquer centelha de emoção em se aprender se esvaísse no segundo em que pisava lá e tinha de encarar minha turma. E nesse caso o inferno se tornava eu.

Como a professora de Tipografia havia definido que éramos uma “turma estranha com gente esquisita”, aspas com dedos. Metade dela eram grafiteiros, com uma parte que já ganhava para comprar os mais caros livros de referência - e acreditem, livros de arte e design não são baratos - e a outra parte se contentava em rabiscar a parede e conseguir um baseado. Na outra metade da turma estavam as meninas cinéfilas, as pessoas alternativas e aqueles que dormiam no fundo da sala. E tinha eu. Pessoalmente eu prefiria as cores do art noveau, conheço pouco de filmes cult, odeio hipsters e, na medida do possível, tento assistir as aulas sem dormir. Logo, eu era o ser estranho de lá, mas quando eu não fui? E podem achar engraçado, mas quando tudo começou, éramos todos muito simpáticos uns com os outros. Simpáticos, até nos conhecermos.

Ver que pessoas que deveriam saber a diferença entre rótulos e bons conteúdos fazendo picuinhas por causa de estereótipos é a real decepção do lugar. Porque vocês sabem que o amigo é bom quando te traz algo, quando te indica. Me diga com quem andas que te direi se vais fazer sucesso. A união faz a força, mas se tiver problemas já sabemos os culpados. E uma serie de outras lições de hipocrisia moderna vistas no microverso de uma sala de aula onde o papel de gay assumido se torna extremamente difícil se não se quer cair nas graças de um personagem.

E aquele garoto que ia mudar o mundo, agora assiste a tudo de cima do muro. Separado de sua turma, entediado com sua vida e com o caminho que ela estava levando. Mas tem coisas que estão além das nossas mãos. Porque mesmo aquele que se submete a rotina está passível de uma surpresa da vida, que pode ser uma festa de aniversario, um bilhete de loteria ou perceber um nódulo no testículo durante um banho antes de dormir.


Infelizmente eu não ganhei na loteria e meu aniversario ainda não passou, mas pode se dizer que já não sou mais aquele que estava em cima do muro...



[continua]




Para ouvir depois de ler: Rita Lee – Hino dos malucos

domingo, 10 de maio de 2009

Metalinguagem

[ Say good bye to the world you thought you lived in ]
Mika






O telefone toca.
“Você ainda se lembra de mim, Luis.”, disse Henrique forçando a voz e tentando não rir, “Ah, mande um beijo para Dona Claudia por mim, ok? Agora, você não sabe o que aconteceu ontem à noite...”

Monossilábico com as respostas, eu ouvia as últimas peripécias de uma noite em que eu mais uma vez estava ausente. Ausência. Ela tem sido algo constante para mim. Ausência com meus amigos, ausência com meus pais, ausência com meu namorado.

Ausente comigo mesmo.

Estive ausente aqui também. Meus últimos textos não fazem sentido nem para mim. Pelo menos não com o que esta acontecendo. Temo que esteja ficando reclamão e amargo demais com as coisas. Mas o ”Crônicas” não nasceu para ser um blog de desabafo do seu autor. Ele é brecha entre o autor e o personagem que quer mostrar que nem todo mundo está sozinho nesta terra...

Por isso, ao invés de simplesmente jogar tudo aqui e esperar que o retorno das pessoas dessem alguma luz para os acontecimentos, decidi contar como cheguei aqui da maneira certa, com o espaço para que pare e pense o quanto isto não está distante de você. Porque no final é por isso que esta pagina existe. Abrir um espaço entre a ficção real e a realidade ficcional que aparece todos os dias, sem linhas mensuradas, ponteadas e revisadas, mas com a simples idéia de passar uma idéia.

Este deveria ser o primeiro post do blog, mas como na vida acho que há sempre tempo para se reinventar.



[continua]




Para ouvir depois de ler: Midnight Radio – Hedwig and the angry inch

sábado, 2 de maio de 2009

Um salto de fé por cima da lua






[Don't speak. I know just what you're saying.]


O objetivo da viagem era eu não ter um ‘nervous breakdown’ e abstrair os pequenos problemas. A overdose de natureza e incenso fez o seu trabalho e voltei para a cidade grande. Não estava bem, mas parecia bem. Segunda cinza, terça vazia, quarta amarga, quinta ex-plo-são. Eram dias que eu passava dobrando minhas vontades, engolindo a verdade alheia e esquecendo do que realmente importava nessa historia: Eu. E se solta os cachorros na frente da família/amigos/patrões. E é uma briga daquelas. Meia noite com gritos de culpados e dedos apontados e ameaças que não seriam cumpridas. E choro, muito choro. O soluço que subia a garganta trazia consigo toda a renuncia, sapo ou mentira que estava dentro e que tinha de sair. Foi o que estava precisando quando eu estava precisando.


