sábado, 28 de fevereiro de 2009

Amor e outros desastres

É, o carnaval acabou. Das ruas já limparam os confetes, as garrafas quebradas e os bêbados que por ventura caíram no caminho. E você que bebeu, pulou e regojizou na frente de um trio elétrico, parabéns! Considere-se sortudo, pois para mim e meus amigos o carnaval foi uma zica só. Juntaram todos os desastres possíveis e colocaram em ‘cinco dias de folia’. Pro inferno, né. Oh papai do céu, porque resolveu descontar os meus pecados agora?

A começar pelo carnaval em si. Não entendo direito a graça do baticundum. Eu estava lá e vi as pessoas com os dedinhos levantados e as pessoas rebolativas e peitos e bundas e o sexo esfregado na minha cara. É sempre a mesma coisa. Fui para a Banda de Ipanema, o maior bloco gay do carnaval carioca, com a simples idéia de passar mais tempo com Edu. Acho que ele também não entendia o que estava fazendo lá, disse que queria me apresentar uns amigos, disse que seria divertido e eu pensei “Whatahell, quantas vezes você tem a chance de usar uma fantasia no meio da rua e parecer normal?” Entre pessoas saídas da praia, travas posando para fotos e carrinhos de ‘3 por 5 real’, seguimos juntos a massa ouvindo as batidas e sentindo o calor de rachar. Saldo final? Uma amiga lésbica olhando torto para mim, uma ressaca no dia seguinte devido a bebidas vagabundas, marca de camisa pelo sol de rachar e o dinheiro, bom o que não foi gasto foi roubado. Era um carnaval típico. Então eu fiz o que qualquer pessoa sã faz nessas horas. Eu disse: ‘Amor, adoro você, mas não saio de casa ate que o tapa sexo esteja fora de moda.’




Do outro lado da cidade, Fabio acordava em uma cama de motel. O começo da noite anterior estava um pouco nublado na sua lembrança, mas o final era bem claro. Esbarrou em X, um carinha que estava de olho há algum tempo, e eles ficaram conversando no canto do bar em uma noite quase mágica. Lá pelas tantas decidiram sair dali e ir para o motel para dormirem juntos. Sim, apenas dormirem. Era o tipo de cumplicidade e respeito que ele gostava e apesar de ser estranho acordar com um menu de sex shop na cabeceira da cama, não pode deixar de escapar um sorriso ao ver aquele homem dormindo ao seu lado. Saíram mais algumas vezes, mas sempre em algo casual-porém-íntimo. Aos poucos Fabio achou que ele era diferente. E nesse momento de impulso pegou sua agenda e ligou para todos os ‘números casos ativos’ e colocou-os no banco de reserva. Não queria que nenhum caso seu atrapalhasse esse momento dele.



Na terça, a saudade bate forte e Edu me chama para um programa sem alegorias ou adereços: o bom e velho cinema. “Só se for pra vermos ‘Milk’, e sim eu sou exigente quanto a filmes. [ se quiserem uma boa review do filme leiam no Admirável Blog Novo ] Marcamos no Shopping Tijuca, um dos poucos em que ele estava passando. Na ida já tinha reparado o quanto a cidade estava abandonada. Era como ‘Madrugada dos mortos’, onde só tinham papeis e bolas de feno voando nas ruas vazias e às vezes também aparecia um infeliz em fantasia de bate bola. Abstraí e fui ver o filme. Aliás, o recomendo, mas não quero discuti-lo agora. Tínhamos o shopping inteiro só para nós e só saímos depois que o Habibs tinha acabado com a dose dupla de chopp. Então já deve ter percebido que chegamos a Praça Sans Pena bem alegrinhos. Há poucos metros do ponto em que estávamos acontecia uma dessas festas de carnaval de bairro que lembra festa junina, mas é carnaval. De repente pessoas começam a correr no sentido contrario ao trânsito, vindo em nossa direção. Não entendemos nada, mas com o numero de pessoas aumentando, a tensão tomou conta do local. As pessoas correm para dentro de vans, ônibus ou qualquer veiculo com mais de três rodas, crianças aparecem jogando pedras, ouvem-se gritos e sons metálicos. Era quase um cenário de guerra civil. Mas era um arrastão. Carros de policia aparecem e aí vemos o quão feio a situação era. Como por impulso Edu pega a minha mão e me puxa para um sebo bem ao lado do ponto para sairmos da ‘area de tiro’. O lugar que estamos é diminuto e mal conseguimos ficar os dois lá dentro.

