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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Season Finale: Cena do crime





I wish I could love you more. I should have loved you best.



Resoluções de fim ano e o que você tem? Existe o cara certo? Não, não existe. Existe o cara errado? Claro, mas quem se importa. Existe o final feliz? Cara, só termine o ano para que tudo possa começar novamente. Acho que não preciso mencionar 2011, ele já está bem claro. Não foi um ano ruim, não. Tiveram coisas boas. Coisas que não consigo lembrar mais tiveram.

Estou em uma editora nova, fotografando, quase me sentindo Peter Parker. A ultima pauta do ano era uma foto meio tapa buraco porque alguma global estava muito ocupada para ser entrevistada. Típico. Meu editor me liga esbaforido perguntando se sabia onde encontrar duas bandas novas para poder entrevistar. Uma abordagem musical, ele diz. Na hora me vem o estalo, Rodrigo. Ele era produtor de banda, deveria conhecer melhor a cena. Ele atende a ligação e concorda em me ajudar se me encontrasse na casa dele. Odeio quando profissional e pessoal se misturam, mas Papai Noel precisava daquela grana.

Só para que saiba, estou trabalhando em São Paulo agora. Então coloque junto nessa equação a vontade insana de terminar tudo e voltar para minha terra carioca. O apartamento dele era no centro da cidade,  lindo o lugar, mas não era da decoração que eu tinha receio. Era de entrar no turbilhão de lembranças que só acontece quando se volta ao local do crime. Tudo estava meio igual, mas ao mesmo tempo estava fora do lugar. Ele abriu a porta usando calça jeans e um cordão e bebendo um uísque. Praticamente um rockstar. Senta onde quiser, sobre o que quer conversar? Faz tempo que não nos falamos. Eu o analisava meticulosamente sem me preocupar com o que respondia. Esperava um bote ou alguma forma ilicita de pagamento pela informação.

“hey... Thiago.... E onde você está?”

"Estou aqui, por que ta me perguntando isso?”

“Faz anos que não nos falamos e nem nos encontramos e você está divagando na minha sala de estar. Não sei se tudo é uma surpresa ou se estou vendo tudo acontecendo de novo.” Devia saber que ter caso com gente de musica era problema. Especialmente quando se estava namorando outro cara. Agora tinha de agüentar isso. Ele se ri e pergunta se quero um drink. Antes que responda, tenho um Martini na minha mão.

“E como vai o doutorzinho?”

“Espero que realmente seja uma brincadeira essa sua pergunta.”

“Sim, eu vi que você e o Edu se seoparam. Não por minha causa, espero. Diga, ainda se falam?”

“Não, e se quer saber nem mencionamos o nome um do outro.”

“Que dureza. Mas se você voltou a falar comigo, porque não com ele?”

“Você quer a verdade?” Ele sorriu meio de deboche, assentindo. “ Já nem sei mais. Às vezes me esqueço que ele existiu, mas às vezes me bate uma besteira. Mais quando tudo está na merda. Como se ainda lembrasse da voz dele me acalmando. Ele me trazia paz. Agora é só lembrar dele que percebo que aquele estudante de medicina que ia me visitar entre as aulas não existe mais. Aquele cara não existe mais. Hoje ele é um feliz doutor, com seu marido novo e seus amigos novos. E eu... Vou me achando. Sou um outro homem também. Mas é assustador de pensar o quanto já estamos distantes. Somos praticamente estranhos.”

“Que bonito, você ainda o ama”, disse sem perder o tom do outro lado da sala.

“Não, não amo. Mas amei. E como todas as coisas do passado, fica aquele medo de que nunca mais volte a amar.”

Silencio.

Já esqueci para que vim aqui. Pego minhas coisas e me preparo para sair.

“Eu podia ter te amado”, ele quebra a pausa com essa. Por mais sincero que fosse não sabia o que ele esperava que eu respondesse. E de repente não é mais preciso. Ele me puxa pelo cós da calça e me beija com a fúria de quem mata uma sede. Sede dele, sede minha. Engolimos o desejo um ao outro e paramos cansados sem nos distanciar. Ele puxa um papel de dentro de uma agenda e coloca no meu bolso.

“Vai...”

Eu devia ter ficado, mas não. Sai do prédio com a impressão de que o passado só serve para nos lembrar das coisas que deixamos para trás. Verdade ou não, Amor ou não, apenas uma coisa que em tudo isso era certa: não foi por falta de amor que as coisas ficaram do jeito que estão. Foi por não saber amar.


Ano de merda

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ele e o outro






Ele não tinha o que fazer então foi lavar louça. Era terapêutico. Seus pensamentos fluíam melhor com sabão. E precisavam fluir. Estava deprimido. O outro não ligava, parecia não se importar e ele estava se sentindo mais só do que nunca. Então lavava.