[Vá atrás da sua voz, menino.]

Abro os olhos, mais leve do que no dia anterior. E cedo, feriado e estou sozinho. Não. Não estou sozinho, tenho coisas a fazer logo cedo é uma questão relativa. Voltar para o trabalho, para minha arte, para minha pintura, minha fotografia, o texto e finalmente a mim. Eduardo, que andou ocupado com trabalhos passa em casa e me acha com duas latas de tintas, uma tela e metade do chão pintado de magenta e amarelo.

‘Achei artístico.’, ele comenta e saímos depois de eu tomar banho. Não sabia que programa íamos fazer ou o que estava acontecendo de bom na cena, mas sabia que ‘estar fora de casa’ e ‘Eduardo’ eram a base de uma boa sexta a noite.

‘Hoje tem Maratona no Odeon.’
‘Hoje tem festa do dj tal na Matriz.’
‘Hoje tem aniversario daquela amiga no Sindicato do Chopp.’


Podemos simplesmente seguir o vento?



Acabamos novamente no ‘Arco Íris’, com direito a Fabio e seu novo caso de três semanas conosco. Rimos, discutimos, brincamos como uma boa noite deve ser. RENT estava no mp4.

‘…To jump over the moon
Only thing to do is
Jump over the moon


A leap of faith.’



Pessoas passam na nossa vida todo dia. Mas nem toda historia que se cruza com a sua pode te trazer algo bom. Existem os que só querem te deixar para baixo porque tem vontade. Existem os amargurados, existem os egoístas e até os psicopatas. E por mais sincero/honesto/decidido que você for, esse tipo de gente vai deixar algo com você. Uma lição do que não fazer ou simplesmente te fodem. É a vida. E quando essas coisas pequenas e grandes ficam guardadas fazem volume, fazem mal. O negócio é jogar fora e não se esquecer que existem também aqueles que se importam, que ouvem, que olham no olho. Existe a possibilidade de ser feliz a apenas um salto de distância. Um salto. Um salto de fé por cima da lua.





Para ouvir depois de ler: Paolo Nutini – These streets

domingo, 26 de abril de 2009

Fugere urben

"Porque protegê-las,
porque ter saudades,
porque amá-las?"

InuYasha








‘Oi, boa noite.’

‘Boa noite.’

‘Foram vocês que chegaram hoje?’

‘Ah, sim . Vamos passar a semana aqui pelos feriados, sabe.’

‘Que legal... É a primeira vez de vocês aqui em Visconde de Mauá?’

‘Não, não... Na verdade nós já viemos algumas vezes, mas a última vez faz sete anos, então tudo está bem diferente para a nós...’

‘Entendo... Eu e minha família estamos aqui pelo menos três vezes ao ano. Eu adoro a serra e a natureza. E os chalés daqui são ótimos, não?’

‘É, claro... Bem, já que conhece o local, o que poderia indicar para nós?’

‘São só vocês dois?’

‘Oh, não, não. Além de mim e do meu marido tem meus dois filhos, Luis Carlos e Luis Augusto... Depois de certa idade é difícil fazer os filhos ficarem junto com você, mas em viagens sempre fazemos programas juntos.’

‘Eu que sei. Tenho uma filha de 17 que já não viaja mais com a gente. Arranjou um namoradinho e preferiu passar o feriado com ele. Olha, um lugar que acho muito bonito aqui é a Cachoeira da Saudade. É uma propriedade particular logo após do Acantilado que é deslumbrante. Acho que vão gostar. Alias, qual o seu nome?’

‘Ah, desculpe. Nem me apresentei. Meu nome é Claudia.’





Visconde de Mauá era o refugio hippie onde os meus pais faziam planos de morar quando eu e meu irmão saíssemos de casa e estivéssemos por conta própria. Eu estava tendo uma semana ruim ate que a viagem apareceu como uma chance de não ter um ataque de nervos. Eu tinha pressões no trabalho da livraria, problemas de greve de professores na faculdade e a velha falta de dinheiro que batia a minha porta mais uma vez.Precisava sair para colocar a cabeça no lugar.

O carro balançava violentamente por causa do chão de pedras e buracos, mas eu estava em outro lugar com o meu mp3 tocando. A paisagem verde passava com suas vacas e cavalos e brejos e de vez em quando eu parava para tirar uma foto e esticar as pernas. Meus pais haviam pego uma informação com um vizinho do hotel sobre um lugar onde, segundo este, o lugar era ‘uma linda cachoeira com um bar do lado’. Babaca. Mas pelo menos era um programa melhor do que ficar no quarto vendo televisão ou procurando uma lan house em uma cidade do interior.

Chegamos ao tal Acantilado há 6 km do local onde nos hospedávamos e pedimos informações. A Saudade ficava a 8 km da onde estávamos. Mas para mim estava a mais. A saudade estava com Edu. Tentei ligar para ele, mas estava sem serviço. Como ele estaria sozinho no Rio? O que estava fazendo?