“Manda outro!”, grita Fabio batendo o copo vazio no balcão. Não somos russos, mas bebemos vodka como ninguém. Ele vira de costas para o bar enquanto lhe preparam o drink e olha X na pista de dança. Ele sorri e levanta um copo simulando um brinde. Fabio já sorri involuntariamente. Talvez também porque era seu sétimo copo. Eles dançam ao som de Kate Perry quando cheio de coragem e manguaça Fabio faz a pergunta. Sim, A pergunta. X na hora desmancha todo o rosto em um sonoro ‘NÃO’. Nem toda a vodka do mundo podia fazê-lo deixar de ouvir o seu coração quebrando. E então neste momento em que estava com o orgulho ferido se deu conta o quão exposto estava. Era musica eletrônica e chão de cimento e seus sentimentos escancarados para que um qualquer brincasse. Não era para ser assim. Fabio era mais, merecia mais e fez o que toda dancefloor diva faz nessas horas. Derrubou o copo todo na cabeça do bofe e o empurrou. Ele levantou os olhos a tempo de vê-lo saindo, virando com seu olhar mortal e dizendo “Você não merecia tanto.” E partiu para não olhar para trás.

Não existem regras gerais sobre sorte ou azar em quaisquer áreas, mas existem necessidades e oportunidades. Você sempre tem de estar pronto para aquilo que ainda pode te surpreender. Seja você um taxista passando desapercebido quando dois caras entram em seu carro e gastam 50 reais só para se ver longe de uma situação de perigo ou seja você um ombro amigo de um coração despedaçado que termina a noite com o melhor beijo da sua vida, sempre haverão vencedores enquanto houverem desastres.



[Agora o ano realmente começa.]





Para ouvir depois de ler: Los Hermanos - Todo carnaval tem seu fim

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Os velhos olhos vermelhos voltaram



A idéia de dividir meus textos em temporadas é uma tentativa de dar nome à fase da vida que estou. Olhando do primeiro texto ate o ultimo vejo o quant
o mudei, tanto em assuntos como em perspectivas. Evoluir é o processo natural para todo o ser humano, por isso não vejo mais ‘Blues’ na minha vida. Então mudo o nome que não alterará o conteúdo, mas apenas anunciará o modo como tudo será visto.

Com vocês a segunda temporada do Crônicas: Miracle of two



*Enjoy*

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"Os meus ciúmes eram intensos, mas curtos;
com pouco derrubaria tudo,
mas com o mesmo pouco ou menos
reconstruiria o céu, a t
erra e as estrelas."
Capítulo CVII de Dom Casmurro de Machado de Assis






Começar a namorar as vésperas do carnaval é considerado por muitos um suicídio emocional. É preciso estômago, saco e coração para resistir à tentação e/ou não ver o seu relacionamento virar confete na frente de um arlequim. Carnavais eu já tive alguns, logo de pierrô eu não tenho nada. Mas o carnaval realmente se tornou um teste para mim. Teste para mim e principalmente para ele. Mas nem foi preciso ver a banda passar para que o resultado aparecesse.

Centro do Rio. 37°C e vários passantes. Suor, cigarro e urina. O típico cheiro do centro de qualquer metrópole. Algumas pessoas olham seus relógios contando os segundos do ultimo dia antes do oba-oba dos blocos enquanto outras gritam seus produtos querendo ganhar os últimos quaisquer com o evento. As cores saturadas e vibrantes do Saara, o principal centro comercial do Rio, faziam parte do nosso cenário. A procura de uma fantasia era apenas uma desculpa para desbravarmos os cantos das lojas coloridas e passarmos um tempo juntos.

Vimos máscaras, perucas e toda a sorte de apetrechos até acharmos as fantasias que queríamos. Ele, com seus cabelos enrolados, seria um anjo surfista de bermudão e tudo. Eu com minha boa e velha calça skinny seria um demônio roqueiro. Um casal feito de opostos. Mas estou falando apenas da fantasia. A tarde de compras passou rápido e logo já era noite. Pegamos as sacolas e fomos curtir a Lapa.