Toca o telefone da sala. É um trabalho no centro da cidade. Não queria sair, não queria ter coragem de sair, mas saiu. Trabalhos não costumam se oferecer tão facilmente. Para sua surpresa foi algo bom, animador. do tipo oportunidade unica. Animou-se tanto que queria ligar para o outro e contar como foi divertido e compensador[...], mas o outro não o atendia mais. Deprimiu novamente. Sentia falta da rotina dos dois, da vida a dois, de ser dois. Mas ele era um.

Ligou para seu primo que estava na cidade. Um jantar? Pode ser aqui perto? Ótimo. Não haviam muitos com quem conversar, mas pelo menos era uma companhia o fim da noite. Quisera quer as perguntas não fossem as de sempre. O trabalho? Vai indo. Os estudos? Já nem sei. Projetos novos? Deixa para o ano que vem. Namorados? Não quero nem saber. E o outro? O outro? Você não sabe do outro? Era o momento que ele esperava. Juntou os cacos de dor e depressão na melhor narração que pudesse contar. Contou aguras, neuras, loucuras. E se viu, ridículo, mostrando o pior de si. O outro foi traído. sem querer, sem maldade, mas traído. E ele o que sofrera? Algumas ligações não respondidas, algumas mensagens nunca lidas? Eu não responderia nem falaria de novo com ele. Mas você tentou reatar? - perguntou o primo.
Sim, disse ele negando tudo na sua mente.

Ele que foi o traidor, ele que foi o chato que liga. E traição merece perdão? Talvez, mas não tem como consertar. Não volta a ser do jeito que era. E o resto, a vida separa. Eles já não frequentavam os mesmos lugares, não gostavam das mesmas coisas e viviam momentos diferentes. E ele ainda estragou tudo. O outro que está certo em não escrever ou querer ouvir a sua voz. Está certo em conhecer novas pessoas e fazer novos amigos. Ele que não deveria estar aguardando uma revelação divina ou um ato de amor desesperado para que sua vida continue. Não. Deixe passar, cicatrizar.

E no fim da noite, quando o bar estava fechando a dama de dourado sentou-se ao seu lado e vendo o que via perguntou com um sussurro se estava ali por já ter amado. Acho que fui amado, mas já não sei se amei. Será que um dia saberei?


Para ouvir depois de ler: Nina Simone - Wild is the Wind

domingo, 13 de novembro de 2011

Someone like you




Você que está certo em não sentir falta de mim. Que idiota que eu sou, por pensar em você em cada noite chuvosa, cada vento frio que passa pela minha janela dizendo o seu nome. Desculpe-me por achar que podíamos ser mais do que fomos, de achar que fomos mais do que poderíamos ser e de ainda pensar que te ver provavelmente quebraria qualquer argumento lógico que te afastaria de mim, porque nada mais nos aproxima a não ser a loucura de querer ficar junto.
Sei que tem outro. Sei que pode estar feliz de novo. Mas também que eu não fui qualquer um, assim como pra mim você não o foi, e talvez um dia talvez por um momento você olhando para mim pudesse lembrar do tanto que nos amamos e quisesse tentar de novo. Não éramos o casal mais certo, mas não tinha nada de errado com a nossa felicidade.
Acho que o fim de ano só fez me ter saudade do nosso ultimo ano e do quanto queria ter isso de novo. Mas com a distancia que você põe entre nós acho que só vou ser feliz quando achar alguém para me fazer esquecer de você.

Para ouvir depois de ler: Katy Perry - The One That Got Away

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Quebre a cara ou parta um coração



Gabriel sentado na ponta da cama, acende um cigarro e suspira. A fumaça invade o quarto assim como o sol pelas cortinas. Ele se inclina perto do meu ouvido e diz que não vai me deixar dormir. Quem disse que eu queria dormir?
Eram momentos como este que sentia falta. O sentimento atemporal de estar com alguém, vivendo de cerveja, suor e cigarros. Era como uma pequena revolução contra a cidade, uma rebeldia contra o mundo: ali éramos livres para sermos e fazermos o que quisermos.  O mundo lá fora é cruel demais, mas dentro daquelas quatro paredes o tempo era nosso.

“É a nossa terceira semana, sabia?”, disse Gabriel.

“E quem está contando?”, resmunguei.

“Eu estou. Alias, acho que já é hora de levantarmos.”

Pois é, nada dura para sempre. Tomamos banho e fomos arranjar algum lugar para tomar café. Gabriel era um cara interessante, mas a verdade era que ele era  uma válvula de escape de tudo. É horrivel usar uma pessoa para fugir dos seus problemas? Bem, para mim não era um problema ate porque ele me usava também. Mas meu coração estava ali. Nem minha cabeça. Estava a duas semanas sem trabalho e fugindo de ficar em casa. Pelo menos ali estava ilhado nas frivolidades de começo de relacionamento. Ate ele fazer a minha ficha cair.