‘Luis, vamos.’, grita minha mãe. ‘Você parece distante, o que acontece?’

‘Nada... Acho que ainda não entrei no clima da viagem...’

‘Meu filho, a gente só entra no clima no último dia, quando temos de voltar... Mas tenta aproveitar esses dias de Cinderela que quando voltarmos é de volta a ser abóbora, trabalhando e pagando contas...’
, um solavanco a interrompe. O primeiro de muitos. O chão acidentado era um convite a toda a sorte de problemas no carro.

Depois da primeira porteira da propriedade, meu pai começa a ouvir um barulho estranho no carro e o estaciona em um descampado para ver se tem algum problema.

‘O chão está muito esburacado, deixe o carro aqui e vamos andando. Não deve ser muito longe.’
Trinta minutos depois.

‘Já sei por que chamam esse lugar de Saudade.... Esta joça é tão longe que sentimos saudade de casa, da civilização... Ah, a civilização, o trânsito, o gás carbônico!’ ‘Realmente é impossível ser feliz na natureza.’

Chegamos a segunda porteira. Meu pai e meu irmão já estão cansados e decidem ficar perto do rio enquanto eu e minha mãe seguimos. Foi a melhor coisa que eles poderiam ter feito.

Passamos por casas abandonadas, mais vacas, mais cavalos e mais cachorros e para melhorar ainda estava frio. Eu e minha mãe pouco falávamos. Estávamos mais preocupados em não pisar em merda ou pedras pontiagudas e quando falávamos era para amaldiçoar o maldito que deu a idéia de irmos lá.




Uma hora e vinte e cinco desde que deixamos o carro.

A última porteira. Ao longe uma ponte com a primeira cachoeira apontava. Nossos chinelos já estavam nas mãos. O bar ,que era depois de uma insalubre escadaria, era feito de tocos de madeira no lugar de mesas e cadeiras. Uma decepção só pior do que a atendente muda, que nem era solidária com a nossa dor.Sentamos e pedimos algo para beber. Mas decidimos não pagar 4 reais para ter de subir as cachoeiras.

‘Estou com saudade do Edu. Sei lá, fico pensando no que ele ta fazendo nessa semana e fico distante de tudo.’, desabafei entre um gatorade e uma skol.

‘Luis... Sabe, antes da viagem eu estava falando com o Alex, meu amigo, e ele me contou que estava meio que obrigado a morar com o ex-namorado porque não tinha dinheiro para um lugar só dele. Ele tem 35 anos e tem de se submeter a uma situação incômoda para ficar no Rio ou voltar para casa dos pais no interior... Ele quando ele me disse que se arrependia de ter namorado durante a faculdade de arquitetura e não prestado atenção na profissão, eu lembrei de você. Você é muito inconseqüente com o seu dinheiro e sinceramente acho que você já não ganha mais nada estando naquela livraria. Você trabalha muito, ganha pouco e deixa o seu sonho de designer em segundo plano. Eu raramente te vejo tão empolgado com um projeto ou com algo que te dê dinheiro, só com festas, roupas e namoro. É uma questão de priorizar. Agora, eu sei que você esta sentindo falta do Edu, mas não seria o momento de parar e pensar qual o rumo da sua vida?’




Ela é a rainha de fazer isso. Colocar o dedo na ferida quando menos se espera. Voltamos conversando ainda sobre isso. E mesmo achando que ela faz um pouco de pressão para que eu caminhe eu não posso negar que é sempre para frente que ela me empurra. Mas parando para pensar eu estava confuso e sem prioridades. Trabalho para pagar meu celular, minhas saídas e bebidas e o resto das contas jogo no colo dela. E meu ultimo plano era pensar o que eu tinha de cortar para passar um final de semana em São Paulo com o meu namorado. E embora ainda soe como um plano bom, o presente não é o que eu deveria ter como meta. E daqui a dez anos o que seria? Eu teria de me submeter ao meu namorado/marido para poder fazer o que eu gosto ou quero ou então voltar para a casa da mamãe? Não era este o futuro que eu queria para mim. Embora tivesse saudade e bem querer, para que tudo fosse para frente era necessário que os dois andassem com as próprias pernas. Se o meu futuro é com o Edu é algo questionável, mas que este futuro não deve depender de ninguém isso é um fato.

A noite, já deitado eu recebo uma mensagem dele: ‘Miss u, sweetie. Luvya...’

E com o ponto pulsante da pagina de resposta eu vi que tinha de abrir meu espaço, respirar. As duvidas finalmente saiam de mim, mas pousavam em outro canto. Mas prefiro deixar as duvidas para quando houverem problemas.








Para ouvir depois de ler: Jordin Sparks – One step at a time