Sentamos no Bar Arco-íris. Acho que antigamente o bar tinha algo de gay, vide o nome, mas acho que foi apenas isso que sobrou por que me pareceu um bar como outro qualquer com portas abertas para quem quer pagar a próxima rodada. E rodada após rodada nós estávamos lá, conversando e bebendo em assuntos sem fim. Não precisava de mais nada. Talvez de mais uma rodada, mas isso não foi problema. Acho que acabei falando para ele do blog, mas não dei o endereço. Não que tenha algo a esconder, mas acho que este espaço deva ficar guardado para mim.



Lá pelas tantas da noite, Fabio e Henrique me ligam. Desde que comecei o namoro não tenho saído muito com eles. Em parte por incompatibilidade financeira, mas a verdade mesmo é que desisti da madrugada. Eduardo foi o empurrão que faltava para que eu saísse das luzes estroboscópicas e flertes efêmeros. O que não quer dizer que desisti dos amigos. Henrique chegou primeiro acompanhado de dois colegas meio afetados, Marcos e Vinicius. Ambos tinham caipirinhas baratas nas mãos e moravam na zona sul. Típicos baladeiros. E enquanto diziam suas teorias sobre o carnaval ser melhor à noite ‘quando as pessoas estão mais quentes’, um dos moçoilos resolve ser solicito pra cima do meu homem.

“Ooooi, você quer um pouquinhoooww...”, disse com a voz arrastada, fazendo malabarismos linguais com o canudo e olhando esticado para os braços dele. “Ta tão gostoooosoooww...” e passa a mão no ombro dele.

Na hora, segurei o outro braço dele e sutilmente apertei. Não ia fazer cena, mas também não ia deixar barato. Com a cara mais lavada, cerrei os dentes e disse pra biscate fuzilando-a com o olhar “Não, querida, já estamos bebendo cerveja. Obrigado...”.

Olho para Eduardo e ele faz cara de interrogação.
“Aconteceu alguma coisa?”
“Alguma coisa?!? Você não viu aquelezinho
todo se querendo pra cima de você? Quase dei na cara dele... Que abuso!”
“Own... que bonito, meu ciumentinho...”

Ele me abraçou e logo me acalmei. Ele nem tinha reparado, é muito desligado nisso. Mas eu não sou e fiquei na raivinha da bicha. Não me entendam mal, não é ciúme. Ciúme é inventar uma situação de traição, ver mais do que realmente acontece e eu não inventei isso. Foi claro e evidente que o outro estava com segundas intenções para cima do meu Edu, o que foi puro desrespeito que não sou obrigado a agüentar ou tolerar.



Fabio chegou mais tarde e a noite se amenizou matando as saudades. Os meninos estavam na fila para uma festa e logo os semi-conhecidos começaram a aparecer. Dentre eles, Gustavo. Acho que já falei dele aqui, mas com outro nome que não vou recordar agora. O caso é que ele é um ex-caso. Simpático, veio me perguntar como estava e tudo mais. Tudo muito bem, mas havia algo de extremamente perturbador nele. Talvez porque ele conversava comigo olhando para a porta. A porta que estava atrás dele. Ou por que estivesse nervoso e quase monossilábico. Mas olhando para ele vi todos os tipos comuns de festa, mesmo àqueles que não se importariam em falar comigo na porta da festa, e pensei que poderia sim entrar naquele lugar e colocar metade dos homens aos meus pés, mas que nenhum deles me olharia nos olhos do mesmo jeito ou me faria reagir daquela maneira com raiva de um desrespeito como o cara que eu escolhi.

Sendo assim, os meninos entram na festa e eu voltei para casa com Edu.
E o carnaval começou.


*sobem os créditos*


Para ouvir depois de ler: the Killers - Mr. Brightside

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Eduardo apresentou seus amigos ao seu namorado durante a Banda de Ipanema e teve sua carteira roubada na Farme de Amoedo. Amaldiçoou o carnaval, mas saiu em uma escola de samba como destaque do abre alas.

Fabio encontrou um amor que o fez terminar com os sete casos que mantinha. Ele podia ser encontrado ontem dançando sem camisa em alguma boate no Rio.