 “...Alias, vamos jantar com a minha mãe mais tarde.”

“Acho que tem uma gimba de cigarro no meu ouvido. Achei que tivesse falado que ia conhecer a sua mãe hoje.”

“hahaha! Você é tão esquisito! É claro que nós vamos.”

“Você está louco. Não estamos nem namorando direito!”

“Ah, mas você já esta dormindo na minha casa, não acho nada demais... Vou pegar um café, quer?” e saiu sem ouvir a resposta. Em outros momentos eu piraria. Se fosse outra pessoa eu estaria louco. Mas estava absorvido demais nos meus próprios problemas para pensar nele. Ou na mãe dele. Saí sem comer, deixando um recado de que o encontraria mais tarde. Precisava andar. Andei quase que do Jardim Botânico a Copacabana para finalmente me jogar na areia. Estava perdido. Não fisicamente, mas precisava de um rumo na vida. Não via nenhuma possibilidade de futuro próximo, nem de como sairia da merda que estava. E tinha o Gabriel. Talvez por isso e pela insensibilidade dele para certos assuntos eu simplesmente não achava que ele era o cara. Não tinha futuro, mas eu estava vivendo. Uma merda de purgatório. Ligo para o Luis e descubro que ele não está muito longe. Acho engraçado isso. Hoje em dia alguns amigos ainda me ligam e aparecem de surpresa na minha casa, mas tenho a impressão que cada vez mais na vida real virtual que temos, as pessoas não fazem mais isso. Elas cutucam. Chamar atenção sem dizer nada é quase como gritar hoje em dia. Somos hiperbólicos em nossas reações, mas não sabemos descrever o que sentimos. Eu ainda tentava cultivar isso. Não só de falar, mas de ouvir e tentar entender os problemas dos meus amigos. Ninguém mais fala, só quando encontram alguém para ouvir. Ao mesmo tempo, ninguém quer ouvir só ter um monólogo.

Encontro Luis no bar e falamos sobre tudo. Tava mais triste pela falta de trabalho e de dinheiro que pelo cara que queria me mostrar para a mãe mas não fazia a minima do que rolava comigo.

 “Tem homens que servem para casar outros para cruzar. Ele é o segundo tipo, com certeza.”, disse o barman colocando toda sua convicção no copo. Era isso? Achar o cara para casar era como procurar um bilhete de loteria? Isso era idiota.

O barman era idiota.

Principalmente Gabriel era um idiota.


Ouça depois de ler*: Skunk Anansie - Secretly

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Cidade do Pecado



Era abrir os olhos e a noite girava no que restava da minha cabeça. A ressaca com o cheiro de cigarro trazia para o domingo um sentimento estranhamente familiar. Gabriel dormia do meu lado e ao que tudo indicava tinha ido para a casa dele. A primeira noite de volta na velha cidade e eu voltava para os meus velhos vícios. Pelo menos estávamos com a maioria de nossas roupas, o que indicava que estávamos muito bêbados para qualquer coisa.

Passo atrás de passo, tateio os corredores atrás de um banheiro. Não é preciso muito para achar a porta certa. O lugar é gigante. Acho que o meu quarto caberia aqui dentro. Me jogo na privada e acendo um cigarro que estava em cima da pia. Nunca realmente se pára de fumar, eu penso. A cada tragada tento reconstituir a noite anterior. Gabriel. Ele tinha namorado, mas topou sair comigo. Algo sobre ter gostado das minhas fotos. Cinema e bar, que deveriam terminar sociáveis terminaram em alguma festa de um amigo de um amigo e eu o pegando em algum corredor escuro.

Um banho frio, é isso que eu preciso para botar tudo de volta no lugar. A banheira estava cheia de sapatos então tinha que ser no chuveiro mesmo. Ainda bem, porque se deitasse na água provavelmente não voltaria. E enquanto escorriam minhas lembranças, eu organizava mentalmente minhas lembranças o que invariavelmente terminava comigo querendo sair correndo de onde estava. Mas neste caso eu estava em paz. Em paz, ate meu estomago dar sinais de estar vivo ou o meu fígado implorar por misericórdia, mas depois de um tempo se acalmou junto com a estranha consciência de que eu era apenas mais um menino perdido. Perdido e molhado.