Henrique saiu em quase todos os blocos e participou de um concurso de camiseta molhada, realizando assim sua fantasia de ser Pamela Anderson.


Marcos
[a bicha solicita] morreu atropelado por um trio elétrico desgovernado. Mentira. Mas eu queria que fosse verdade.


Gustavo conheceu um Holandês no Posto 9 que quer levá-lo para morar com ele. Gustavo ainda não contou que está no armário, nem para o gringo nem para a mãe.



Luiz Carlos escreve na madrugada porque não tem saco de ver os desfiles na Globo. Mas ainda assim está feliz por estar comemorando o seu primeiro carnaval ao lado de Edu.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Valentine's

‘E agora você tem de se perguntar apenas isto:
O que é felicidade para você, David?’

Noah Taylor como Edmund em Vanilla Sky






O relógio na cabeceira apita. Onze horas. É fim de noite naquele quarto de motel. Em uma poltrona antiga no canto eu observo a luz néon vermelha inundar o lugar. Mas a vulgaridade do ambiente parece não atingi-lo, que dorme pacificamente enrolado nos lençóis brancos. Seus cabelos despenteados caídos no rosto, seu corpo atlético marcando as voltas do único tecido entre o seu corpo e o mundo. Era algo bonito de se ver. Quase poético.


Poesia não é algo constante na minha vida, embora devesse ser. E ao olhar Eduardo eu sentia isso. Sentia varias coisas na verdade. Sentia o tesão que apenas um homem pode sentir por outro. Sentia carinho que apenas amigos trocam. Mas principalmente, sentia medo. Medo de fazer algo que definitivamente estragasse esta chance, medo de não ser o que ele quer e merece, medo de descobrir o que acontece depois do ‘felizes para sempre’, se é que ele existe ou que um dia vá chegar. Acho que isso é gostar de alguém. E na nudez do quarto e dos lençóis desarrumados, eu via meus medos estamparem as paredes e a resposta absoluta repousava bem no meio dele. Eduardo.

Não confunda meu excesso de pensamento com enrolação. Sei que namoro não é casamento, mas acho que tem de ser sério, pra valer. Não queria tomar uma decisão que uma semana depois me arrependeria. Meu maior defeito é a impulsividade e já paguei bastante por coisas que não pensei duas vezes antes de aceitar. Minhas historias estão aí para provar. Tudo o que eu queria agora era fazer a coisa certa e ficar em paz comigo mesmo.


‘O que está fazendo?’, disse ele, entreabrindo os olhos.
‘Nada... só olhando você...’
‘Volta pra cama, volta... Ta ficando frio aqui sem você.’, ele estica a mão. O lençol que o cobre escapa dos seus ombros e sua pele parece mais que um convite. Deito junto a ele e percebo o quanto ela está quente, ao contrario do que ele disse.
‘Eu estava pensando em uma coisa... Mas acho besteira comentar.’
‘Adoro besteiras, diga.’, respondeu, passando suas pernas entre as minhas.
‘Ontem.[...] O seu amigo.[...] é que, ele falando de nós no telefone e eu fiquei a pensar: o que somos nós?’
‘Nós?’
, repetiu abrindo os olhos e sorrindo para mim. ‘...Você quer definir algo?’, e sentou no meu colo com apenas um lençol entre nós.
‘ Awn.... Bem, definir coisas estando nu em uma cama é meio perigoso, não acha? ’, naquela posição não existia qualquer tentativa de argumentação.
‘ Hmm... Eu concordo... e o que podemos fazer nestas horas então....? ’


Poucas horas depois saímos de lá. Não calculamos bem as 6 horas, mas aproveitamos bem. Voltar para casa não era uma opção. O ‘bar do Adão’, no Grajaú, era. Edu já conhecia o local, um bar bem acolhedor e que incrivelmente estava cheio naquela hora. Sentamos pedimos algo e logo ja conversavamos sobre os mais diferentes assuntos.

‘Edu, sabe o que reparei agora?’
‘hmmm...’
‘Hann... Estamos vestidos e fora da cama...’
‘O quê?’, ele faz de desentendido e eu dou o olhar ‘ameaçantico’. ‘Ok, lembrei. Hora de colocar as cartas na mesa, né.’, riu-se.
‘É serio... Quero saber o que acha...’
‘Olha, sinceramente, não mudou nada de umas horas para cá. Estamos saindo há mais de um mês e eu não to saindo com mais ninguéme to muito bem com isso.’
‘Mais de um mês? Serio? Nem vi o tempo passar... bem, então acho que podemos tentar então?’
Ele aproxima seu rosto do meu e diz. ‘Eu adoraria, namorado...’