Parei um minuto enquanto me secava para ouvir a casa. Nem um som. Não tinha idéia se era muito cedo ou muito tarde, mas definitivamente não estava fazendo cerimônias. Foi quando um pensamento me cruzou. Porque estava ali? Se fosse alguns anos atrás acharia um escândalo, até vergonhoso acordar na mesma cama que alguém que conheci há poucos dias ainda mais sendo ele comprometido, mas não sentia nada. Isso, de certa forma, me chocava, pois deveria sentir algo. Mas estava cansado de tudo. Ele foi simpático comigo, isso bastou.

Quando abriu seus grandes olhos azuis, eu estava na porta olhando ele na cama. Ele levou alguns minutos percebendo o que aconteceu ate que eu dissesse:

“Bom dia, estranho.”

Não custa nada tentar recomeçar.


[...] Obrigado a todos que enviaram seu amor, mas estamos de volta ao Rio. 


Ouça depois de ler*: Lana Del Rey – Blue Jeans

[ * Obrigado pelo comentário, André ]

domingo, 4 de setembro de 2011

Como esquecer seu EX




É nesse clima de sorvete na frente da TV, lagrimas e óculos escuros que eu, Luis, e Marc resolvemos interferir pela primeira vez no Crônicas e não escrever uma crônica e sim um serviço de utilidade pública inspirados no texto do Thiago. Depois de uma longa pesquisa por bares e noitadas, aqui estão em 6 passos como esquecer o seu ex:


1º passo
 Puxe o fio

O relacionamento morreu, mas você ainda ta ligado. O primeiro passo é preventivo: corte a comunicação com ele. Que pode variar desde apagar o telefone dele da agenda para não ligar quando estiver bêbado (culpados) ate fazer uma fogueira com as fotos e um boneco de vodu dele. A idéia é a mesma de todo o vicio: admita que ele não esteja afim de você e tire ele da sua vida. Quem vai estar perdendo é ele e você tem de seguir em frente. Um erro comum é achar que podem voltar como amigos, o que pode acontecer em um futuro distante quando ele for casado, careca e/ou com 20 filhos, mas se você ainda tem sentimentos por ele nem tenta. As mídias sociais são outra armadilha. É praticamente impossível resistir a espiadinha quase masoquista de ver como ele está, mas se esta querendo esquecê-lo exclua e bloqueie sem dó. Quando terminar essa parte, pegue seu telefone, ligue para as amigue e passe para o próximo passo.


2º passo
A tríade da mudança

As comédias românticas americanas revolvem muito em cima desse milenar ritual. 8 entre 10 pessoas passam pela tríade da mudança como primeiro passo para esquecer alguém e os 2 que sobraram fazem pelo menos um deles sem perceber. Ela parte do principio que para mudar a vida é preciso querer mudar e nada melhor para dar o primeiro passo do que mudando você primeiro. Um corte de cabelo novo , uma roupa diferente e você é outra pessoa. Não tenha medo e faça ou use aquilo que nunca pensou que fosse usar. Depois saia com amigues e encha a cara em uma festa. Aproveite o som alto para gritar com seus fantasmas. Se a noite não te atrai a opção é a famosa cena de Bridget Jones em que com um pote de sorvete você canta/grita “All by myself” com seu pote de sorvete (Se ainda não viu este clássico, sente o naipe no video abaixo). Por ultimo, é a fase Greta Garbo em que decide ficar só. É o momento de ser realista e pensar o que ganhou, o que não deu certo e deixar o relacionamento onde ele deve ficar: no passado.



3º passo
Transforme raiva em combustível

Um dos efeitos colaterais dos dois primeiros passos é inevitavelmente lembrar do maldito com o atual ou do traíra te traindo ou simplesmente pensar no calhorda. Lembranças voltam como refluxo e você vai se ver roxo de raiva. Este é o momento perfeito para descontar tudo na pilha de trabalho atrasado. Seu chefe vai adorar sua eficiência e pode te dar um aumento. Fique rico com a raiva dele. Se não for trabalhada, a raiva vira ciúme, e ciume por algo que não é mais seu é cavar o seu próprio buraco no ciclo vicioso. Outra válvula de escape ótima são exercícios físicos. Pedale como se não houvesse amanha e começará o verão bem. Assim poderá colocar em pratica a próxima etapa.


4º passo
Matemática emocional: Três caras bons são igual a menos um ruim.

 Esta é uma dica meio delicada porque é muito fácil ir para uma festa executá-la de modo errado e voltar para a estaca um. Mas partindo do principio que encontre três caras interessantes, não ao mesmo tempo e não necessariamente em uma festa, você vai esquecer o falecido rapidamente. A idéia aqui é a substituição de lembranças junto com a diminuição de eventuais carências que a separação traz. O funcionamento é simples e de modo progressivo: por exemplo, você acabou de passar da fase de raiva e da fase de não querer ver nenhum homem pintado na sua frente, então começa a sair com o carinha da sua faculdade, que é uma graça mesmo sendo um pouco mais novo que você. No começo é normal as lembranças do dito-cujo voltarem porque o defunto ainda não esfriou. Mas conforme passa do solteiro numero 1 para o solteiro numero 2 elas começam a ficar vagas e no terceiro definitivamente elas já serão historia.


5º passo
Escreva mas não envie 

Esta deveria ser a primeira das dicas mas esta aqui porque durante todo o processo deve ser feita. Cada pessoa se expressa de um jeito – escrevendo, ilustrando, dançando,... – então durante cada etapa no processo de esquecer alguém você tem de jogar fora toda a angustia, mágoa, medo e tudo o que queria ter dito. Se você trabalha com arte ou tem alguma delas como hobby este é o momento de catarse emocional a ser usado. O mais importante é: guarde para você. O desenho ficou bonito? Ele tem esse significado para você. O texto descreveu tudo o que sente? Ele tem esse significado para você. Se pretende mostrar para os outros, camufle as feridas, travista as verdades e deixe tudo com o ar de ficção realista. Se não o fizer, terá uma porta para criticas em lugares que não vai querer ser criticado.


6º passo
Ria de si mesmo, mas principalmente ria dele

Depois de cortar a comunicação, se recompor e se reinventar, ganhar uma compensação, um bofe e um hobby novo as coisas começam a ficar mais claras. É quase certo que no começo achasse que tinha perdido o cara da sua vida, mas quando olha direito vê que ele não gostava do que você ouvia, falava mal dos seus amigos, tinha hábitos estranhos, etc. O que queremos dizer é que de longe sempre vemos o príncipe no lugar do sapo, mas só quando quebramos o feitiço que nos envolvia é que podemos avaliar realmente por que não deu certo. O ponto alto do processo é a pergunta “o que eu estava pensando quando estava com ele?”. Lembre-se das coisas ruins que aconteciam, mas não deu atenção, dos incômodos e dos problemas que com certeza tinham. Vista o pretinho básico e enterre de vez esse defunto.


Agora, verdade seja dita. Nada é certo nessa vida, nem mesmo esses cinco passos. Existem defuntos que descansam eternamente em paz e aqueles que insistem em sair do tumulo. Não podemos garantir que vai esquecê-lo mesmo se fizer tudo direitinho. A única coisa que é garantida é que a vida continua e se você continuar junto com ela com certeza vai sobreviver a um coração partido.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Saida pelo portão 64

Esta é a continuação de "Certezas e Possibilidades"




“I know I've been a real bad girl (I'll try to change)
I didn't mean for you to get hurt
So ever, we can make it better
Tell me boy now wouldn't that be sweet?”
The Sweet Escape
Gwen Stefani



O sol invadia o quarto pela cortina da janela. Era um outro dia, uma outra cidade. No chão garrafas e roupas, na cama apenas lençóis. A claridade faz os olhos se abrirem para um quarto de hotel vazio. Entre o acordar e o entender o que tinha acontecido, me arrasto ao banheiro e lavo o rosto.

No espelho do banheiro estava escrito com creme de barbear
“tinha esquecido que você ronca, mas te amo mesmo assim. Sai para comprar comida, já volto. Beijos, Edu.”

E um post-it em baixo dizendo “Não sabe como é difícil escrever com creme de barbear...”

Só rindo. Entro no banho para ver se o resto do corpo acorda quando ouço a porta bater.
Eduardo coloca o rosto entre a porta e sorri, como criança.

“Não vai acreditar no mercado que tem aqui perto...” diz, mostrando as sacolas de compras.

“Se você contar eu acredito. To morrendo de fome...” respondo o beijando e procurando uma roupa.

Ele tira as compras e coloca em cima de uma mesa. O sorriso se apaga e ele sussura “Temos muito que conversar,Thi...”

“Temos, mas podemos fazer isso depois de comer, não?”

Ele ainda parece perturbado então o abraço por trás e digo que “Ainda não acredito que está aqui.”

“Nem eu. Só de pensar que matei o trabalho e o Junior e o que os meus amigos vão dizer e...”

“shii.... Por favor, não vamos fazer isso agora. Deixe os problemas do Rio para o Rio, hoje somos só nós...”

“Você está certo... que horas é a sua entrevista?”

“Depois do almoço, temos bastante tempo... Não sabe como senti falta dos seus braços...”

Eu o levava para a cama e entre os braços dele voltava a dormir, não me importando com o tempo lá fora ou o que o relógio dizia, pois tudo o que queria estava ali.

[...]

Eduardo não apareceu. Na verdade ele nem se importou em ligar ou qualquer coisa, simplesmente seguiu a vida dele. E eu as portas do portão 64 ia seguir a minha.