Nem sei se podíamos beijar ali, mas foi inevitável.

Pode chegar um dia que vamos brigar e ter problemas, mas se não deixasse meus medos e inseguranças de lado e tentasse ser feliz acho que iria ficar eternamente com a duvida do que o destino teria guardado pra mim. Acho que no final, amor é isso. Uma escolha de se arriscar com alguém que não é perfeito, que não tem um cavalo branco, mas pode te fazer feliz. E por enquanto tudo está em paz.

‘Lu?’
‘Oi, edu...’

‘Feliz Valentine’s day...’





[É hora de mudar as estações...]







Para ouvir depois de ler: Taylor Swift - Love Story


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Agradeço a indicação do Douglas do ProudBrasil ao Pinel&Juqueri:

"Representa todo espaço que de uma forma ou outra traduz um pouco das loucuras de seus/suas escritores/as. Esse espaço que temos pra mostrar ao mundo nossos momentos de loucura, curiosidades, entretenimento, descarrego...etc, etc."


Meus indicados são:

Alex e Elisa do Guia Gay
Pequeno Diabo da Oficina do Diabo
Gay Alpha do autor de mesmo nome
Daniel do Sem Bolso




Bom Carnaval para todos!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Peso do Nome ou Procurando Caminhos [Chasing Pavements]



Fim de tarde. Enquanto o sol pinta as janelas de vermelho coloco o som no ultimo volume para que as paredes ouçam a música. 19, Adele. Em cima da mesa, uma caneca de café da manhã com vodka da noite anterior para ajudar a tarde a descer. E eu, cansado, estou de óculos escuros dentro de casa. Odeio o horario de verão que traz a noite mais tarde, mas um pôr do sol é ainda um pôr do sol.




‘I've made up my mind,

Don't need to think it over,
If i'm wrong i am right...’


Minhas ultimas palavras foram para deixar a vida rolar, mas eu não ia deixar. As coisas são mais complicadas do que eu escrevo ou talvez sou eu que as complique. O fato foi que logo depois de dizer que precisava me libertar, eu me prendi. Eduardo é seu nome. Nos conhecemos no ano passado em uma jantar de lançamento do livro de uma amiga em comum. Com poucos copos, ja era o dono da mesa, conversando com uma metade e sendo assunto da outra. Reparei no garoto timido de ombros largos e cabelos enrolados no fundo, mas como a reciproca não foi verdadeira dei de ombros e aproveitei a mesa de frios. Meses depois nos esbarramos em uma festa. Semanas depois, na faculdade. Apenas conversas amigaveis. Há duas semanas atras, estava na Lapa em alguma festa alternativa a qual não consigo lembrar de muito. Mas o contexto não importa. Meus amigos tinham fugido para cantos escuros e eu estava sentado no bar observando a selva de pessoas com suas mais estranhas danças. Até que ele passou, sorrindo. Pedi um copo de coragem ao barman e fui atras do que queria. ‘Se for para levar um fora, encho a cara e culpo a bebida.’, pensei. E na frente do Dj, o puxei pelo braço e o beijei. Sem palavras, sem olhares. Apenas um beijo. ‘Por que você demorou tanto?’, foram suas primeiras palavras pra mim.

‘...Don't need to look no further,
This ain't lust
I know this is love but....’

Nos dias seguintes passamos a nos ver quando podiamos. Acho incrivel a desenvoltura dele quando estamos sozinhos. Era ate engraçado pois apesar de ser bem resolvido consigo mesmo ele ainda assim era timido. Poucas pessoas são assim. Ele fazia tudo parecer natural, e realmente era. Um passeio pela Lagoa de mãos dadas e somos um casal como outro qualquer. As conversas fluiam com toques de mão e risadas. Eu não sei quanto a ele mas eu via aonda aquilo iria dar. É só uma questão de alguem puxar a pergunta chave. Ele não a faria por sua timidez e eu, por insegurança. Mas a cada encontro, cada sorriso, cada beijo as coisas entre nós se aproximavam e a tal pergunta roda e roda na minha cabeça. Afinal, o que somos ‘nós’?