Eu tinha duas teorias sobre a sua não ida. Ou ele era incrivelmente sádico e quis me torturar por ter terminado com ele a primeira vez ou ele era incrivelmente tapado e não entendia o que estava fazendo comigo. Em ambos os casos, ele não era o tipo de cara que ia querer ao meu lado. E acho que significava que ele também não me queria.

Mesmo com a cena do que eu gostaria que tivesse acontecido rodando na minha mente, eu não me arrependi de nada. Em um mundo ideal o que desejamos acontece exatamente quando queremos e exatamente do jeito que imaginamos. Mas na vida real alguns desejos podem ate se realizar, mas eles nem sempre são do jeito que imaginamos. Eduardo não tinha nada em comum comigo e nos demos muito bem, melhor do que já estive com qualquer um. Mas hoje não mais. Acho que a moral desta historia é que é melhor amar e perder do que nunca ter amado ou qualquer outra merda do gênero.

Claro que dói. Mas ninguém precisa saber disso além de mim.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Certezas e Possibilidades




“All this time you was pretending,
So much for my happy ending”
Avril Lavigne’s Happy ending


Era apenas uma sala de espera. A contagem do relógio era acompanhada na televisão junto com a lista de embarques e desembarques. Com as passagens em uma mão e a mala fechada na outra, a minha atenção se dividia entre olhar o numero do meu vôo subir na lista e a ansiedade de que a qualquer momento alguém fosse entrar. Que ele fosse entrar. E enquanto a minha ansiedade com relação a tudo aumentava, só conseguia pensar que este era um daqueles momentos em que tudo podia acontecer, mas em geral nada acontecia.

Minha viagem era a trabalho. Tudo começou com um e-mail. Alguém viu uma foto que havia tirado em um evento e me chamava para cobrir outros em São Paulo. Hotel, transporte e alimentação alem do salário. Sou fotografo freelance, o que significa que entre um trabalho e outro é ou um marasmo ou correria para o próximo. Tinha um pouco de receio de São Paulo, a cidade que tudo acontece, mais pela certeza de que este trabalho podia se tornar um fixo e eu me mudar. No Rio tenho a faculdade, a família e os amigos. Lá teria de recomeçar tudo, não tem como não ter medo. O prazo para confirmar era ate segunda e estava na sexta.

O telefone toca e eu não acredito em quem é.

“Thi? É o Edu. Estou na faculdade e queria te ver. Você pode vir? To aqui em baixo já.”

“Eu ainda to em casa. Vou demorar um pouco, você me espera?”

“Claro”

Esperou 40 minutos. Ele não perguntou quanto ia demorar, apenas esperou. E esperou sorrindo. Sentamos no bar perto e conversamos sobre vida e projetos e contei para ele da viagem. Não sei definir a opinião dele quando perguntei o que achava, apenas achei ótimo estar ali de novo com ele fazendo planos. Ele pareceu bem curioso sobre como eu ia, os preços e tudo mais. Ficamos algumas horas conversando ate ele se despedir de mim para ir ao banco com um beijo. Na bochecha. Assim que ele subiu no ônibus, recebo uma mensagem dele dizendo que “queria ter ficado mais e ainda mexia com ele”. Nem consegui ir a aula.

Foram quatro meses juntos, dois separados trocando mensagens e a pouco mais de um mês ele estava com esse garoto novo. Não sei o que me levou a terminar e querer de volta. A única certeza que tinha era que com ele eu poderia construir uma vida. Costumávamos fazer exatamente o que fizemos naquela tarde, sentar e pensar no que faríamos e como faríamos. Agora pensando acho que é isso que sinto falta, o Edu companheiro.

A noite tinha uma festa de despedida de um amigo que ia fazer intercambio. Ele separou a casa e encheu a piscina de gelo e cerveja. Lá pelas tantas da madrugada, já devidamente alcoolizado resolvo brincar com o perigo. Sim, o famoso drink and dial. Liguei para o Edu, que estava em uma outra festa não muito longe dali. Rimos bêbados e provocamos um ao outro e ele terminou dizendo que iria fazer de tudo para ir para São Paulo comigo. Minha cabeça girou nessa hora e tudo que podia falar era que queria vê-lo no dia seguinte para combinarmos melhor. Fui dormir embriagado por uma vodka russa e pela possibilidade de terminar tudo bem. Com o cara e o emprego o que mais eu poderia querer?

No dia seguinte, ele sumiu. Não ligou nem atendeu o telefone. Tinha minha ressaca para curar e ele provavelmente a dele, mas nada era pior do que a impressão de que tudo aquilo ontem – a conversa na faculdade, o telefonema e a promessa – não significasse para ele metade do que significou pra mim. E na minha cabeça passou de tudo. Talvez poderia ter acontecido algo com ele que o impediu, talvez ele quisesse me torturar. Só sei que aquele dia passou da esperança a raiva em longas horas. Apenas no domingo consegui contato com ele, por MSN [que não uso mais, alias] e pude perguntar o que tinha acontecido. Nada, ele disse. E a sexta de madrugada também fora nada?