Ultima sexta-feira, a 13ª. Acordo e uma mensagem dele ja está no meu celular. ‘Vamos fazer algo neste fim de semana?’ Acho graça. Sempre gostei de planejar finais de semana, mesmo quandos os planos acabavam não acontecendo. Me faz sentir parte de algo, de alguém. [...]O dia segue a rotina. Minha aula acaba cedo e estou sentado no ponto de onibus. Meu onibus se aproxima, mas decido não entrar nele. ‘Sim, fazer algo diferente’, penso. Duas quadras dali era o estágio dele. Conveniente, admito. Ligo e ele vem sorrindo. Sentamos na cafeteria. Logo alguns amigos deles aparecem, todos muito simpáticos. Uma hora ou alguns minutos depois, o celular de um deles toca. ‘é o Fulano, meu namorado, sabe...’, disse para nós e voltou-se para o celular, ‘oi, amor... aham... sim, eu vou te ver hoje, to saindo daqui agora... onde eu to? To aqui no estagio com o Edu e... aham... um amigo colorido dele... ‘

‘... Should i give up,
Or should i just keep chasing pavements?
Even if it leads nowhere...’

Eu nem estava prestando atenção ao que ele falava, mas a ultima coisa perfurou meus ouvidos de tal maneira que tive que parar. ‘Amigo colorido’? Escrevendo agora acho que parece um pouco demais, mas me senti ofendido. Me senti um ursinho carinhoso. O amigo–simpatico desligou o celular e saiu saltitante para encontrar o namorado. Eu olhei para Edu e perguntei o que foi aquilo. Incrivelmente ele achou normal, alem de apropriado sermos denominados ‘amigos coloridos’. Na hora não forcei a barra, afinal tambem não sabia que outro nome dar a ‘isso’. Não éramos namorados embora pudessemos ser um dia. Achei que o mais apropriado seria ‘ficante’, mesmo com toda a conotação promiscua que este nome tem. Mas ainda assim porque dar nomes?

‘... Or would it be a waste?
Even if i knew my place
should i leave it there?...’

Palavras tem pesos, nomes mais ainda. Entretanto o que me atormentava naquilo era como as pessoas, e principalmente ele, consideravam as relações afetivas. Ou seria eu que não sei o verdadeiro peso das palavras? Quero dizer, dentre o meu grupo de amigos todos ja beijaram todos em alguma festa, seja por tesão, seja por excesso de bebida. Logo seriamos todos ‘amigos coloridos’. Imagino que isso seja normal entre gays, é o tipo de interação e amizade que heterosexuais não tem. Por isso achei o termo ‘amigo colorido’ banal, para não falar infantil. É isso ou eu dei muita importância ao meu relacionamento com Edu, o que acho parece provável. Acho que a fantasia de ‘um namorado da faculdade que marcará essa época’ já está fora de moda. A onda agora era todos sermos coloridos.

'decifra-me ou te devoro'

‘...Should i give up,
Or should i just keep chasing pavements?
Even if it leads nowhere.’

A ultima estrofe da musica e um suspiro. Às vezes cansa se sentir tão diferente dentro do seu próprio grupo. A bebida ja está quente e a minha cabeça tambem. Vou encontra-lo esta noite e esperar que independente do nome que isso tenha continue como está.






Para ouvir depois de ler: Sia - You have been loved

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

the devil is on the details

"Se o seu passado te condena,
faça com que o seu presente te absolva
e o seu futuro te liberte."

PJ



Como perder um homem em 10 dias. Matthew McConaughey pula em sua moto atrás de Kate Hudson. “Isso que escreveu é verdade?” “Fui sincera em cada palavra” Eles se beijam. E eu estou com meus olhos inchados, beicinho e um pote de Hagen Das pela metade. Não sei que bicho me morde às vezes, que idéias intrusivas ficam martelando na minha cabeça, como porque não estou namorando ou porque fulano não me liga ou ainda porque o Matthew McConaughey não está correndo de moto atrás de mim? São indagações importantes! Não, não são. É um ciclo de auto-piedade e doces que destroem minha auto-estima, para não falar na minha boa forma.