“Foi o álcool, ne.”

...

Já se sentiu estúpido, como se sua inteligência tivesse te pregado uma peça e em alguns segundos revisitasse as ultimas horas, dias e meses a procura do instante em que pressupôs o que te levou praquela armadilha? Foi o álcool que disse que me amava e que ia viajar comigo. E o pior é que o jogo todo estava virado para ele. Edu tinha namorado e um bom emprego e tudo o que eu tinha eram possibilidades e projeções. Nenhum fato nos unia e lentamente senti algo se quebrando. Era a projeção de nós dois, era o sentimento de nostalgia distorcida, era a confiança mutua, que seja. Apenas não queria estar mais ali. Finalmente fiz o que devia ter feito a muito tempo: me desliguei. Ao mesmo tempo que apagava suas fotos, perfis e contatos, confirmava que ia aceitar o trabalho em São Paulo e comprava as passagens. Fora com o velho e abria as novas possibilidades. Foi aí que entendi que o quanto o ato de escolher nos faz adulto. Temos a certeza que crescemos quando não deixamos outros escolherem por nós e principalmente por aceitar as conseqüências do que escolhemos. Talvez São Paulo não dê certo ou dê e eu nunca mais volte. Talvez Eduardo não estivesse feliz com o namorado e o emprego e quisesse voltar ou talvez isso nunca passou pela cabeça dele. Acho que simplesmente eu nunca fui o tipo de cara que espera por alguém ou que gosta de ficar em segundo lugar. Deveria tentar lutar por ele? Talvez, mas estava cansado demais para isso. Certeza mesmo era que o segundo sinal para o meu embarque me chama e agora não tem volta.


[continua]

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Onde liga?



“I just want to be young and silly”
Georgia "George" Lass, Dead like me.




Tudo começa em uma sexta-feira.
Não somos Katy Beth Terry, mas eu, Luis e Marc temos nosso próprio ritual de procurar um bar para desabafar, conversar ou simplesmente falar besteira. O bar que temos ido muito é o Sociedade Secreta na Rua Voluntários da Pátria, uma rua em Botafogo cheia de bares que enchem graças os clubes e a parte cultural que tem em volta.

Um bom happy hour sempre começa com uma polemica a ser discutida. Nem tão polemica, mas Luis contou que tinha terminado com um cineasta que vinha saído a dois meses. Alias, foi através dele que nos conhecemos. Eu trabalho com fotografia, Luis com design e Marc com jornalismo. Juntos alem da dominação global, planejamos editorias, zines, clipes, mas nada que saia muito do terceiro copo e quando eles me chamaram para escrever aqui, o “guilty pleasure” deles era mais para acabar com a discussão entre os dois. Marc chama o garçom pedindo mais uma cerveja para apaziguar os animos.

“A nossa sorte é que não engravidamos, porque o que escolhemos de homem ruim...

“Nós? Ta nos incluindo nisso, é?”, disse Luis enquanto servia.

“Ué, ate onde eu vi algum de nós não está solteiro? E eu pelo menos tenho o Andrezinho, e as senhoras que estão encalhadas?”

“Nem vem com essa, Marc. Sexo casual com um garotinho de 18 anos não é um relacionamento minimamente saudável.”

“Ainda bem, porque estes são os piores que existem.”

“Olha, não sou a favor do cafajestismo dele, mas tenho de concordar com o Marc. A safra de homens bons está ruim, meus caros. Ou saímos com os sapos ou ficamos a imaginar o príncipe sozinho em casa”, repliquei.

“Pois eu ainda acredito no amor, em encontrar alguém e ser feliz.”

“Porque terminou com o cineasta, então?”

A conversa continuou, mas a imagem dos dois opostos na mesa de bar e na vida amorosa ficou na minha cabeça.
Quanta gente interessante e solteira não está aí fora, a procura mesmo depois de decepção depois de decepção? Ao mesmo tempo quanta gente não está criando e destruindo expectativas próprias e dos outros em um eterno jogo de quebrar corações?
Afinal temos de admitir também que a flexibilidade de se ficar com alguém do mesmo sexo permite permutações que mais atrapalham do que ajudam, neste caso. O cineasta foi meu ex e eu já havia ficado com o Luis. Se fossemos heteros, esse tipo de situação nunca aconteceria porque no meio disso tudo ia ter de ter uma mulher no mínimo. Esse tipo de idéia me levou a minha teoria de que nós, gays, ficamos com o pior dos dois arquétipos sociais, pois ao mesmo tempo em que alguns ligam seu coração ao sonho de terem um relacionamento com o cara lindo e rico te levando pra Narnia e te fazendo feliz para sempre, como manda toda boa comédia romântica temos também aqueles que o coração é ligado diretamente ao pênis e que a performance sexual se torna vital, mesmo que ele não tenha vários parceiros. De qualquer forma, nem o que acredita em conto de fada, nem o que acredita na vida como um filme pornô é feliz. E todos contribuem para a roda de frustração e fantasia que terminam em mesas de bar.

“Ah é? Se eu sou o machismo pornográfico e o Lu é o romantismo feminino, você é o que, Thi?”, diz Marc em um meio tom de escárnio.

“Não é obvio? Ele é o que gosta de sofrer... Tem o coração ligado ao cérebro, um curto circuito ambulante. Já passou o que? Um ano, dois e você ainda está nessa do Eduardo?”

“Pois é, eu parei pra pensar nisso esses dias. Às vezes acho que não sinto nada. Às vezes dói um pouco, sabe. Não quero vê-lo, mas sinto sua falta. Talvez apenas tenha de reaprender a viver sem ele...”

“Assim como ele o está fazendo sem você”, disse Luis colocando a mão no meu ombro e levantando seu copo. “Para todos aqueles com coração partido, um brinde. A noite pertence a nós.”



E você? Aonde seu coração está ligado?

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Você ainda pensa em mim?






Peguei o telefone e disquei o numero dele. Ele não reconheceu minha voz. Faz mais de um ano que não nos falamos. Precisava te ver. Naquele bar perto da sua casa, que tal? Que horas? Claro.

Neste momento começa a chover. Mesmo assim, com o meu guarda-chuva saio na esperança de conseguir falar o que sentia para ele. Três palavras e um milhão de problemas.

Acho engraçado como uma idéia de final feliz consegue mudar tanto. Um dia cheguei a acreditar que isto era algo mágico que poucos achavam e que se devia procurar incessantemente, ate encontrar. Depois, achei que tinha a ver com a pessoa certa no momento certo e tudo estaria perfeito. Mas depois de quatro anos e quatro temporadas achando, perdendo, vendo ir e vir; começo a achar que Amor é a mais dispensável de todas as prioridades da vida. Não por ser ruim, mas porque ele nunca vem sozinho.

“Eu o adoro, sempre saímos e fazemos tudo juntos” — Marcos 25 anos, casado a 2 — “Mas ele tem uma mania de não ligar depois do trabalho... ele sabe que só consigo dormir com ele me ligando a noite!”

“Matheus tinha ciúme dos meus amigos. Das minhas amigas também. Alias, acho que uma vez ele brigou comigo porque eu estava brincando com um cachorro. Não sei, só sei que tinha de esconder o celular, colocar ele em destaque como meu ‘marido’ em todas as redes sociais e sempre sorrir quando a mãe dele fazia uma piada...” — João Carlos, recém separado de um namoro de quatro semanas, “odiava a mãe dele, acho que só agüentei esse tempo todo por causa do sexo.”

“Você acredita que no dia seguinte que saiu comigo, ele não só não me ligou como foi para uma festa? Ta tudo no twitter dele, aquele safado fdp” — André, sobre o cara da noite anterior que ele não lembrava o nome completo, mas tinha todos os contatos dele.

Devemos ser a geração mais burra que existe por complicar algo bem simples. Antigamente namoro era namoro, se acabasse acabou, se ficasse serio casava. Hoje se fica é para experimentar sem compromisso, se namora para tê-los e o casamento? É apenas para destruir um ao outro. Não se pode simplesmente viver com alguém - homem, mulher, cachorro, o que seja - sem exigir que lembre, que ouça, que fale, que não fale, que ligue, que esteja lá...? O que aconteceu com viver um dia de cada vez com quem se ama? Afinal, quem inventou estas regras para o amor?

Tenho 23 anos e estou solteiro. Já tive maridos, namorados e ficantes suficientes para estar vacinado contra todos eles e ainda assim não consegui o final feliz que todo mundo vende. O problema disso é a falta de paciências para aqueles rituais batidos de acasalamento que os gays se submetem: o encontro de boate, o papo na internet, o amigo de um amigo, o primo, o colega de trabalho, entre tantas outras historias que querem ser únicas mas começam do mesmo jeito, seguindo as mesmas regras.

Entretanto, naquele dia chuvoso, quando vi Eduardo na esquina me esperando com seus óculos molhados e chinelos do jeito que ele ficava em casa eu tive a certeza: se o amor existe, era ele. Como jogar fora o livro de regras quando se ainda quer jogar?

Sou Thiago, a terceira geração do Crônicas.
Posso estar certo ou errado, apenas acredito naquilo que vivi.