Depois de uma semana sem notícias minhas, Henrique foi me visitar.

“O que aconteceu com você?”
“Nada, só mais um dos meus momentos Bridget Jones. Quer café?”
“Não, trouxe vodka. E tenho novidades...”.

Henrique é do tipo que tem sempre notícias para contar. Em grande parte, por ser simpático e comunicativo, o que o faz ter amigos onde menos se espera. Mas a verdade é que ele até gosta de um pouco de fofoca. E sendo meu amigo há 10 anos [ou mais], temos muitas histórias e pessoas em comum. Com pouco tempo de conversa já tinha esquecido o filme e tinha caído na vida real.

Fabio tirando foto minha e do Henrique. ou talvez do chão.

O aniversário de Fábio era na semana que vem e tínhamos que fazer uma surpresa. Mariana desapareceu por duas semanas por causa de um trabalho ou de uma garota, embora os ‘rumores’ é que Mariana se envolvia com um casal... “Falando em casal eu tenho de te mostrar uma coisa... Nem sei se deveria, mas olha isso.”, disse me entregando com certo receio um convite mal feito no Photoshop.

“É com imenso prazer que é convidado para a cerimônia de casamento de PJ e esposa-que–não-lembro-nome.”

Li umas dez vezes até entender esta frase.

“Sim Luiz, ele se casou. Era uma antiga namorada que estava morando com ele. Ela ficou grávida, ele foi para o altar. Um desperdício...” Demorei um pouco para digerir aquilo. Na página pessoal dele, uma foto da cerimônia e “uma nova fase, a felicidade bateu à minha porta”.



Conheci PJ na época em que namorava A. A o odiava e com razão porque ele era lindo. Ainda é. Ele era professor de alemão e eu o melhor aluno de sábado de manhã. Enquanto estive com A, minha relação com ele era estritamente professor-aluno. Mas quando terminei pela primeira vez com A [foram duas] o professor foi o primeiro a me dar o ombro para chorar. Tivemos um caso rápido, mas intenso. Poucos meses que se acabaram quando o namorado-amante começou a incomodar o professor-aluno. Saí do curso apenas com algumas lembranças de madrugadas nuas ouvindo música em seu sofá. Eu tinha 16 e ele 27. Um flash que passou na minha cabeça ao ver sua foto sorridente.

“Sabe, apesar disso acho que ele nunca te esqueceu...” disse Henrique, sempre vendo o lado romântico das coisas.
“Que seja. Ele está bem. Melhor do que eu, aliás.” Disse, fechando a pagina e sentando na cama.

Estranhamente aquilo não me afetou do jeito que deveria. Foi exatamente o oposto. A e PJ foram namorados perfeitos, com suas lembranças e momentos bons. Mas porque caras perfeitos não trazem relacionamentos perfeitos? Não pode ser só culpa minha. A culpa é do tempo. Encontrar a pessoa certa no momento errado faz o amor ser mais difícil, ou pelo menos não vivido plenamente como nos filmes e livros. É como se tudo tivesse a sua hora. Um martírio para alguém ansioso como eu. Mas aceito isso. Com 20 anos, eu trabalho e estudo para tentar garantir uma vida estável e ainda dependo dos meus pais. No pouco tempo que sobra, ou estou dormindo ou em uma pista de dança, deixando minhas frustrações no chão. Amor precisa mais do que tesão entre duas pessoas, precisa de tempo, compreensão e principalmente dinheiro, porque acreditar que o príncipe milionário vai te levar pra Índia só na novela mesmo. E essas coisas eu não disponho sobrando no momento. Tenho de viver o que me compete. Esta é a idade do meu auge físico [?]. Se não houver loucuras e excessos quando vou realizar isso? Aos 30, 40, 50?

Eu sei que PJ vai acabar se arrependendo do casamento e vai ficar com um cara. Eu sei que A. vai se ver sozinho e vai bater na minha porta. Não sei quando isso vai acontecer. Mas não é por isso que vou deixar de viver pela esperança de que estes romances voltem.

A minha hora é agora.

Perdoem-me os Deuses do Amor e do Romance, mas o que eu quero agora é pecar.






Para ouvir depois de ler: Come into my world – Kylie Minogue